domingo, 28 de fevereiro de 2010

Em memória de João Envia (1919-2010), com um poema para Sebastião da Gama

João Envia não era associado da Associação Cultural Sebastião da Gama, mas tinha interesse em saber como ela progredia. Nas vezes em que o encontrei, fez-me sentir isso, perguntando e registando em dedicatórias que me fez o papel da Associação. Amigo de Setúbal e da sua história, divulgador e coleccionador dos factos sadinos, João Envia foi autor de várias obras sobre a região de Setúbal e colaborou na imprensa local, ao mesmo tempo que desenvolveu a sua actividade comercial e que participou activamente no movimento associativo. Hoje, dia em que ele nos deixou, trago para aqui um poema sobre a Arrábida, em que fala de Sebastião da Gama, publicado no seu último livro, apresentado publicamente no final do ano passado. - JRR

João Envia. "A minha Arrábida". Poesias sadinas. Setúbal: edição de Autor, 2009, pg. 15.

Joana Luísa da Gama - Esta senhora faz hoje 87 anos

Em 28 de Fevereiro de 1923, nascia em Azeitão Joana Luísa, que viria a ser a amiga, a companheira e a mulher de Sebastião da Gama. Passam agora 87 anos de uma vida que, em parte, foi dedicada à obra do poeta, preservando-a e dando-a a conhecer, disponibilizando-a para estudo. Uma vida que tem passado também por gestos de voluntariado e por esse acto simpático que tem sido acompanhar aquilo que sobre o poeta vai sendo feito.
Podemos evocar aqui dois momentos de simpatia e carinho que Sebastião da Gama teve com Joana Luísa em dias de seu aniversário. Um, em 1944, quando no 28 de Fevereiro desse ano lhe ofereceu um exemplar da antologia Poesias Selectas de Frei Agostinho da Cruz, organizada por Augusto Pires de Lima (Col. “Portugal”. Porto: Domingos Barreira Editor, 1941) e, no final, lhe grafou longa dedicatória em duas páginas: “… E por saber, Joana Luísa, que são flores da Arrábida os melhores parabéns que poderia dar-te, aqui te deixo este ramo delas, a perfumar-te o caminho; a mostrar-te que a Vida é bela, quando por ela passa brandamente aquela humildade que, longe de abaixar os olhos, os faz erguer. E que lindos te irão correr os dias deste novo ano, com o ritmo dos versos do Poeta-Santo a regular-te as pancadas do coração, o imagina o muito amigo Sebastião Artur no dia 28 de Fevereiro de 1944.”
O outro gesto de Sebastião da Gama foi expresso numa carta, poucas horas antes do aniversário de Joana Luísa, em 1946, ao escrever-lhe da Arrábida: “Meu Amor, Antes de mais nada, deixa-me dizer-te uma coisa: o facto de eu ter-te mandado folhado lá por duas vezes não quer dizer que haja muito aberto: esse último ramo colhi-o na única árvore que tinha flores abertas e a pobrezinha para nos ser amável, ficou sem uma única filha. Hoje só pude sair ao lusco-fusco e vi uma árvore cheiinha: mas num sítio tão levado da breca, que naturalmente só um milagre de Amor me fará ser capaz de lhe pôr as mãos. Na Serra, minha querida, o único folhado até agora colhido foi o que te mandei e dois pequeninos ramos que perfumaram o meu quarto. Para o dia dos nossos anos, como provavelmente não estarei cá na véspera, pedi à minha Mãe que mandasse colher a haver algum e o fizesse chegar às tuas mãos. E já agora aproveito para te dizer que o folhado chega em tempo incerto: é Poeta; ora aparece em Janeiro, ora em Março, ora em Fevereiro como este ano.”
A fotografia que se reproduz data de 1947 e foi captada no dia 28 de Fevereiro. Era o dia de anos de Joana Luísa e Sebastião da Gama não faltou ao encontro.
Parabéns, Joana Luísa! - JRR

