sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Sebastião da Gama entre os "Poetas (d)e Azeitão"

O título “Poetas (d)e Azeitão” diz tudo – a naturalidade ou a temática azeitonense presentes na poesia ao longo dos tempos. Simultaneamente, uma homenagem aos poetas locais, com particular incidência nos poetas populares. E o visitante passa assim por pouco mais de uma dúzia de nomes, em que coabitam alguns consagrados com outros que, embora epígonos, vão preenchendo a poesia dos dias com os versos com que alimentam a vida. Alguns destes poetas têm obra publicada em livro; outros nunca reuniram os seus escritos para publicação; outros ainda divulgam-se em sítios de poesia na internet.
A exposição, cujo trabalho de recolha se deve sobretudo a Vanda Rocha, pode ser vista até 28 de Janeiro no Museu Sebastião da Gama, em Azeitão, onde convivem rimas de Alcindo Bastos, António Poeiras, Arronches Junqueiro, Carlos Alberto Ferreira Júnior, Francisco Teles, Joaquim Caineta, Joaquim Oliveira, José Gago, Manuel Frango de Sousa, Manuel Maria Eusébio (“Calafate” – cujo centenário de falecimento passou em Novembro), Margarida Caineta, Maria Cândida Parreira e Sebastião da Gama.
De Sebastião da Gama estão presentes dois textos, digitalizados a partir dos manuscritos originais: uma “Poesia”, de 1943, primeira versão do poema “Serra Mãe”, com algumas diferenças relativamente ao texto que é conhecido e que integra o livro com o título homónimo publicado em 1945; e o poema inédito “Vira de Vila Nogueira”, de Dezembro de 1941, assinado por “Tarro”, o pseudónimo que Sebastião da Gama utilizou em alguns dos seus poemas mas que nunca acompanhou os textos publicados. A nossa Associação colaborou neste evento através da cedência destas digitalizações.
Na abertura da exposição, em 17 de Dezembro, o vereador André Martins fez questão de sublinhar que, sendo esta uma homenagem aos poetas azeitonenses, era também uma forma de começar a assinalar os 60 anos sobre o desaparecimento de Sebastião da Gama, que passam em Fevereiro de 2012. – JRR

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Sebastião da Gama, navegador…

…sim, mas de palavras, de poemas, descobridor de caminhos do lirismo. Essa foi a navegação do poeta azeitonense Sebastião da Gama, referência cultural inultrapassável da literatura portuguesa do século XX.
A ideia do “navegador” veio do programa “O Elo Mais Fraco”, transmitido na RTP hoje, quando à pergunta “O português Sebastião da Gama distinguiu-se como escritor ou como navegador?” o concorrente respondeu “Navegador”.
Compreende-se o lapso por poder resultar da confusão com Vasco da Gama. No entanto, não se aceita, mesmo pela diferença do tempo que separa ambos. Só espero que, como entre os concorrentes havia dois de Azeitão e uma de Quinta do Anjo, pelo menos estes três soubessem de quem se estava a falar…
Quanto ao resto, só podemos pensar que nos pesa a responsabilidade de continuarmos a divulgar Sebastião da Gama e a sua obra. O próximo ano, em que passam 60 anos sobre a sua morte, pode ser um bom pretexto para que mais se fale dele.
Sebastião da Gama, escritor e navegador de poemas, bem merece ser conhecido! – JRR

sábado, 24 de dezembro de 2011

Boas Festas (e um poema inédito de Sebastião da Gama)

NATAL

Eu não tenho razão pra estar triste.
- Eu hoje sou a estrela e os Reis Magos
e sou a ovelhinha do Presépio...

Mas vou triste, Menino de Belém!
Não me lembro que faltam
trinta e três longos anos pra que eu seja
a dor que há-de matar a tua Mãe.

Sebastião da Gama, 25 de Dezembro de 1944

sábado, 26 de novembro de 2011

Miguel Real: Leitura pessoal do "Diário" de Sebastião da Gama

Recentemente reeditado pela mão do professor João Reis Ribeiro, que assina uma notável introdução, Diário (Editorial Presença), de Sebastião da Gama, dele recolhemos o exemplo de um verdadeiro professor.
Com efeito, um conjunto de dez características estatui este diário de um estagiário das disciplinas de Português e Francês no modelo (ideal) de um perfeito professor. Neste sentido, o genuíno professor do ensino básico e secundário seria:

1. – aquele que lecciona contra o racionalismo pedagógico, o academicismo, o eruditismo, a retórica balofa, o estilo pedante e pomposo, a orientação pedagógica livresca e moralista, a total vinculação ao estudo do passado literário sem compromissos estéticos actuais;
2. – aquele que, como pulsão de desejo pedagógico-estético, munido de suficientes portas e janelas por onde corre o ar fresco da criação nova, interpenetra na sala de aula de conhecimento e criação;
3. – aquele que dá aulas contra a cultura como efeito de propaganda e contra a cultura como forma de imbecilização de massas;
4. – aquele que não trata o aluno nem como idiota nem como génio, e celebra a multiplicidade de personalidades em desabono da unidade;
5. – aquele que na sua aula foge de perspectivas culturais mecânicas, abstractas, descarnadas, presas a cadáveres teoréticos, ausentes dos nervos e do sangue da vida, isto é, das emoções e afectos humanos que, na sua diversidade, compõem o coração da literatura, da cultura e da história;
6. – aquele que, na sala de aula, aspira a promover o diálogo, não a tagarelice; o debate, não a cristalização dos argumentos numa fortaleza ideológica, isto é, ouve o aluno;
7. – aquele que, na sala de aula, escapa ao argumento repetido, à teoria mil vezes explicada ou mil vezes aplicada, à terminologia mil vezes repisada;
8. – aquele que, na sala de aula, desmascara a cultura “descartável”, confeccionada para ser vendida, consumida e deitada fora como um par de sapatos velhos, e desconstrói a cultura de massas que não possui ideias a alimentá-la, ideias originais, fortes, sólidas, que possam iluminar a realidade e perturbem a vida do aluno – uma aula, como um romance, um poema, um ensaio, deve ambicionar a mudar a vida (ou parte da vida) do leitor, abrindo-lhe um outro plano no horizonte da sua vida;
9. – aquele que, na sala de aula, reclama uma exigência de rigor ético cujo objectivo último residirá na maior amplidão da lucidez do aluno, isto é, da capacidade crítica da razão do aluno;
10. – Aquele que faz da sua aula um espaço de transgressão estética, de desmando cultural, de provocação analítica.

O Diário de Sebastião da Gama prova que as suas aulas não se destinavam apenas à formação ou consolidação da personalidade do aluno, mas também à concessão de liberdade. Para Sebastião da Gama, educar era amar e conceder liberdade e respeitar a liberdade alheia, mormente a do aluno. A profissão de professor e a vocação maior da escola residiriam, assim, em última análise, segundo o autor, na educação da liberdade do aluno e na construção de um espírito fraterno entre toda a comunidade escolar – e, portanto, na possibilidade do aluno errar como de acertar, de falhar como de conseguir, no sentido de que cada aluno, quando adulto, se tornasse um cidadão eticamente exemplar.
Dar aulas, para Sebastião da Gama, significava igualmente, tendo em conta a mentalidade que anima a pedagogia contemporânea, enformada pela atmosfera científica do século XX, que a escola devia visar a criação de um homem socialmente plural, crente no valor da técnica e da tecnologia como modo de solucionamento das questões sociais, mas também de um cidadão humanista, crente no valor da lei, da moral e, sobretudo, da poesia, de uma filosofia humanística que harmonizasse os homens entre si.
Para Sebastião da Gama dar aulas significava que o professor e a escola se constituíam como os instrumentos que a sociedade utiliza para elevar a criança ao nível formativo do adulto, tendo em conta ser o aluno, ele próprio, o destinatário privilegiado de toda a educação, mas não o aluno abstracto, modelo perfeito do aluno sábio, antes o aluno tal como se apresenta concreta e existencialmente, não raro carregado de preconceitos sociais transmitido pelo meios de comunicação de massas. Neste sentido, mais do que científicas, as suas aulas eram humanísticas e existenciais.
No Diário constatamos a existência de uma permanente actualização metodológica e instrumental da escola e dos professores. Com efeito, a antiga pedagogia, centrada no professor, nada resolve hoje em dia quando este, ainda que adulto e mais sábio, já não constitui modelo e exemplo para alunos púberes e adolescentes. Sob a capa de um rigorismo académico, a acção destes professores pode afastar os alunos dos conteúdos da sua disciplina, quando não se torna ela própria desadequada face à nova estrutura familiar e à nova cultura da empresa, mais descentralizadas e multipolares. Sebastião da Gama toma directo partido pela “nova” pedagogia, que centra a aula, não exclusivamente no professor, mas tanto no aluno quanto nos materiais pedagógicos – por isso promove a semana da Poesia e toma inúmeras iniciativas no interior da sala de aula. Teve razão antes do tempo – de facto, a Pedagogia hoje chegou a esta conclusão, o professor deve centrar a aula nos materiais ou suportes do acto de ensinar, adequando à estrutura cognitiva e existencial do aluno.
Assim, em conclusão, o conceito de educação em Sebastião da Gama é, em suma, para além da formação de uma personalidade, a concessão de liberdade. Educar é conceder liberdade, respeitar a liberdade alheia, mormente a do aluno, por muito que hoje essa concessão nos pareça utópica ou, face aos constrangimentos sociais, mesmo perversa. A profissão de professor é, assim, entendida como aquela que educa disponibilizando liberdade – e, portanto, a possibilidade de errar como de acertar, de falhar como de conseguir, de ser eticamente exemplar como de ser maleficamente exemplar. Santo ou cafajeste, cada um faz-se por si, respondendo à sua espontaneidade interior, que, sobre as circunstâncias sociais, favorecendo-as ou contraditando-as, é a sua liberdade.
Deste modo, a mentalidade que animava a Pedagogia oficial do tempo de Sebastião da Gama, enformada pela atmosfera científica do século XIX, visa a criação de um homem social uniformizado, crente no absoluto valor da técnica e da tecnologia como modo de solucionamento das questões sociais, um homem abstracto, regulado por leis jurídicas universais. Porém, Sebastião da Gama, no seu Diário, não nos fala desse homem uniformizado e universalizado, de que o professor deveria exemplo e instrumentos social.
Miguel Real
10 de Outubro de 2011.