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Memórias e testemunhos (1): Maria Clementina

"Sebastião da Gama não foi meu professor, embora eu tivesse entrado para a Escola Industrial e Comercial de João Vaz no ano em que Sebastião da Gama ainda lá estava. Dele apenas recordo as suas visitas à Escola, quando já não era lá professor, pois foi ele que me ensinou a catalogar os livros da Biblioteca e a plantar flores no nosso pequeno jardim. Sempre com o seu ar jovial de garoto com a sua boina inclinada e o seu sorriso de companheiro amigo..."
Maria Clementina (via mail)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Sebastião da Gama na Escola Básica 2, 3 de Vialonga

Ontem, estive na Escola Básica 2, 3 de Vialonga (no concelho de Vila Franca de Xira) para falar a alunos de 9º ano sobre Sebastião da Gama e lhes apresentar o documentário “Meu caminho é por mim fora”, que navega pela vida e pela obra (poética, educadora e cívica) do poeta da Arrábida, correspondendo a um convite intermediado pelo Tiago Machete, professor e meu antigo aluno. Comigo, levei a Joana Luísa, esposa de Sebastião da Gama, que, nos seus quase 87 anos, gosta de acompanhar o que sobre o marido se vai fazendo.
Esta ida à Escola revestiu-se de várias surpresas, que me sensibilizaram: a iniciativa de a Escola ter realizado uma exposição com fotografias e poemas de Sebastião da Gama, arejada, estruturalmente pensada, para o público ver e ficar a saber e não para impressionar pela quantidade, eivada de simplicidade e harmonia, onde nem faltaram a areia e as conchas da Arrábida (levadas pelo Tiago) a salpicarem os livros de Sebastião da Gama; a presença de cerca de 50 alunos de 9º ano, interessados e atentos, motivados na descoberta e para a revelação de algo que lhes ia ser proporcionado; a participação de alguns alunos na leitura de poemas (que devo mencionar: Marta e Raquel, do 9º B; Sofia e António, do 9º D; Lisandra, Pedro e Diana, do 9º E; Gonçalo e Joana, do 9º F; Raja, do 9º FPI), de que me parece justo destacar o entusiasmo e a vida que a Lisandra conferiu ao texto “Pequeno Poema” e a ternura e delicadeza que o Pedro e a Diana puseram no “Madrigal”; o interesse e a sensibilidade com que os professores seguiram a sua (também) (re)descoberta deste poeta e a emoção com que um me veio dizer, no final, que tinha descoberto o Diário havia muito tempo (sem saber que o tinha descoberto) e que se impressionara com a vida que daquela obra jorra.
Gostei desta participação e aqui deixo o agradecimento pelo que me proporcionaram. - JRR

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Porque ler o “Diário” de Sebastião da Gama, segundo Cruz Malpique

Em 1965, Cruz Malpique (1902-1992), o reconhecido nisense e professor do Liceu Alexandre Herculano, no Porto, publicava o livro Mestres e Discípulos (Porto: Divulgação, 1965), cerca de 230 páginas de reflexão sobre a profissão docente, nas vertentes pedagógica e deontológica. Um dos mais longos capítulos aí inseridos, ocupando cerca de quatro dezenas de páginas, intitula-se “Sebastião da Gama, Professor-Poeta” e faz uma peregrinação pelo Diário, que fora publicado havia sete anos (apesar de maioritariamente escrito no estágio que decorreu entre Janeiro de 1949 e Fevereiro de 1950, esta obra de Sebastião da Gama só seria publicada postumamente, em 1958).
A viagem de Cruz Malpique por esta obra é de tal forma condicionada pela sua mensagem que o autor se deixa levar pelas longas citações de Sebastião da Gama, assumindo-as como testemunhos e verdades de referência para o que é ser professor, desde o início erguendo como princípio que “outros diários existissem desse teor e teríamos aí admiráveis repositórios psicopedagógicos, dos quais muitos candidatos ao magistério poderiam extrair extraordinário proveito.”
Cruz Malpique destaca dois valores na pedagogia do professor de Azeitão: a lealdade e a “alma aberta”, ingredientes indispensáveis a uma educação em que o amor pontifica, um e outro cimentados pela referência maior da poesia. É desse capítulo que para aqui trago algumas citações, quer pelo seu valor na história da pedagogia, quer por causa do apelo a valores que norteiam a formação da pessoa. E ainda por um desafio que, à distância, mantém actualidade: “Todos os professores deveriam escrever os diários das suas aulas, dando notícia do como fizeram, do como reagiram os alunos, e tudo isso deveria ser dito muito objectiva e veridicamente, sem narcisismos.” Talvez esta fosse uma boa maneira de um professor poder reflectir sobre a sua prática, sobre os seus alunos, muito mais frutuosa do que as carradas de burocracia e de papelada que atafulham a educação e a vida da escola. – JRR

Citações de Cruz Malpique
LEALDADE – "(…) Sebastião da Gama, que foi estruturalmente uma alma sincera, lealíssima consigo mesma e com o seu semelhante, não podia deixar de pedir aos alunos que cultivassem a lealdade. (…)"
ALMA ABERTA – "(…) Queria fraternidade entre os homens, aproximação simpática, intimidade, em vez de indiferença, distância. Nele havia muito da psicologia do franciscano, não só na fraternidade com que tratava o seu semelhante, mas até na humanidade com que descrevia a paisagem. (…)"
SIMPATIA PELO COLÓQUIO – "(…) Detestava o solilóquio, queria o colóquio. Queria que na aula todos tivessem papel bem activo, de colaboração efectiva, de presença espiritual (…). Na bondade via Sebastião a qualidade mestra do professor. (…)"
POESIA E PEDAGOGIA – "(…) A poesia era nele um natural estado de alma, o seu próprio tecido psicológico. (…) Sebastião era professor, como foi poeta, por espontânea e irresistível vocação. (…) Leccionando, fez sempre poesia – poesia viva – da melhor. E, poetando, fez sempre o magistério da sinceridade. (…) Dentro da sua filosofia da sinceridade, não estava com meias medidas e, se dava boas aulas, louvava-se, e quando as dava más não deixava de se censurar (…)."
LINGUAGEM DA PERSUASÃO – "Sebastião seguia, com o mais vivo interesse, os alunos de tendências reprováveis. Dentro de uma política de bondade, de inteligência e cálida persuasão, procurava trazê-los ao bom caminho. (…) Amparar e aconselhar era o seu sistema – de resultados eficientes. (…) Sebastião nunca se furtou, antes nisso punha extraordinário gosto, a elogiar as qualidades dos seus discípulos, aquilo que neles havia de prometedor. (…) Sebastião, como poeta, como homem de coração, como bom psicólogo, tinha sagrado respeito pela personalidade dos seus educandos. Entendia que é preciso ajudar a formar, de maneira construtiva, as personalidades nascentes. (…) A sinceridade foi a nota fundamental em Sebastião da Gama. A sinceridade tocada de um arzinho de doce ironia. (…)"
MEMÓRIA – "Sebastião da Gama, em boa verdade, começou a viver – e com credenciais para a perenidade – no dia em que morreu da morte física (…), está agora renascendo todos os dias e a toda a hora, na obra que nos deixou.”