[Comunicação apresentada no encontro "A Educação a partir do Diário de Sebastião da Gama", que aconteceu na Biblioteca Municipal de Palmela, em 28 de Outubro, inserido no programa de recepção à comunidade educativa, por iniciativa da Câmara Municipal de Palmela.]

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O "Diário" não está na lista... mas podia (devia) estar

O último número da revista Os Meus Livros (nº 104, Novembro.2011) apresenta como tema de capa “Os Caminhos do Ensino”. No interior, em quatro páginas, o texto “De zero a vinte” apresenta duas dezenas de títulos bibliográficos pretendendo olhar “vinte livros que são um ponto de partida para olhar as questões do ensino com outros olhos e compreender um pouco melhor algumas das questões que causam discordância, mas necessitam de respostas”.
Por este escaparate passam as obras: Se não estudas estás tramado, de Eduardo Marçal Grilo; O “eduquês” em discurso directo, de Nuno Crato; A Educação do meu umbigo, de Paulo Guinote; A minha sala de aula é uma trincheira, de Bárbara Wong; A arte de ensinar, de Alan Haigh; 19 argumentos para reconst(ruir) a escola pública, de Luís M. Aires; Professores e escolas, de Evangelina Bonifácio Silva; O pequeno ditador, de Javier Urra; Pais que educam, professores que amam, de Joaquim Machado; O ensino passado a limpo, de Santana Castilho; A aprendizagem cooperativa na sala de aula, de José Lopes e Helena Santos Silva; Boas práticas na educação, de António Estanqueiro; O valor de educar, o valor de instruir, de Fernando savater e outros; O Centro Escolar Republicano Almirante Reis, de Célia Oliveira Pestana; Salazar e a Escola Técnica, de Albérico Afonso Costa; Rómulo de Carvalho – Ser professor, organizado por Nuno Crato; O professor, de Franck McCourt; Não os desiludas, de Manuela Castro Neves; Fui professora do ensino primário, de Sara Tiago; SOS tenho de passar de ano, de Renato Paiva.
A questão, numa escolha de vinte títulos, é saber quais os primeiros vinte, quais os segundos vinte e assim por diante, é óbvio. Mas estranha-se que o Diário, de Sebastião da Gama, não tenha entrado na lista. Por vários motivos: por ter ajudado muita gente a abraçar o ser professor, por ser o relato de uma boa experiência, por não ter perdido actualidade, apesar das seis décadas que sobre ele já passaram. Esta omissão é tanto mais notória quanto, no texto introdutório a esta escolha, se evoca Sebastião da Gama a propósito não do Diário, mas de um poema que recorrentemente é citado: “Professor e poeta, Sebastião da Gama ficará para sempre ligado a um célebre poema, onde expressa bem a necessidade de acreditarmos e seguirmos em frente, demonstrando como a ausência de valores nunca engrandeceu uma sociedade – apesar de igual necessidade em questioná-los ciclicamente porque pelo sonho é que vamos, / comovidos e mudos. // Chegamos? Não chegamos? // Haja ou não haja frutos / pelo sonho é que vamos.
Foi pena, pois, não ter sido inserido o seu Diário na lista apresentada! [Uma declaração de interesses: obviamente, a Associação Cultural Sebastião da Gama pugna pela divulgação e estudo da mensagem do seu patrono, com particular relevo para o Diário; por outro lado, estou ligado a esta obra, uma vez que preparei a mais recente edição que dela se fez, em 2011, pela primeira vez completa e anotada.] – JRR

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Ouvir "Pasmo", de Sebastião da Gama

“Pasmo” é poema de Sebastião da Gama, datado de 29 de Julho de 1944, logo inserido pelo poeta no seu primeiro livro, Serra-Mãe, em 1945.
A sua audição está agora disponível na net, através do Youtube, pela voz de Raul Resendes, a partir do programa “Poema do Dia”, dedicado à poesia, em co-produção da Associação Cultural Despe-Te Que Suas e da Antena 1 / Açores, com o apoio do Governo açoriano.
Na gravação disponível, constam ainda comentários finais da autoria de Carla Mota e de Urbano Bettencourt.

sábado, 19 de novembro de 2011

Dos associados (25) - Luís Amaro

Em 1949, Luís Amaro (que é nosso associado desde o início) publicou o livro Dádiva (Lisboa: Portugália Editora), que mereceu de Sebastião da Gama uma carta de amigo, mais que de leitor. Ou talvez nela contendo as duas perspectivas, nela dizendo a dada altura: “O teu livro tem, além de muita poesia, de muito coração, de muita honestidade humana e de Artista, uma unidade que eu invejo”. No Diário, Sebastião da Gama registaria também, em curta e sentida nota (18 de Fevereiro de 1949): “Ao escrever isto – ser professor é dar-se – lembro-me do amaro. Pobre querido Amigo, tão nobre, tão modesto, tão pudico da sua intimidade. Um António Nobre que chegou tarde, uma flor que o vento magoou… Há três anos que lhe peço o livro: ele, tímido, recusa sempre mostrá-lo ao mundo. (…) Pois há uma semana encontrei o Amaro. Acompanhei-o. Junto de um portal, com medo de que alguém que passasse ou ouvisse, segredou-me: ‘Vou publicar.” – ‘Diário Íntimo?’ – ‘Não. Dádiva.’ Senti cá dentro uma lágrima que era a compreensão exacta e comovida daquele nome. Dádiva. Dádiva. Dádiva.”

Em 1975, Luís Amaro publicou Diário Íntimo (Lisboa: Iniciativas Editoriais), aí incluindo Dádiva, voltando a editá-lo em 2006 (Lisboa: & etc). Agora, nova edição surge – Diário Íntimo – Dádiva e Outros Poemas (Licorne, 2011), que merece nota no caderno “Atual” saído no Expresso de hoje, assinada por António Guerreiro, uma nota que é muito mais sobre o valor de Luís Amaro enquanto pessoa do que sobre o livro e que vale a pena ler para se ter uma ideia da importância do nome de Luís Amaro na literatura portuguesa do século XX. – JRR

Dos associados (24) - David Sequerra

Na semana que passou, o Secretário de Estado do Desporto e Juventude, Alexandre Mestre, esteve em Sesimbra, onde visitou o Grupo Desportivo de Sesimbra. No final da visita, o governante enalteceu o papel desempenhado por David Sequerra na área do desporto entregando-lhe a Medalha de Bons Serviços Desportivos. Aqui fica o recorte com a notícia saída na edição do Sem Mais Jornal de hoje e aqui se registam os parabéns ao nosso associado David Sequerra. – JRR

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A "Cantilena", de Sebastião da Gama, em Frankfurt

Sebastião da Gama esteve presente em Frankfurt, na manifestação de portugueses que não aceitam o encerramento do vice-consulado daquela cidade. Segundo a edição online do Notícias Lusófonas, a tarde de ontem viu cerca de um milhar de manifestantes a reivindicarem a continuidade do vice-consulado, recorrendo a conhecidas canções de intervenção, entre as quais constou a “Cantilena”, que foi musicada por Francisco Fanhais.
Muito embora este poema não tenha sido produzido com intenções políticas, a verdade é que a imagem do rouxinal impedido de voar por lhe terem cortado as asas constituiu um bom pretexto para a poesia e para a música de intervenção, tendo merecido a atenção de Fanhais na década de 1960.

sábado, 22 de outubro de 2011

Memória – Rui Serodio (1937-2011)

A notícia chegou brutal: morreu o Rui. Do lado de lá, o Jorge Calheiros falava emocionado. E foram uns segundos de silêncio a tentar aceitar o destino…
Há dois dias, enviei-lhe uma mensagem a saber da sua saúde e a dizer-lhe que tinha saudades de nos encontrarmos. Não respondeu. Como já não respondia a vários amigos há algum tempo. O estado de saúde não deixava…
Logo que o Jorge acabou de me dar a notícia, telefonei a outros amigos comuns. Espanto, desgosto, dor. Refugiei-me a ouvir, porque a tinha no carro, a música “Arrábida Minha”, que o Rui Serodio integrou no cd “The mystic of the piano”, homenagem que ele merece.
Tenho saudades do Rui. Muitas. Do seu humor fino. Do seu saber musical. Da sua vontade de animar projectos. Dos seus sonhos envolvidos em pautas e em sonoridades afáveis. Do seu estar. Do seu nunca saber dizer que não. Do seu olhar sobre a música – deixou registado no seu blogue: “Passei toda a minha vida integrado no mundo activo da música e estou intensamente ligado ao passado. A minha música pode parecer, muitas vezes, enigmática, mas é, frequentemente, o reflexo de duas formas de arte combinadas, a poesia e a pintura.”
Fico satisfeito porque tive a oportunidade de finalizar um projecto com ele – o do cd “Sebastião da Gama – Meu caminho é por mim fora”, cuja música é de sua autoria. Um dia, telefonou-me a dizer algo como: “Tenho arranjado música para muitos poetas e sinto-me mal por ainda não ter musicado Sebastião da Gama. Vamos fazer esse projecto?” Disse-lhe logo que sim e só depois fui ouvir os meus colegas da Associação Cultural Sebastião da Gama. Todos concordaram e o projecto começou a andar. E chegou a bom porto. A nossa satisfação foi grande. E a do Rui também, mesmo porque sentia que pagava um tributo ao poeta da Arrábida!
Tenho saudades do Rui, tenho. E vou continuar a ouvi-lo, porque ele merece. E a nossa amizade também. Fico contente por ter conhecido o Rui! - JRR

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Rogério Claro: livro e exposição na Biblioteca de Setúbal

Rogério Peres Claro foi colega de Sebastião da Gama e teve um percurso geográfico como professor semelhante ao do poeta azeitonense. No seu tempo de 90 anos, Peres Claro tem um contributo cívico e cultural inegável no plano da história local sadina - autor de uma colectânea de memórias históricas em vários volumes (Setúbal de há 100 anos) e de uma monografia sobre a Escola Secundária Sebastião da Gama (Um século de Ensino Técnico-Profissional em Setúbal), foi ainda divulgador cultural, tradutor, editor da obra do poeta Calafate (António Maria Eusébio), seu familiar, e das memórias paroquiais de Setúbal de 1758.
Este último título, editado no final da década de 1950, revela-se documento importante para o conhecimento das freguesias de Setúbal setecentistas e encontra-se esgotado desde há muito.
Pois Sábado, 22 de Outubro, a Biblioteca Municipal de Setúbal vai acolher uma exposição bibliográfica sobre Peres Claro, ao mesmo tempo que será apresentada ao público a nova edição das memórias paroquiais de 1758, iniciativas conjuntas do Centro de Estudos Bocageanos, da Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão e da Associação Cultural Sebastião da Gama e da própria Biblioteca Municipal sadina. O encontro será pelas 16h00, com entrada livre.

domingo, 16 de outubro de 2011

"Pelo sonho é que vamos", de Eduardo Carqueijeiro e Nuno David

"Pelo sonho é que vamos", de Eduardo Carqueijeiro e Nuno David
(obra pintada durante o concerto do grupo e-Vox na noite de ontem e oferecida pelos autores à Associação Cultural Sebastião da Gama)

Sebastião da Gama (en)cantado

A actuação do grupo e-Vox na noite de ontem, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal, no programa de actividades do mês da música, interpretando poemas de Sebastião da Gama musicados por Salvador Peres (um dos elementos do grupo) provou bem que com a prata da casa se podem fazer belos espectáculos e que aquilo que é feito com gosto e dedicação atrai público. De facto, os sete poemas cantados, a que se somaram vários outros ditos por Elisabete Caramelo e por João Completo, entusiasmaram o público e confirmaram, para lá da dedicação de que já falei, estarmos perante um importante marco da cultura setubalense e portuguesa como é o "Poeta da Arrábida".
O concerto tomou o nome do título de um dos mais conhecidos poemas de Sebastião da Gama, “Pelo sonho é que vamos”, apresentando os textos “Quem me quiser amar”, “Nupcial”, “Rosas”, “Soneto do Tempo Perdido”, “Cantiga de Amor”, “Anunciação” e “O sonho”. Dizer que o público se deixou arrebatar é pouco – é que a sensibilidade posta na interpretação musical, a alegria transmitida pela voz de Diná Peres ou o adequado ritmo de leitura dos dois “diseurs” foram condimentos que conseguiram dar azo a que a mensagem do “Poeta da Arrábida” se tornasse presente e marcante.
Simultaneamente, funcionou um ateliê de pintura, em que intervieram dois conhecidos pintores setubalenses, Eduardo Carqueijeiro e Nuno David, que, durante o concerto, construíram uma obra de arte em torno do título “Pelo sonho é que vamos” à vista de toda a assistência, ali. As tonalidades, partindo do azul e do rosa, cativaram o espectador a itinerar no rumo do sonho, vórtice sobrevoante da Arrábida, com ponto de chegada indefinido, mas a fazer lembrar o coração da vida ou do mistério ou do sonho.
Foi difícil aos espectadores e ouvintes deixarem o espaço, foi difícil terminar. E, nesse fechar alongado, houve ainda a notícia divulgada: Eduardo Carqueijeiro, Nuno David e o grupo e-Vox decidiram oferecer a tela, de 1,33x2,05 m, à Associação Cultural Sebastião da Gama, gesto que, reconhecidamente, se agradece. - JRR
[Fotos: grupo e-Vox e os pintores Eduardo Carqueijeiro e Nuno David com a tela "Pelo sonhbo é que vamos"]

sábado, 15 de outubro de 2011

Dos associados (23) - Nicolau da Claudina

Nicolau da Claudina, nosso associado e director, foi aluno de Sebastião da Gama em Setúbal. Como o seu professor teria ficado contente se pudesse ler o que sobre Nicolau hoje escreve David Sequerra (também nosso associado) no Sem Mais Jornal (nº 685, pg. 13)! Aqui se reproduz a história!

"Pelo sonho é que vamos" na música

Integrado num mês de Outubro em torno da música em Setúbal, o programa "Pelo sonho é que vamos" animará a noite de hoje, a partir das 21h30, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal. Transcreve-se a notícia a partir do Guia de Eventos (Setúbal: Câmara Municipal de Setúbal, nº 79, Outubro.2011):
"A poesia de Sebastião da Gama é a base da música dos e-Vox, com Salvador Peres, Alexandre Murtinheira, Diná Peres e Luís Alegria. Os poemas são recitados por Elisabete Caramelo e João Completo enquanto surgem imagens de telas de Eduardo Carqueijeiro e Nuno David."
A não perder.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

ARRÁBIDA A PATRIMÓNIO MUNDIAL – REUNIÃO DO FÓRUM E DA COMISSÃO DE ACOMPANHAMENTO

A reunião realizou-se no dia 10 de Outubro de 2011, no Cine Teatro São João, em Palmela. Presentes, além dos técnicos responsáveis pelas diversas áreas, estava o Presidente de Conselho de Municípios e Presidentes das Câmaras de Palmela e Sesimbra e um vereador da Câmara de Setúbal.
Do programa podemos salientar as palavras de boas-vindas aos participantes
e a apresentação dos premiados, e respectiva entrega dos prémios, nos concursos “Arrábida Foto” e “Arrábida Curtas e Documentários”.
Seguiu-se a análise do Relatório de GÉRARD COLLIN, perito junto da UNESCO e da UICN, realizado de 7 a 11 de Março de 2011. Este Relatório foi entregue em 31 de Março p.p. Esta missão e este Relatório foi um importante elemento de apoio à candidatura, contribuindo para realizar um balanço do percurso realizado e, simultaneamente, permitindo uma projecção do trabalho a desenvolver sobre o BEM Arrábida.
A apresentação deste Relatório esteve a cargo da Dra. Cristina Coelho. Foram abordados os seguintes pontos do referido Relatório: Área a candidatar; Metodologia; Calendarização; Especialidades: Comissão Executiva; Comissão Técnica; Plano de Gestão e Divulgação.
E chegara o momento da apresentação do trabalho do Centro de Biologia Ambiental sobre a fauna e flora da Arrábida, a cargo da Professora Otília, da Universidade de Ciências de Lisboa. Falou das unidades de Paisagem; das plantas notáveis (72 espécies); dos carrascais e outros matos calcícolas; dos carvalhais; dos zimbrais (plantas raríssimas em Portugal, mas que têm uma grande população na Arrábida); das encostas e falésias (ex-libris da Arrábida); das plantas carnívoras (2 espécies) e das orquídeas da Arrábida com habitats bastante ricos (há 30 espécies).
Abordou ainda a fauna da Arrábida. Foram inventariados 199 vertebrados e 652 invertebrados. Seguem-se as aves de rapina, o falcão, o morcego e borboletas... A terminar, e para agrado de todos os presentes, finalizou a sua brilhante exposição recordando Sebastião da Gama e o seu poema «Serra-Mãe»: “O agoiro do bufo nos penhascos,...”
Sobre o ponto da siuação do processo de candidatura, foi dito que a formalização da entrega do dossiê está prevista para 2013. No debate, que antecedeu o encerramento dos trabalhos, houve algumas intervenções da parte de alguns dos partiipantes. A Associação Cultural Sebastião da Gama foi a primeira a intervir, através do representante e elemento da Direcção presente, que manifestou a sua
satisfação pela qualidade dos trabalhos apresentados e garantiu que a nossa Associação iria, dentro das suas possibilidades, dar continuidade à colaboração que vem dando a este projecto, na Área do BEM IMATERIAL, através da divulgação da obra de Sebastião da Gama, mormente na relacionada com a SERRA-MÃE.
Encerrou a sessão o Presidente do Conselho de Municípios, agradecendo a presença de todos
os participantes e solicitando a continuidade desta colaboração. - MHS
[Foto: composição da Mesa que presidiu aos trabalhos.]

sábado, 8 de outubro de 2011

Pároco assume máxima de Sebastião da Gama

Luís Pedro foi nomeado pároco de Santa Catarina, em Peniche. Na cerimónia religiosa que assinalou a tomada de posse, o aforismo de Sebastião da Gama “Tens muito que fazer? Não, tenho muito que amar!” serviu de mote ao presbítero, que assim pretendeu traçar um compromisso de dádiva à comunidade. A notícia é do Jornal das Caldas e pode ser lida aqui.
O excerto seleccionado pelo novo pároco de Santa Catarina integra o registo do Diário de 23 de Março de 1949, que se transcreve:

«— Tens muito que fazer?
— Não. Tenho muito que amar.
(Não entendo ser professor de outra maneira. E não me venham dizer que isto assim cansa e mata; morrer-se, sempre se morre: e à minha maneira tem-se a consolação de não ser em vão que se morre de cansado.)»