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

"Louvor da Poesia", um testamento de Sebastião da Gama

O Parque dos Poetas, em Oeiras, constituído por vinte estátuas de poetas portugueses do século XX, todas da autoria do escultor Francisco Simões, não inclui a estátua de Sebastião da Gama. Mas poderia ter incluído. Aliás, segundo me contou o próprio escultor, este jardim para os poetas lusos do século XX foi ideia conjunta do artista e de David Mourão-Ferreira e, no início do projecto, o nome de Sebastião da Gama constava na lista dos vinte a figurarem no Parque…
No entanto, o Parque dos Poetas faz-se também com os poemas que estão lavrados no chão, rasgados em pedra, aí constando muitos nomes de outros poetas portugueses do mesmo século, que, não tendo lá a sua estátua, têm a sua palavra. É o que sucede com Sebastião da Gama, que, numa das entradas do Parque, tem esculpido o conhecido poema “Louvor da Poesia”, texto que o poeta legou como um quase testamento poético.
O poema está datado, em manuscrito, de 7 de Fevereiro de 1950, com dedicatória ao Dr. Virgílio Couto (1901-1972), professor metodólogo que acompanhou o estágio de Sebastião da Gama na Escola Veiga Beirão, em Lisboa. Foi, aliás, por esta altura, que terminou a experiência pedagógica de estágio com a turma que surge retratada no Diário. Viria a ser inserido no livro Campo aberto (1951), o último que Sebastião da Gama publicou.
Disse acima que este poema ficou como testamento poético, afirmação que decorre da resposta que o poeta deu para a revista Sísifo nesse mesmo ano de 1951. Andava Manuel Breda Simões (1922-2009) a preparar o quarto número da revista quando decidiu encetar uma antologia da poesia portuguesa com informações dadas pelos próprios autores. O primeiro poeta seleccionado foi Sebastião da Gama, que respondeu ao questionário de quatro perguntas (que iria ser igual para os outros entrevistados), assim se identificando na quarta, que pretendia saber o que o poeta pensava “da Poesia em geral, e da própria poesia”: «Minhas ideias acerca da poesia. Vide: 'Louvor da Poesia', in Campo Aberto. Será tudo? Olhe que a resposta não é para posar. É que só nos versos sei o que penso da Poesia.» Infelizmente, Sebastião da Gama não viu esta resposta publicada, porque o número 4 da revista, embora tendo a data de 1951, saiu já depois do seu falecimento (7 de Fevereiro de 1952), juntando-se neste exemplar da revista a resposta do poeta e a notícia sobre o seu passamento. - JRR

Louvor da Poesia

Dá-se aos que têm sede,
não exige pureza.
Ah!, se fôssemos puros,
p’ra melhor merecê-la…

Sabe a terra, a montanhas,
caules tenros, raízes,
e no entanto desce
da floresta dos mitos.

Água tão generosa
como a que a gente bebe,
fuja dela Narciso
e quem não tenha sede.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Dos associados (1) - António Osório

De António Osório, nosso associado, foi publicado, no último trimestre de 2009, o volume A Luz Fraterna (Lisboa: Assírio & Alvim, 2009), que reúne os seus títulos de poesia e inclui um prefácio assinado por Eugénio Lisboa e uma entrevista efectuada por Ana Marques Gastão (publicada na revista DNA, em 2001).
O leitor poderá ainda avaliar o que foi o percurso poético de António Osório pelos excertos críticos que são compilados no final do volume, por onde passam as vozes autorizadas de João Gaspar Simões (“a poesia de António Osório realiza, com ritmos antigos, imagens consagradas, sentimentos quotidianos, aspirações serenas, saudades calmas, um corpo poético como outro não havia nos anais do nosso lirismo contemporâneo”, 1979), Fernando Guimarães (“o psicologismo que pode haver nos poemas de António Osório é sobretudo encontro com os outros, com os lugares, com o mundo”, 1981), David Mourão-Ferreira (“convivem, no espaço do poema, os mortos e os vivos, o passado e o presente, a memória e o quotidiano numa teia subtil de sugeridas relações ou de perturbantes contrapontos”, 1981), Fernando J. B. Martinho (“por mais reflexivos e filosóficos que os seus poemas possam ser, nunca esquecem o lado emocional e afectivo da natureza humana”, 1982), entre muitos outros.
A esta obra foi atribuído o prémio “Autores SPA / RTP – 2010”, na categoria de “Melhor Livro de Poesia”, entregue em 8 de Fevereiro.
António Osório, que conheceu Sebastião da Gama e com ele privou, dedicou-lhe um poema incluído no seu livro de 1978, A ignorância da morte, que aqui reproduzimos. Refira-se que António Osório escreveu ainda sobre Sebastião da Gama um lindo e longo texto evocativo e memorialístico, incluído na obra Vozes Íntimas (Lisboa: Assírio & Alvim, 2008, pp. 123-151), intitulado “Os amigos de Sebastião da Gama”, escrito que foi também inserido na colectânea que a Associação Cultural Sebastião da Gama editou em 2007, Sebastião da Gama – O poeta e o professor – Estudos e perspectivas (pp. 23-49). - JRR