Oficina de Escrita Criativa - é já em 29 de Outubro!


Seja bem vindo à Oficina de Escrita Criativa!
O grupo “terracorpo” vai promover, ao longo deste ano lectivo, uma Oficina de Escrita Criativa, iniciativa a que a Associação Cultural Sebastião da Gama se juntou.
Começa já em 29 de Outubro e, ao longo do ano lectivo, pode ser frequentado 33 vezes, número mágico de recorrências e de tentativas…
Para mais informações, venha até aqui.
Depois… seja bem vindo, claro!

domingo, 2 de outubro de 2011

No Parque dos Poetas, com Sebastião da Gama

No passado Domingo, passei pelo Parque dos Poetas, em Oeiras. Já conhecia, mas não havia prestado a devida atenção aos poetas que são ali homenageados. O parque é atravessado pela Alameda dos Poetas, com espaços (chamadas “ilhas”) reservados aos nossos poetas. Nesta primeira fase, estão ali expostas 20 esculturas de poetas do Séc. XX: Teixeira de Pascoaes, Florbela Espanca, José Gomes Ferreira, Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner, Natália Correia, Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Alexandre O`Neill, Camilo Pessanha, José Régio, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Carlos Oliveira, Manuel Alegre, David Mourão Ferreira, António Gedeão, Ruy Belo e António Ramos Rosa.
A Câmara Municipal de Oeiras, ao que se sabe, consultou 4 Organismos competentes na matéria para fazer a selecção dos poetas a integrarem esta 1ª fase. A escolha é, para mim, quase consensual. Embora reconhecendo que nunca é fácil uma escolha desta natureza, tenho muita pena que o poeta Sebastião da Gama não faça parte desta galeria.
Ao que li, o projecto inicial do Parque dos Poetas foi de David Mourão-Ferreira, o qual, tenho a certeza, ficaria muito satisfeito se tivesse agora, perto de si, o seu grande amigo Sebastião da Gama. É pena. David Mourão-Ferreira iria ler, muitas vezes, estou certo, o que escreveu a propósito dos passeios que ambos davam pela Arrábida: «…ora aguardando-nos, à chegada da trôpega camioneta que nos tinha levado até Vila Nogueira de Azeitão, para logo a seguir nos arrastar a pé, serra acima, serra abaixo, por veredas de que só ele detinha o segredo, a fim de melhor nos fazer ver ou rever todos os recantos, todos os encantos da sua Arrábida».
É pena. Faz falta lá uma estátua do poeta da Arrábida. Está lá uma referência ao Sebastião da Gama, um poema seu inscrito no chão. Mas não é a mesma coisa…
Joaquim Boavida
(recebido via email em 28 de Setembro

Dos associados (22) - Nuno Gama

A nova colecção Primavera/Verão 2012, a apresentar na Moda Lisboa, a 9 deste mês, é pretexto para que o Diário de Notícias de hoje, na sua página de economia, traga pequena reportagem sobre Nuno Gama, o estilista azeitonense, familiar de Sebastião da Gama e nosso associado, assinada por Catarina Vasques Rito.
Além de contar o seu trajecto e a sua ligação profissional ao Porto, Nuno Gama fala sobre a razão de os seus produtos serem todos confeccionados em Portugal – “Somos portugueses e devemos ter orgulho em sê- -lo. Uma maneira óbvia de ajudarmos a nossa economia é consumindo produtos nacionais. Claro que gosto de marcas e produtos estrangeiros, mas promovo sem esforço o consumo do made in portugal." Este princípio está, de resto, patente na sua linha, conforme repara a autora da peça – «O prazer que tem em ser português pode ver-se no facto de frequentemente usar nas suas colecções imagens bem tradicionais - o galo de Barcelos, o pastel de nata ou o lenço de Viana. "A razão é muito simples: procuro descobrir, renovar e se possível desmistificar a nossa cultura. Acho importante dar a conhecer as nossas tradições, artesanato e mostrar a nossa cultura de uma outra forma, mais divertida", diz Nuno Gama.»
O texto publicado no DN pode ser lido na íntegra aqui, de onde também foi retirada a foto. - JRR

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Homenagem de Setúbal a Rui Nabeiro e a Rui Serodio

No feriado municipal de Setúbal, que aconteceu ontem, a Câmara Municipal de Setúbal atribuiu medalhas honoríficas a diversas individualidades e instituições.
Entre as figuras galardoadas estão o comendador Rui Nabeiro, com a medalha de prata, e o maestro Rui Serodio, com a medalha de honra na área da cultura.
A atribuição destas duas distinções é motivo de satisfação para a Associação Cultural Sebastião da Gama, uma vez que ambos deram já contributo importante à nossa Associação. Com efeito, o projecto do cd “Sebastião da Gama – Meu Caminho é por Mim Fora”, editado no ano passado, muito deve a Rui Serodio, “pai” da ideia e responsável pelos arranjos musicais que acompanham os poemas; por outro lado, a Rui Nabeiro se deve também o êxito do projecto, uma vez que, de entre os eventuais patrocinadores contactados, o Grupo presidido por Rui Nabeiro foi o primeiro a responder afirmativamente e a aderir a este projecto.
Através da Associação Cultural Sebastião da Gama, já estes dois homens tinham dado um contributo importante para a cultura de Setúbal e para a memória de Sebastião da Gama. Homenagem merecida e a felicitar, pois! – JRR
[foto: jornal O Setubalense, de hoje]

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Azeitão: Sebastião da Gama em pinturas de Carlos Godinho

Carlos Godinho é natural do concelho de Estremoz. Ligado às artes, tem formação em Educação Visual e tem praticado a pintura, a ilustração e a colaboração na imprensa. Participou em numerosas exposições, colectivas e individuais e está representado em variadíssimas colecções, em Portugal e no estrangeiro.
Em 2005, em Estremoz, organizou uma exposição intitulada “Aqui, pelo sonho é que vamos (poemas de Sebastião da Gama)”, em que a obra do poeta azeitonense – que também foi professor em Estremoz – serviu como tema.
A obra de Sebastião da Gama volta a ser pretexto para a exposição que será inaugurada em Azeitão, na tarde de 3 de Setembro. “Pelo sonho pintando…” é o seu título e o ponto de partida são os poemas publicados no livro Estevas, obra póstuma, de 2004.
A exposição vai estar patente no Museu Sebastião da Gama, em Azeitão, até 26 de Novembro e constituirá um bom ponto de partida para o conhecimento da obra de Carlos Godinho, bem como para a obra de Sebastião da Gama. Um bom pretexto para uma ida até Azeitão, claro!

sábado, 30 de julho de 2011

"Retrato a Sépia", de Paulo Assim, lido por João Morales

A revista Os Meus Livros, de Agosto (nº 101), aparecida nas bancas nesta semana, dedica a sua página 41 a "vozes subtis", isto é, a "algumas edições discretas de poesia", que, "fora de grandes atenções mediáticas, reclamam o seu espaço". Quem assina o texto é João Morales, director da revista, que faz nota de leitura de três obras. Uma delas é Retrato a Sépia, livro com que Paulo Assim ganhou o Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, na edição de 2011, publicado pela nossa Associação. Aqui fica a reprodução dessa página. - JRR

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Sebastião da Gama em "Memorial do Convento", de José Saramago

Todos os docentes que alguma vez leccionaram Memorial do Convento tiveram ocasião de encontrar, nos diversos manuais de 12.º Ano ou em elementos bibliográficos relativos ao famoso romance, longas e minuciosas listas de citações dos variados autores a que o escritor recorreu para pôr em prática o seu peculiar “jogo” intertextual.
Relendo, há escassas semanas, algumas páginas do interessante livro José Saramago nas suas Palavras (Lisboa, Caminho, 2010), constituído por um vasto conjunto de excertos de entrevistas saramaguianas meticulosamente seleccionadas por Fernando Gómez Aguilera, que as agrupou em núcleos temáticos, acompanhando cada um deles de breve, mas cuidada, introdução, deparei, por mero acaso, na página 246, com o seguinte extracto de uma dessas entrevistas concedida pelo nosso Nobel da Literatura a Baptista-Bastos e publicada no jornal Correio do Minho, de Braga, em 12 de Fevereiro de 1983: «[…] se a oportunidade o pede, divirto-me a introduzir nos meus romances palavras, frases, versos que não são meus […]. No Memorial estão assim Fernando Pessoa, José Régio, Nicolau Tolentino, António Vieira, Tomás Pinto Brandão, Camões, até Sebastião da Gama lá está, quase invisível…»
Confesso que, exactamente por ser «quase invisível», nunca me tinha apercebido da inclusão do poeta da Arrábida no rol daqueles que Saramago contemplou, no Memorial, com a prática da intertextualidade.
Como me preparava, então, para reler o romance, tendo em vista reavivar na memória pormenores úteis à preparação das minhas aulas, decidi redobrar a atenção no acto de leitura, com o intuito de tentar descobrir a presença de Sebastião da Gama, propósito este que me entusiasmou e foi coroado de êxito.
Efectivamente, no “capítulo” X do romance, que foca, entre outros aspectos, a doença de D. João V, designada pelos médicos de «melancolia» (p.112) e que o obrigou a retirar-se da corte e a recolher-se a Azeitão, «a ver se com mezinhas e bons ares se cura», pode ler-se o satírico fragmento que se segue:
«D. Maria Ana ficou em Lisboa a rezar e depois foi continuar a reza para Belém. Dizem que vai agastada por não querer D. João V confiar-lhe o governo do Reino, realmente não está bem desconfiar assim um marido de sua mulher, são resistências de ocasião, lá mais para diante será regente a rainha enquanto el-rei se acaba de curar naqueles felizes campos de Azeitão, tendo a assisti-lo os franciscanos da Arrábida, e o marulhar das ondas é o mesmo, a mesma a cor do mar, a maresia o mesmo sortilégio, e o mato cheira como dantes, assim fica o infante D. Francisco sozinho em Lisboa, fazendo corte, e já começa a urdir a trama e a teia, deitando contas à morte do irmão e à sua própria vida,» (p.113).
Ora, o segmento textual que, no parágrafo anterior, assinalámos, com recurso ao itálico, é constituído por quatro versos que Saramago transcreveu, ligeiramente adaptados, de um belo poema de Sebastião da Gama intitulado «Regresso à Montanha» (incluído em Pelo Sonho É Que Vamos):

Regresso
- nem triste nem alegre: receoso…

E o marulhar das ondas é o mesmo…
A mesma, a cor do Mar… A maresia
Tem sobre mim o mesmo sortilégio…
E o mato cheira como dantes… Fala
Comigo como dantes, reza, escuta…
E o perfil da Montanha, como dantes,
Adoça-se no escuro…
E a um canto da Noite, recolhido,
Mudo de tão feliz, o Adolescente…

A escolha do Nobel, que pretendia, decerto, neste exercício de intertextualidade, caracterizar com exactidão a Arrábida, que acabava de mencionar, não podia, no contexto, ter sido mais acertada, porquanto o poeta de «Serra-Mãe» lhe disponibilizava, impregnada de fina sensibilidade e beleza poética, uma das suas composições em que, de forma lapidar, esboça, em traços largos, um retrato fiel da serra em perfeita simbiose com o mar e delineia a profunda intimidade que marcava a sua relação com ela.
Não deixa de ser curioso – diria mesmo inesperado – que um escritor, em geral tão causticamente crítico, como Saramago, tenha elegido, como uma das fontes da sua prática intertextual, Sebastião da Gama, um poeta cuja mundividência se situa, pelo menos aparentemente, nos seus antípodas.
A verdade é que existe um outro Saramago, habitualmente esquecido, aquele que, sobretudo em Viagem a Portugal e em tantas crónicas, para já não falar da sua poesia, destila um envolvente discurso lírico suscitado pela contemplação ou pela recordação de trechos da terra portuguesa, capazes de lhe inspirarem, como a Arrábida a Sebastião da Gama, aquilo a que poderíamos chamar, à falta de melhor designação, uma sentida comunhão com a natureza.
Por muito diferente, e até oposta, que seja a visão do mundo de quaisquer escritores, existe quase sempre, entre eles, um denominador comum, que é a capacidade não só de vibrarem perante a beleza que o universo encerra, mas também de plasmarem essa vibração em palavras imbuídas de sedutora magia.
António Vilhena

sábado, 2 de julho de 2011

"Retrato a Sépia", de Paulo Assim, lido por Pedro Tamen

Pedro Tamen leu Retrato a Sépia, de Paulo Assim, a obra que ganhou o Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama deste ano, e fez-nos chegar um pequeno comentário sobre o livro, que aqui se reproduz:
«Li-o com toda a atenção e constituiu para mim uma grata surpresa. O autor demonstra um à-vontade no tratamento das palavras e um amor por elas que para mim são indiscutíveis marcas de um poeta a sério. Por outro lado, o livro revela uma unidade temática sem falhas que o torna particularmente aliciante. E acresce (excelente coincidência) que o espírito deste "Retrato a Sépia" não anda longe da natural simplicidade da obra do Poeta a que o prémio presta homenagem.»

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Entrega do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama - I

A entrega do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama ocorreu na noite de ontem, na sede da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense. Paulo Assim foi o autor da obra premiada nesta 13ª edição do certame, intitulada Retrato a Sépia.
Antes da sessão, Paulo Assim teve um encontro com Joana Luísa da Gama, que, por razões de saúde, não pôde estar presente no evento.
A entrega do Prémio contou com a colaboração de Carlos Zacarias e de Sónia Paulo, que disseram poemas de Sebastião da Gama, a abrir o espectáculo, e de Paulo Assim, na conclusão.

As intervenções estiveram a cargo de José António Contradanças (em nome do júri), João Carpelho e Celestina Neves (presidentes das Juntas de Freguesia de S. Simão e de S. Lourenço, respectivamente), João Reis Ribeiro (Associação Cultural Sebastião da Gama) e Manuel Queirós (Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense).
O tom dos discursos acertou por algumas ideias importantes, como: a oportunidade da existência deste Prémio, não só como memória de Sebastião da Gama mas também como evento cultural azeitonense de importância crescente; o papel que, ao longo dos tempos, Joana Luísa da Gama tem tido na publicação e divulgação da obra de Sebastião da Gama; a qualidade que o trabalho premiado apresenta, na senda de outros importantes poetas portugueses que têm sido vencedores deste Prémio, como Amadeu Baptista, Maria do Rosário Pedreira, José Carlos de Barros, etc.
Paulo Carreira, que assume o nome literário de Paulo Assim, vive na Batalha, onde é desenhador de moldes, tem já vários trabalhos premiados e foi o vencedor desta 13ª edição do Prémio, que incluiu uma oferta pecuniária e a edição em livro da obra seleccionada pelo júri (constituído por Arlindo Mota, João Reis Ribeiro e José António Contradanças).
O Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama foi criado em 1988 pelas Juntas de Freguesia de S. Lourenço e de S. Simão (Azeitão), patrocinadoras que se têm mantido e que, na realização deste ano, contaram com a parceria da Associação Cultural Sebastião da Gama, da Câmara Municipal de Setúbal e da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense.

Entrega do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama - II

Na sessão de entrega do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, ontem realizada em Azeitão, foi José António Contradanças quem interveio em nome do júri. É esse discurso que aqui reproduzimos. Mas o leitor pode encontrar mais comentários ao livro vencedor, Retrato a Sépia, se vier por aqui ou por aqui.

Apresentaram-se a concurso duzentos e trinta e quatro trabalhos. O júri, por unanimidade, escolheu como obra poética a premiar a que se apresentou com o número cento e sessenta e nove, de título “Retrato a Sépia”, assinada sob o pseudónimo de Paulo Lódão. E fê-lo, distinguindo “uma obra que se revela como um livro homogéneo, sequencial, interessante e guloso no desafio ao apetite à leitura. Estando perante uma poesia aparentemente simples, intuitiva, muito fresca e cativante, não deixa de nos marcar com mensagens profundas a partir de vivências tão sentidas e tão puras, que hoje teriam lugar na construção do tal “novo paradigma” que se reclama, fundado em valores que devem pautar uma sã convivência em sociedade (“Eram mais do que nossas mães, as árvores de fruto,”; “Sabem? A minha mãe não dormia enquanto eu não chegasse. / Entregava-me aos labirintos da noite e ela fazia arroz-doce.”; “O meu avô tinha a tez dos mouros e ar sereno/ de quem descasca laranjas pela madrugada. / Falava-me do mar como quem olha/ para os sulcos sibilinos das mãos.”; “Na sala do meu avô havia um búzio, havia o mar”).
É um livro de memórias que ruma à infância (“saio para a rua, / esse lugar chamado infância.”), a tempos idos (“Não sei, mas o meu pai/ clandestinamente abraçava as árvores. / Esqueci-me de lhe perguntar/ ao mesmo tempo/ que me esqueci de ser filho.”), fazendo-se dum encadeamento descritivo, duma sequência de retratos a sépia onde contrasta a vivacidade dos intérpretes, dos lugares e das acções, numa linguagem de grande riqueza metafórica (“…nós, seres humanos, somos uma mistura/ de árvore e de pássaro:/ precisamos de raízes, mas também de asas para irmos mais longe.”; “Pelas ruas da nossa aldeia formigavam os ecos das crianças, / os homens ganhavam calos de tanto sonharem com as mãos/ e as mulheres saboreavam o paladar da terra na planta dos pés”; “Caçava estrelas cadentes desnorteadas…”; “Eu sei, mãe, eu sei. / As palavras querem-se ao sol. / A poesia quer-se ao vento”; “o ar quente e quieto da tarde/ era uma porta”; “Pois, a minha avó tinha já a sabedoria dos pássaros ancestrais, / apesar do seu corpo mirrado albergar todo o peso das asas.”; “Cravando os punhos na massa, / a minha avó emprenhava o alguidar/ nas manhãs de sábado.”) e fazendo uso de imagens coloridas e puras (“Não te esqueças – dizia-me a minha mãe - / de estender os teus poemas na varanda:/ fechados, ganham ferrugem e não soam muito bem aos ouvidos”; “E as amoras tinham/ o sabor da aventura/ A língua roxa soletrava/ outras palavras, talvez paixão ou mesmo já amor, / e as mãos com riscos de sangue/ pedindo que incendiássemos/ a tarde das cigarras.”; “No beirado do nosso alpendre havia um gato/ que nos lambia o sol nas mãos.”). Em suma, é um livro que sendo fácil de ler, nos leva a pensar, a reflectir e porque não (?) a agir.” Afinal, como diz o autor: “As nossas viagens aladas são curtas e brancas, / têm a duração da cal efervescente e mais nada. / Restam-nos os desfeitos retratos a sépia.” A que contrapõe, desafiando o futuro: “seremos sempre como papel genuíno de um retrato ainda por tirar.”