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

"Manhã no Sado", de Sebastião da Gama


Brancas, as velas
eram sonhos que o rio sonhava alto.
Meninas debruçadas em janelas,
viam-se, à flor azul das águas, as gaivotas.
E a Manhã quieta (sorrindo, linda, vinha vindo a Primavera…)
punha os pés melindrosos entre as conchas.
Derivavam jardins imponderáveis
dos seus passos de ninfa
e tremiam as conchas
de súbitas carícias.

Longe era tudo: o medo dos naufrágios,
as angústias dos homens, o desgosto,
os esgares das tragédias e comédias
de cada um, os lutos, as derrotas.
Longe a paz verdadeira das crianças
e a teimosia heróica dos que esperam.

Ali, à beira-rio,
de olhos só para o rio, de ouvidos surdos
ao que não é a música das águas,
um sossego alegórico persiste.
Nem o arfar das velas o perturba.
Nem o rumor dos seios capitosos
da Manhã, que nas águas desabrocham
e flutuam, doentes de perfume.
Nem a presença humana do Poeta
- sombra que a pouco e pouco se ilumina
e se dilui, anónima, na aragem…
Sebastião da Gama (8 de Abril de 1948, poema dedicado ao amigo Alberto Fialho)
in Campo aberto (1951)

A paixão pelo "Diário", sentida pela Maria Teresa Pereira

Hoje, a nossa Associação iniciou o contacto com os associados através de mail, forma útil, sendo pena que apenas um terço dos associados (mais coisa menos coisa) tenham esta forma de correspondência. Nessa missiva, dissemos sobre algumas coisas que temos feito, informámos sobre o blogue e demos uma pequena, mas significativa, notícia: está para breve uma edição de excertos do Diário de Sebastião da Gama em Itália, fundamentalmente destinada ao meio académico.
Logo uma associada, a Maria Teresa Pereira, nos escreveu. E, a propósito dessa obra de Sebastião da Gama, registou algo que subscrevemos:
«O Diário é, sem dúvida, o que de melhor foi escrito sobre educação. É sempre actual quer nas horas de encantamento, quer nas de inquietação e de busca do Professor com paixão pelo ensino.»

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Um poema para este dia ("dos namorados" chamado)

Madrigal

A minha história é simples.
A tua, meu Amor,
é bem mais simples ainda:

“Era uma vez uma flor.
Nasceu à beira de um Poeta…”

Vês como é simples e linda?