A árvore da poesia cresceu ontem no Rossio de Azeitão

Há umas semanas, a Ema telefonou-me a perguntar uma forma de poder colaborar com a Associação Cultural Sebastião da Gama, porque achava que todos deviam ser voluntários na memória do poeta de Azeitão. Acrescentou que se disponibilizava para a animação de um ateliê de arte e escrita criativa, destinado ao público infanto-juvenil.
Fiquei entusiasmado e sugeri-lhe o dia da entrega do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, que ocorreria em Azeitão, para ser levada a cabo tal iniciativa, que teve o patrocínio da Associação Cultural Sebastião da Gama e da Junta de Freguesia de São Lourenço (Azeitão).
E foi assim que, no Rossio de Azeitão, na manhã de ontem, nasceu a árvore da poesia, numa oficina de arte na rua, em homenagem a Sebastião da Gama, com cerca de uma dúzia de crianças em seu torno, alguns pais, muito boa disposição, tempo de verão, fotografias apelativas e palavras do Poeta da Arrábida.
A Ema produziu uma animação extraordinária, que levou as crianças e os pais a um mergulho no sentimento poético, a um passeio pela natureza, a um estar ecologicamente com a terra, ao mundo rico da cor da vida.
Colhendo palavras e fotografias da árvore da poesia, foram sendo construídos textos; aproveitando materiais já utilizados, foram criadas flores de pétalas que ali ganharam cor e alegria.
Dos textos ali construídos, reproduzo um: “O vento beija as ondas do mar / enquanto os búzios / conversam entre si / deitados na areia. / A voz do silêncio / segreda às águas / uma canção de amor / e de paz. // A beleza / que aqui nasce / é a vitória da vida / sobre a morte.”
Foram cerca de duas horas bem passadas, doces. E pareceu-me mesmo ver que o Sebastião da Gama, lá no murete em que se fez monumento, sorriu ao ver tanta alegria a povoar o Rossio…
Ah, quanto à Ema e ao seu grupo de trabalho, podem procurá-la aqui.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Agenda - 12 de Junho, à noite, entrega do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama

Agenda - 12 de Junho, pela manhã, oficina de arte na rua

12 de Junho é a data para a cerimónia da entrega do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama. Mas, pela manhã, às 10h30, o Rossio de Azeitão vai assistir a uma oficina de arte na rua, que passa pelas flores e por Sebastião da Gama.
Aqui fica o convite! Passe-o a amigos! Traga os seus filhos e os dos amigos! Uma forma diferente de sentir a poesia e de homenagear Sebastião da Gama... ali, na terra que o viu nascer!... - JRR

António Manuel Couto Viana entre homenagens

António Manuel Couto Viana, que faleceu em 2010, foi um dos grandes amigos de Sebastião da Gama e foi nosso associado. A norte, este poeta é o centro de homenagens e evocações, que passam por Ponte do Lima, Ponte da Barca e Porto, uma geografia que ele bem conhecia e sobre que muito escreveu.
Aqui fica a notícia, recortada do segundo mais antigo jornal português em publicação - A Aurora do Lima -, saído ontem, 8 de Junho. - JRR

A Aurora do Lima: 08.Junho.2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Paulo Assim venceu Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2011

O Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2011 foi atribuído ao trabalho Retrato a Sépia, apresentado sob o pseudónimo Paulo Lódão, correspondente ao autor Paulo Jorge Coelho Carreira.
Dos 234 trabalhos apresentados a esta 13ª edição do concurso, o júri (constituído por Arlindo Mota, João Reis Ribeiro e José António Chocolate Contradanças) foi unânime na decisão, considerando Retrato a Sépia “uma obra que se revela como um livro homogéneo, sequencial, interessante”, dotado de “uma poesia aparentemente simples, intuitiva, muito fresca e cativante”, num percurso “de memórias que ruma à infância, a tempos idos, fazendo-se dum encadeamento descritivo, duma sequência de retratos a sépia onde contrasta a vivacidade dos intérpretes, dos lugares e das acções, numa linguagem de grande riqueza metafórica”.
A entrega do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama deste ano, bem como a apresentação pública da obra vencedora, está marcada para 12 de Junho, pelas 21h30, na Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, em Vila Nogueira de Azeitão.
Paulo Jorge Coelho Carreira, nascido em Porto de Mós (1965) e a residir na Batalha, exercendo a profissão de desenhador de moldes, já recebeu vários prémios literários nas modalidades de conto e poesia. Sob o pseudónimo de Paulo Assim, publicou A Quinta-feira dos Pássaros (Ponta Delgada: Veraçor, 2010), romance que lhe valeu os prémios Paul Harris (2005) e Gaspar Fructuoso (2009), e Celulose (Lugar da Palavra Editora, 2010), livro premiado com o Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres em 2010.
Recorde-se que o Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama foi certame criado em 1988, em Azeitão, pelas Juntas de Freguesia de S. Lourenço e de S. Simão, e teve realização anual até 1993 (6ª edição). A partir daí, passou a ser um concurso bienal até à sua 10ª edição, tendo, depois sofrido interrupção. O certame foi retomado em 2007 (11ª edição). O primeiro trabalho vencedor deste Prémio, em 1988, foi a obra Água das Pedras, assinado pelo pseudónimo Maria Helena Salgado, correspondendo à autora Maria do Rosário Pedreira, escritora e editora reconhecida. Outros vencedores das várias edições deste Prémio foram Hugo Santos (1989 e 1991), Maria Graciete Besse (1992), Graça Pires (1993), João Carlos Lopes Pereira (1995), Alberto Marques (1997), António Menano (2001), Amadeu Baptista (2007) e José Carlos Barros (1990 e 2009). Além do primeiro vencedor, outros trabalhos que obtiveram o primeiro lugar nas várias edições deste Prémio tiveram publicação: Uma Abstracção Inútil, de José Carlos Barros (Évora: Declives, 1991); O Aprendiz de Ventos, de Hugo Santos (Lisboa: Vega /Ulmeiro, 1992); Errâncias, de Maria Graciete Besse (Lisboa: 1992); Labirintos, de Graça Pires (Murça: Câmara Municipal de Murça, 1997); O Bosque Cintilante, de Amadeu Baptista (Azeitão: Juntas de Freguesia de S. Lourenço e de S. Simão, 2007).
A edição deste ano do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama teve organização conjunta das Juntas de Freguesia de Azeitão (S. Lourenço e S. Simão) e da Associação Cultural Sebastião da Gama, em parceria com a Câmara Municipal de Setúbal e com a Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense.

Sebastião da Gama no Festival de Música de Setúbal

A 1ª edição do Festival de Música de Setúbal aconteceu entre 27 e 29 de Maio, numa organização conjunta da Câmara Municipal de Setúbal e do The Helen Hamlyn Trust, que tomou por palco vários espaços do concelho e envolveu associações, escolas, bandas e nomes já consagrados como Pedro Caldeira Cabral ou o azeitonense Pedro Carneiro.
Vários poemas de Sebastião da Gama entraram no Festival graças à participação do externato “Rumo ao Sucesso”, de Azeitão, que, com um grupo de jovens com necessidades educativas especiais, interveio no Auditório da Anunciada, no primeiro dia do certame, interpretando os textos “O Sonho” (1951), “Somos de Barro” (1951), “Cantilena” (1946), “Madrigal” (1946), “Pequeno Poema” (1945), “O Menino Grande” (1946), “Claridade” (1944) e “Canção da Felicidade” (1946).
De acordo com texto do catálogo, da responsabilidade do estabelecimento de ensino azeitonense, a motivação veio a partir de um registo de Sebastião da Gama, datado de 9 de Março de 1949 (“O poeta beija tudo, graças a Deus…”), entrada do Diário que deu ao grupo escolar a “ideia de utilizar a poesia do poeta Sebastião da Gama, visto ser um poeta natural de Azeitão, onde o nosso colégio se situa, e o seu enamoramento pela Arrábida uma das suas fontes de inspiração.”

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Quatro poetas da "Távola Redonda" no Palácio Fronteira