(O resto conto depois;
mas tão a sós, tão de manso,
que só escutemos os dois).
Sebastião da Gama (07.Out.1946)
in Cabo da Boa Esperança (1947)

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Joaquim Vermelho e "o rapaz da boina"


Em Abril de 2006, numa passagem por Estremoz, quis ver onde era o Largo do Espírito Santo, residência que foi de Sebastião da Gama quando ele lá leccionou na Escola Industrial e Comercial (hoje, Escola Secundária Rainha Santa).
Chegado ao Rossio, visitei o Museu de Arte Sacra e perguntei a uma senhora (que andaria pelos 60 anos) onde era o Largo do Espírito Santo. Logo a conversa se estendeu. O que ia eu ver ao sítio, quis ela saber. Lá lhe disse ao que ia. Subitamente, o seu olhar animou-se: “Oh, o senhor doutor Sebastião da Gama! Lembro-me tão bem dele! Com a boina, os livros… e também me lembro da mulher dele. Ela ainda é viva? Ele era tão boa pessoa… Gostávamos muito dele…” Creio que a senhora não chegara a ser aluna dele, mas recordava-o e descrevia-o como se o tivesse visto havia pouco. Já tinham passado 54 anos sobre a sua morte…
Fiquei impressionado com a vivacidade da senhora, num olhar e num recuo no tempo, quase virando outra vez criança que contemplava o professor da boina que tinha vindo lá de Setúbal. Depois, indicou-me o itinerário para o Largo e acrescentou que ainda se lembrava de quando ali tinha sido colocada a lápide evocativa do “senhor doutor”…
Este testemunho impressionou-me e evoco-o a cada passo, quando procuro ilustrar o que é a memória e o que de Sebastião ficou no seu "Estremozinho"... Trouxe-o para aqui, por causa do texto que reproduzo, da autoria de Joaquim Vermelho (1927-2002), que foi amigo de Sebastião da Gama e ajudou à manutenção da sua memória. Lá está: o professor da boina, que desceu da Arrábida para chegar a Estremoz. É um testemunho bonito, que vale a pena ler, porque ajuda a perceber o sentimento da tal senhora que, por acaso, encontrei no Rossio estremocense. Foi publicado no Jornal de Almada, no seu suplemento literário, em 5 de Fevereiro de 1961. – JRR
Largo do Espírito Santo, 2 (Estremoz)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Sebastião da Gama visto por António Matos Fortuna

O recorte que se apresenta já tem mais tempo do que, na altura da sua escrita, tinha a efeméride que ele evocava. Passavam os 25 anos da morte de Sebastião da Gama; estava-se, portanto, em 1977. A partir de Quinta do Anjo, António Matos Fortuna, historiador, interessado pela cultura local e regional, apreciador de poesia (e, por vezes, poeta na forma de viver), escrevia sobre a efeméride para o jornal O Dia. O artigo saiu na edição de 8 de Fevereiro desse ano.
Uns meses antes de falecer, Matos Fortuna (1930-2008) entregou-me o recortezinho, dizendo para o trazer, porque me faria mais jeito a mim, que andava a estudar o Sebastião da Gama e que estava a colaborar na Associação Cultural Sebastião da Gama.
Relembro hoje este artigo, ao mesmo tempo que recordo António Matos Fortuna, que, há 33 anos, mais dia menos dia, afirmava que “a espontaneidade e franqueza de Sebastião da Gama não se prendiam [com] jogos florais”, interpretando que, no momento em que o poeta disse ter muito que amar, mais do que ter muito que fazer, estava a manifestar a sua “resposta de poeta, de Homem, de cristão, de educador”.
Este artigo tem as marcas do tempo, claro. Mas contém também alguns dos valores que alicerçam a obra de Sebastião da Gama e que se mantêm inalteráveis. - JRR

Adivinha (2) - em continuação, com pistas

O que terão em comum nomes como Maria Barroso, Célia David, Fernando Guerreiro, Maria Clementina, José Luís Nobre e Rui Serodio para lá das coisas comuns que possamos dizer? Esta é uma pista para a adivinha que aqui foi deixada (e que até já mereceu um comentário)… Quem quer avançar com mais hipóteses ou com sugestões?

Um poema para Sebastião da Gama

Desconhecemos a autoria deste pequeno poema que leitor(a) deixou na caixa de comentários num postal anterior. No entanto, porque revela marcas intensas do "Poeta da Arrábida", este poema, ainda que sem título e sem indicação de autoria, merece sair da caixa dos comentários e ter visibilidade. Ora apreciem...

Sebastião
Olho-te os olhos
Risonhos, febris,
O sorriso ténue, frágil.
Olho a boca, a mão,
Úteros de palavras
Quentes e límpidas.
Em mim...surge
Clara, pura,
Maternal, a Poesia.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Têm falado deste blogue (2)

Mais três paragens onde apareceu referência ao nascimento deste blogue: Triplo G, Santa Aliança e Julieta Ferreira. Assim se vai fazendo o caminho...

Adivinha

O que têm cinco vozes e um piano a ver com Sebastião da Gama?
Aceitam-se sugestões de resposta...

Sebastião da Gama e a Arrábida num poema de Maria Só

in O Canto dos Poetas. Setúbal: Grupo Desportivo "Independente", nº 20, Jan/Mar 2010

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

"Serra-Mãe", o primeiro livro de Sebastião da Gama

O primeiro livro de Sebastião da Gama foi Serra-Mãi (assim mesmo escrito), saído a público em Dezembro de 1945, com desenho de capa de Lino António, obra que muito cuidou e para a qual levou a preceito a selecção dos seus poemas.
Nesta altura, Sebastião da Gama, com 21 anos, era ainda estudante no curso de Românicas, na Faculdade de Letras de Lisboa. Tivera uma hipótese de a Livraria Portugália lhe editar o livro, mas, a 24 de Outubro, era-lhe dirigida uma carta, dizando que, naquele momento, não interessavam à editora “as publicações não integradas no plano” editorial, porque havia encargos com cerca de uma centena de originais, já pagos a autores e tradutores, e não havia como “dar vazão” a esse trabalho.
A família de Sebastião da Gama assumiu, então, os encargos financeiros advenientes da edição e o livro foi publicado com a chancela da Portugália, enquanto distribuidora. Com obra, dedicada a Alexandre Cardoso, seu tio, assumia o risco de vir a ser o “poeta da Arrábida”, elegendo a serra como motivo, como título e como origem. Assim dava cumprimento ao destino que se traçara numa quadra da infância, em linguagem infantil, que a mãe recordava: “Fui passear / à serra da Arrábia / e encontrei / uma mulher grávia.” Terão sido estas as primeiras rimas de Sebastião da Gama, não escritas, depois de um passeio à serra, quando ainda criança, mas já apontando as duas ideias que viriam a iluminar o seu primeiro título: a serra e a maternidade.
No ano anterior a esta publicação, em Maio de 1944, Ruy Cinatti, em Nós não somos deste mundo (Lisboa: Cadernos de Poesia, 1941), escrevera no exemplar do poeta azeitonense a dedicatória: “Ao jovem sucessor do Frei Agostinho, Sebastião da Gama, afectuosamente”. Sebastião da Gama não tinha ainda publicado livro, mas a sua condição de poeta da Arrábida estava já traçada (e reconhecida). Serra-Mãe iniciar-se-ia sob o signo de Frei Agostinho da Cruz, em cuja abertura seriam gravados dois versos deste poeta arrábido. (JRR)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Um poema para Sebastião da Gama

Sebastião da Gama
Poesia feita sonho
Claridade e maternidade telúrica.
Anita Vilar

Têm falado deste blogue

O blogue da Associação Cultural Sebastião da Gama mereceu destaques em vários postos da blogosfera, tais como: Estrada do Alicerce, Bibliotecário de Babel, Tempo de Teia, Entre Tejo e Sado, Terrear, A Seda das Palavras, Nesta Hora e Cidadania Azeitão, além de ter merecido comentários de vários leitores no sentido de ser o espaço que faltava para Sebastião da Gama.
Na imprensa escrita, O Setubalense de hoje trouxe este blogue também para notícia:

O Setubalense: 08.Fevereiro.2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Sebastião da Gama fechou "As escolhas de Marcelo Rebelo de Sousa" de hoje