A geração literária ligada à revista Távola Redonda (1950-1954) foi objecto de um ciclo de poesia promovido pela Fundação das Casas de Fronteira e Alorna no mês de Maio, sessões que decorreram no Palácio Fronteira, em Lisboa.
Este ciclo integrou quatro sessões, realizadas em 10, 12, 17 e 19 de Maio, cada uma delas dedicada a um autor que colaborou na revista: Cristovam Pavia (1933-1968), David Mourão-Ferreira (1927-1996), Matilde Rosa Araújo (1921-2010) e Sebastião da Gama (1924-1952), respectivamente. Cada sessão foi composta por uma apresentação do autor em destaque e pela leitura de um leque variado dos seus poemas, alguns deles comentados pelo respectivo apresentador.
Fernando J. B. Martinho apresentou Cristovam Pavia como “o poeta que alcança a sua maturidade muito precocemente”. Situando-se no grupo dos católicos progressistas, tinha profunda ligação aos lugares da infância (época que lhe serviu como um “lugar de ouro”), valorizados através de uma poesia introspectiva, de contemplação, assim aparecendo como continuador da poesia presencista. Detentor de uma poesia de dimensão religiosa, nela se afirma a simplicidade dos meios expressivos, a riqueza das imagens. Para Fernando J. B. Martinho, a poesia de Pavia é “muito límpida, muito pura, profundamente elegíaca”, assim se integrando na tradição lírica portuguesa, mas notando-se que existe assinalável “conhecimento da tradição moderna portuguesa”, sobretudo pelas ligações a António Nobre, Sá Carneiro ou a poetas brasileiros como Vinicius de Morais, Jorge de Lima, Manuel Bandeira ou Cecília Meireles.
A poesia de David Mourão-Ferreira foi apresentada por Clara Rocha, que chamou a atenção para linhas de leitura relacionadas com o tempo e com a memória. Relativamente ao primeiro tópico, assinalou a importância da simbologia associada ao ciclo diário (o dia, a noite, a luz), ao valor da medida do instante (assinalando acontecimento, epifania). Quanto ao significado da memória, Clara Rocha aproximou-a dos tempos da infância, da adolescência ou das leituras de referência, vendo a memória como “antídoto quanto ao passar do tempo”, como “um dispositivo de reapropriação dos momentos vitais”. Importantes também nesta dimensão são os lugares, em que, se Lisboa surge (com os seus bairros e as pessoas) como “chave”, já a Europa se apresenta como “o grande lugar”. Clara Rocha considerou ainda a “estreita ligação” entre a tradução e a produção poética em Mourão-Ferreira, defendendo que “a aproximação aos autores europeus e aos clássicos lhe deu a mestria da sua própria poesia.”
A faceta poética de Matilde Rosa Araújo teve a leitura de Violante Magalhães, que enquadrou a autora na perspectiva da valorização do lirismo e da autenticidade, marcas que foram apanágio da Távola Redonda. Apesar de a infância ser um tema forte e omnipresente em Matilde Rosa Araújo, temas como a passagem do tempo, a solidão do sujeito, a morte e a fidelidade à tradição lírica pontuam a sua poesia. Para Violante Magalhães, os heróis da escrita de Matilde Rosa Araújo são os humildes (crianças, idosos, varredores, etc.), os grupos mais desfavorecidos, e “a naturalidade dos seus poemas é acompanhada de uma aparente simplicidade”, neles sobressaindo “o peso extraordinário” da infância, vista como algo que “fizesse milagrinhos”.
Sebastião da Gama foi apresentado por João Reis Ribeiro, que assinalou a considerável produção escrita (poesia, diarística, epistolografia, colaboração na imprensa) do autor, quantidade valorizada pela simultaneidade da doença (que o assolou desde os 14 anos), da licenciatura, do estágio e do ensino, tudo tendo decorrido num tempo de 13 anos aproximadamente (contado a partir do mais antigo poema que se lhe conhece, datado de 1939). O papel de Sebastião da Gama na Távola Redonda foi destacado por João Reis Ribeiro, que o considerou um garante à distância da qualidade poética da revista, muito embora o seu principal crítico fosse Mourão-Ferreira. O autor desta apresentação pôs depois em diálogo os quatro poetas abordados neste ciclo, dando a conhecer fragmentos de correspondência entre Sebastião da Gama e cada um dos outros poetas, evidenciando a preocupação da qualidade e da crítica da escrita poética nas cartas para Pavia e Mourão-Ferreira e “um certo espírito fraternal e mais intimista” nas missivas para Matilde Rosa Araújo.
A leitura de poemas das quatro sessões esteve a cargo de Antónia Brandão, Teresa Albuquerque, Vanda Anastácio e Fernando Mascarenhas, o anfitrião deste ciclo de poesia portuguesa do século XX.
[foto por Manuel Herculano - mesa que presidiu à última sessão do ciclo de poesia, constituída por Teresa Albuquerque, João Reis Ribeiro, Fernando Mascarenhas e Antónia Brandão]

terça-feira, 24 de maio de 2011

Coral Infantil de Setúbal e Banda da Armada entre cinco poemas de Sebastião da Gama

Cinco poemas de Sebastião da Gama foram cantados pelo Coral Infantil de Setúbal e musicalmente acompanhados pela Banda da Armada no concerto realizado no auditório José Afonso, na noite de sexta-feira, 20 de Maio, inserido no programa das comemorações do Dia da Marinha, que ocorreu na semana passada em Setúbal.
Os cinco textos – “Pequeno Poema”, “Alegria”, “Louvor da Poesia”, “Madrigal” e “O Sonho” – integram a peça O Poeta da Arrábida, roteiro sobre Sebastião da Gama que insere alguns dos seus poemas, preparado por João Reis Ribeiro e musicado por Samuel Pascoal, obra destinada a assinalar o 30º aniversário do Coral Infantil de Setúbal, que ainda não pôde ser exibido na totalidade devido a condições logísticas.
A interpretação destes cinco poemas constituiu assim uma pequena ante-estreia do que será a peça, marcada por uma música que aprofunda a mensagem de Sebastião da Gama, com arranjos francamente originais e surpreendentes para alguns dos textos.
Depois desta mostra, o público – que era muito – só pode desejar ver o resultado final, em que o brilho das vozes do Coral Infantil de Setúbal, o espectáculo das sonoridades da Banda da Armada e a alegria da mensagem do poeta da Arrábida harmoniosamente se enlaçam.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Sebastião da Gama no concerto da Banda da Armada

As comemorações do Dia da Marinha de 2011 ocorrem em Setúbal entre 14 e 22 de Maio. No programa de actividades, consta um concerto pela Banda da Armada, que terá lugar em 20 de Maio, pelas 22h00, no auditório José Afonso, actividade que terá a colaboração do Coral Infantil de Setúbal, que interpretará excertos da obra “O Poeta da Arrábida”, alusiva à vida e obra de Sebastião da Gama, concebida para o 30º aniversário do CIS.
Em Novembro de 2010, o Coral Infantil de Setúbal completou 30 anos, tendo desenvolvido, entre 2009 e 2010, o programa “30 Anos 30 Coros”. O final do ano de comemorações e o 30º aniversário seriam assinalados com o concerto “O Poeta da Arrábida” (guião da autoria de João Reis Ribeiro e música de Samuel Pascoal). Por falta de instalações adequadas em Setúbal, tal concerto não pôde ainda ter lugar (esperando-se que tal venha a acontecer em breve), mas, sendo a Banda da Armada a parceira na interpretação musical deste projecto, o concerto integrado nas celebrações do Dia da Marinha vai incluir excertos da referida obra.
A noite do dia 20 será, pois, uma boa oportunidade para os setubalenses acorrerem ao auditório José Afonso: pela música, pelo espectáculo, pelo Coral Infantil de Setúbal e pelo poeta ícone da Arrábida que é Sebastião da Gama.

Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2011 – Entrega do Prémio

O Regulamento do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama estipula a data de 5 de Junho para a cerimónia de entrega do Prémio.
Contudo, em virtude da convocação das eleições legislativas para essa data, que ocorreu posteriormente à elaboração e divulgação do Regulamento, e por as entidades patrocinadoras – Juntas de Freguesia de S. Lourenço e de S. Simão (Azeitão) – terem responsabilidades no funcionamento do processo eleitoral, foi deliberado o adiamento da cerimónia da entrega do Prémio, que ocorrerá em 12 de Junho, nas instalações da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Arrábida a património mundial – 2ª reunião da Comissão de Acompanhamento

Este segundo encontro, que teve a presença de inúmeras instituições e entidades, realizou-se no passado dia 9 de Maio, na sala de conferências da magnífica Casa da Baía, recentemente inaugurada, em plena Avenida Luísa Todi, em Setúbal.
Do programa podemos salientar a intervenção sobre o ponto da situação da Candidatura e duas magníficas intervenções a cargo, respectivamente, do Professor José Carlos Costa e Dr. Heitor Baptista Pato. O primeiro dissertou sobre o estudo da flora, vegetação e paisagem da serra da Arrábida; o segundo falou sobre a componente do património cultural, chegando a afirmar e a demonstrar que a cordilheira da Arrábida é uma marca.
Seguiu-se um interessante e muito proveitoso debate sobre o Plano de Gestão da Candidatura, tendo em conta os grandes objectivos e eixos estratégicos a integrar no dossier de candidatura.
A nossa Associação esteve também presente através de um elemento da Direcção, que, mais uma vez, em breve intervenção, salientou o esforço que a Associação tem vindo a fazer através de inúmeras actividades, incluindo acções e palestras para professores e alunos, nas escolas, em ordem a fazer ressaltar o bem imaterial – a cultura – que certamente não deixará de ter um grande peso nesta candidatura.
Recordou, a propósito, o recente artigo de três páginas sobre Sebastião da Gama publicado no último número do JL (Jornal de Letras) onde, entre outros assuntos, se faz uma especial referência às atitudes corajosas tomadas, ao tempo, pelo nosso patrono Sebastião da Gama, mormente no que diz respeito ao célebre problema relacionado com o forno de cal de José Júlio da Costa e a destruição da Mata do Solitário, cuja vegetação era usada sem escrúpulos para alimentação do referido forno.
Já agora, convém referir que a carta escrita por Sebastião da Gama ao engenheiro Miguel Neves, que, por sua vez, a fez chegar ao professor Carlos Baeta Neves, do Instituto Superior de Agronomia, viria a servir de mote para a criação, em 1948, da Liga para a Protecção da Natureza. – MHS
[Foto: Mesa que presidiu à reunião]

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Setúbal: Escolas têm cd de Sebastião da Gama

Todas as escolas públicas do concelho de Setúbal têm a partir de agora um exemplar do cd “Sebastião da Gama – Meu caminho é por mim fora” nos respectivos centros de recursos, acção possível graças a oferta feita pela Fundação Buehler-Brockhaus.
Com tal iniciativa, a Fundação pretendeu “contribuir para a divulgação de uma referência cultural da região, que teve importante papel na poesia portuguesa do século XX e no enriquecimento da perspectiva cultural da Arrábida”.
O cd, editado pela nossa Associação no ano passado, contém 26 textos de Sebastião da Gama, lidos pelos actores Célia David, Fernando Guerreiro, José Nobre e Maria Clementina e por Maria Barroso, com acompanhamento musical de Rui Serodio.
A oferta deste cd, recentemente levada a cabo, contemplou as escolas dos vários níveis de ensino da rede pública do concelho de Setúbal – Escolas Secundárias D. Manuel Martins, Sebastião da Gama, Bocage e D. João II, Agrupamentos Verticais de Escolas Luísa Todi (9), Barbosa du Bocage (6), Lima de Freitas (3), Cetóbriga (6), Azeitão (7) e Santiago (8), Fundação Escola Profissional de Setúbal e Instituto Politécnico de Setúbal (6).

terça-feira, 10 de maio de 2011

A geração da "Távola Redonda" no Palácio Fronteira

A geração da Távola Redonda, de que Sebastião da Gama fez parte, vai ocupar o Ciclo de Música e Poesia Portuguesa Séc. XX que tem início hoje no Palácio Fronteira, organizado pela Fundação das Casas de Fronteira e Alorna.
A sessão de hoje versará sobre a poesia de Cristovam Pavia, com apresentação e comentários a poemas por Fernando J. B. Martinho; o segundo autor a apresentar será David Mourão-Ferreira, comentado por Clara Rocha (em 12 de Maio); Matilde Rosa Araújo será estudada na terceira sessão (17 de Maio) por Violante Magalhães; o último encontro (19 de Maio) versará sobre a poesia de Sebastião da Gama, com exposição a cargo de João Reis Ribeiro.
Cada um dos quatro recitais de poesia será antecedido de um recital de música, em que intervirão Gilda Oswaldo Cruz (ao piano, hoje); Ana Luísa Monteiro (piano) e Pedro Miguel Nunes (barítono), em 12 de Maio; Maria João Sousa (soprano) e Marta Manuel (piano), em 17 de Maio; Marcos Santos (tenor), Natasa Sibalic (soprano) e Helena Vasques (piano), em 19 de Maio.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Diário de Sebastião da Gama no "Diário Digital"

O Diário de Sebastião da Gama, que inaugura a colecção das "Obras Completas" do Poeta da Arrábida, foi objecto de uma entrevista com João Reis Ribeiro, que saiu no Diário Digital de ontem. É essa peça, assinada por Pedro Justino Alves, que aqui se reproduz.

Presença edita obra completa de Sebastião da Gama
A Presença vai publicar nos próximos meses, anos a obra completa de Sebastião da Gama. O primeiro volume desta extensa colecção, Diário, já está à venda, sendo possível encontrar, por exemplo, na Feira do Livro de Lisboa, que decorre até o dia 15 de Maio. João Reis Ribeiro é o coordenador deste projecto que procura colocar de vez o nome do poeta no cenário literário nacional.
João Reis Ribeiro acredita que Sebastião da Gama não é um nome «esquecido» das letras nacionais, embora admita que o poeta «talvez não seja ainda visto com a importância que realmente teve…». E para acabar de vez com esta lacuna, a Presença resolveu oferecer aos leitores nacionais toda a obra do autor, que assim finalmente poderão reconhecer o génio, e também a lucidez do poeta oriundo de Azeitão.

Como surgiu o convite para coordenar esta colecção? Aceitou de imediato?
A ideia da publicação das obras completas de Sebastião da Gama partiu da Editorial Presença, que contactou os herdeiros do escritor para o efeito e deles obteve a necessária autorização. O meu nome aparece para coordenar a colecção devido a proposta dos herdeiros feita à Editorial Presença e, depois, por convite que me foi formulado pela editora. Entendi a razão desta escolha como consequência do trabalho que tenho dedicado à divulgação e estudo da obra de Sebastião da Gama, quer particularmente, quer no âmbito das acções da Associação Cultural Sebastião da Gama, a cuja direcção pertenço.
Quais as dificuldades que encontrou?
E quais as estratégias editoriais que procurou seguir? De dificuldades, propriamente, não se poderá falar. Há, sim, muito trabalho a fazer, fundamentalmente porque todas as edições deverão ser feitas a partir dos originais que integram o espólio de Sebastião da Gama e porque quase todos esses originais existem em manuscritos, sendo necessário o trabalho de leitura e de fixação de texto. Não nos poderemos fiar muito nas últimas edições da obra, porque há lapsos de transcrição, que desejo não aconteçam nesta colecção. Esta preocupação responde um pouco à questão das estratégias… Há ainda a considerar a forma como vai ser agrupada a obra, em seis grupos: o Diário, nas livrarias desde meados de Fevereiro; a poesia publicada pelo autor – Serra Mãe, Cabo da Boa Esperança, Campo Aberto e poemas dispersos por publicações periódicas; a poesia publicada postumamente; a poesia ainda inédita; os textos em prosa publicados pelo autor, dispersos por várias publicações e organizados em livro postumamente; a correspondência para familiares e para amigos. Tudo isto dará uma colecção das obras completas em dez volumes…
Qual a importância desta colecção no panorama literário nacional?
A obra de Sebastião da Gama é diversificada e deve ser entendida no contexto da geração a que pertenceu. Há três áreas importantes a destacar: por um lado, o papel que pode desempenhar ainda hoje uma obra como o Diário, que não é apenas um título de índole pedagógica – retrata o que foi o seu ano de tempo de professor de Português e Francês na Escola Veiga Beirão em 1948-1950 –, mas também uma referência literária, quer pelo cunho autobiográfico, quer pela estética; por outro lado, a epistolografia, praticamente desconhecida, que dá conta do que foi o convívio intelectual de Sebastião da Gama e de qual foi o seu papel na formação estético-literária de alguns daqueles com quem se correspondeu; finalmente, a poesia, o segmento mais conhecido de Sebastião da Gama, que não passa apenas pelas obras publicadas, mas também pelo contributo deixado em revistas literárias como a Távola Redonda ou a Árvore, e ainda pela poesia inédita, que, não apresentando o mesmo valor que os poemas já publicados, dá a noção de como se foi formando este poeta, autor de uma obra invulgar, escrita apenas numa dúzia de anos, por onde passam muitas referências à literatura portuguesa e a outras literaturas.
Acredita que Sebastião da Gama é hoje um nome esquecido nas letras nacionais
Esquecido não será. Talvez não seja ainda visto com a importância que realmente teve… David Mourão-Ferreira, por exemplo, várias vezes testemunhou sobre o papel que Sebastião da Gama teve na sua formação inicial, apontando-lhe referências e comentando os textos que lhe sugeria… O que aconteceu foi que Sebastião da Gama morreu cedo e não teve talvez o tempo suficiente para deixar uma obra marcante... mas uma leitura atenta da sua produção escrita, nos vários domínios, validará um nome a não esquecer no contexto da cultura portuguesa. Há poucos dias, Fernando J. B. Martinho dizia numa conferência que Sebastião da Gama talvez seja o autor português que mais homenagens tem tido… Ora, isso é a prova de que esquecido não está e será também a caução de que a sua obra ainda hoje diz muito a muitos leitores…
E quem foi Sebastião da Gama?
Numa apresentação rápida, Sebastião da Gama foi poeta português, nascido em Azeitão, em 10 de Abril de 1924. Publicou o seu primeiro texto num jornal em 1940, já escrevia sonetos aos 15 anos, licenciou-se em Românicas em 1947, publicou três livros de poemas, foi professor em Setúbal, Lisboa e Estremoz e teve uma doença – a tuberculose – que o afligiu desde os 14 anos e, num quadro clínico mais complicado, o levou à morte em 7 de Fevereiro de 1952. Foi leitor e escritor compulsivo, estendendo a sua escrita por diversos géneros. De tal forma se integra na tradição literária portuguesa que, em 1944, quando ainda não tinha publicado nenhum livro – o primeiro surgirá em 1945 –, o poeta Rui Cinatti, numa dedicatória para ele, o considerou «o sucessor de Frei Agostinho da Cruz»… Conviveu com os escritores seus contemporâneos que vieram a ser grandes referências nas letras portuguesas do século XX português, designadamente, Miguel Torga, José Régio, Teixeira de Pascoais, David Mourão-Ferreira, António Manuel Couto Viana, Luís Amaro…
Porque decidiram começar esta Obras Completas com o Diário, sendo a poesia o género mais conhecido de Sebastião da Gama? A escolha do Diário para iniciar as obras completas relacionou-se com o facto de, quando este projecto começou a ser trabalhado, em 2009, estarem a passar os 60 anos sobre a escrita desta obra. Por outro lado, era uma obra que carecia de uma edição completa, que nunca teve, e corrigindo os lapsos de transcrição que as sucessivas edições apresentavam… Provavelmente, em termos de mensagem, esta edição não traz novidade em relação às anteriores… Mas é a primeira edição completa do Diário, com anotações de contextualização, integrando ainda um estudo introdutório ao conjunto da obra de Sebastião da Gama e um roteiro cronológico exaustivo… Um outro objectivo ao iniciar-se a colecção por este título foi a necessidade de chamada de atenção para a utilidade desta obra, para o dever que temos de a ler e de a estudar, se quisermos falar de educação, independentemente do cargo que desempenhemos nesta área… Provavelmente, Daniel Pennac não conhece esta obra de Sebastião da Gama, mas foi ele quem escreveu, há três ou quatro anos, em Mágoas da Escola, que a escola de hoje não cultiva a pedagogia do amor, justamente aquilo que também orientava Sebastião da Gama… No ano passado, em Itália, houve uma tradução de excertos deste Diário, propositadamente editada para estudo universitário… Se este valor é assim reconhecido, porque não damos nós a esta obra a importância que ela tem e que os outros lhe vêem?
O que poderia falar sobre Diário no conjunto da obra de Sebastião Gama?
Além das referências já feitas, poder-se-á dizer que Sebastião da Gama apresenta uma imagem em que o poeta, a pessoa e o professor surgem indissociáveis. O próprio Diário não foge às pinceladas poéticas, seja sobre a Arrábida e a Natureza, seja sobre o génio humano… Ainda há pouco tempo, em Março, num congresso, uma comunicação abordou este Diário como possibilidade de caminho para a didáctica da leitura, o que é importante se nos lembrarmos do que tem sido a persistência na dinamização da leitura em Portugal… E Sebastião da Gama preocupou-se com essa dimensão e dela deu conta no Diário… Talvez bastasse repetir ou explorar algumas das práticas que ele seguiu… Passados 62 anos sobre a sua redacção, esta obra apresenta hoje uma frescura e uma actualidade invulgares, a exigir ser lida com atenção e com afecto…