No final do programa "As escolhas de Marcelo Rebelo de Sousa" transmitido hoje pela RTP 1, o seu autor evocou o poeta da Arrábida, a fechar, depois de apresentar a habitual rubrica de livros: "Só uma evocação de Sebastião da Gama que há 58 anos morreu e deixou, de facto, uma saudade, uma admiração, um culto, que é partilhado por cada vez mais gente e cada vez mais gente nova neste país." Ao longo desta referência feita por Marcelo Rebelo de Sousa, a entrevistadora, Maria Flor Pedroso, ainda lembrou aquele que é talvez o mais conhecido verso de Sebastião da Gama: "Pelo sonho é que vamos". Gesto simpático e merecido! (JRR)

O dia em que Sebastião da Gama entrou na memória

Luís Filipe Lindley Cintra (1925-1991) foi um dos maiores amigos de Sebastião da Gama, tendo partilhado com ele o tempo da Faculdade de Letras e o gosto pela Arrábida e pela escrita. Primeiro leitor de muitos poemas do Poeta da Arrábida, contribuiu amplamente para a divulgação da obra de Sebastião da Gama, colaborando na organização da sua obra póstuma e tendo prefaciado a edição de Serra Mãe em 1957, além de ser autor de alguns artigos na imprensa sobre a obra do poeta azeitonense, tais como: “Carta ao poeta Sebastião da Gama” (Diário Popular, 26.Dez.1945), "Sebastião da Gama: um depoimento" (O Tempo e o Modo, 27, 1965, págs. 463-478) e “Sebastião da Gama e a poesia social” (República, 1967).
A carta que aqui se reproduz, dirigida por Luís Filipe Lindley Cintra a Joana Luísa da Gama uma semana depois da morte do poeta, é um documento de ternura e um testemunho que inicia o caminho da memória de Sebastião da Gama. (JRR)


1ª e 4ª páginas da carta de Lindley Cintra a Joana Luísa
14-2-52
Joana Luísa,
Não venho com esta carta tentar consolar-te. Dores como a tua respeitam-se a acompanham-se. Não se podem consolar. Venho só dizer-te que a Maria Adelaide e eu estamos sempre contigo, que te consideramos nossa irmã como o foi – e continua a ser porque só aparentemente ele não está connosco – o nosso Sebastião. À hora em que escrevo sei que devem estar estar aí a dizer uma missa por ele. Gostava de estar presente. Não me era possível. Mas também aqui penso nele e rezo por ele. Todos os dias temos rezado. Nunca ele esteve tão presente junto de mim.
No Sábado passado, em lugar de dar aulas, fui à Faculdade à hora de uma delas e, com os meus alunos, lembrei o Sebastião. Deus deu-me coragem para ler poemas dele. Depois pediram-me que preparasse um programa para a Rádio Universidade, que deve ser transmitido na quarta-feira que vem. O Dr. Prado Coelho teve a ideia, a que me juntei, de mandar dizer uma missa em nome dos professores e alunos da Faculdade. Será com certeza aos quinze dias.
Eu devo tanto ao Sebastião. Aprendi a ver tanta coisa pelos olhos dele. Sinto-o agora mais do que nunca. Havia qualquer coisa em mim que era tanto dele como minha, talvez mais dele do que minha. Eu sabia ao sentir certas coisas que era com ele que as sentia. E é com ele que as continuarei para sempre a sentir. Eu sei. Mas falta-me qualquer coisa. Joana Luísa, para que te venho entristecer? Perdoa. Perdoa também vir-te já falar num assunto em que constantemente penso. O Sebastião deixou-nos um legado precioso que precisamos de defender, elevar – os poemas. Deixou-os talvez mais a ti e a mim que a mais ninguém. Desculpa eu falar assim mas vi, como tu, nascer a
Serra Mãe, tenho os originais todos, ouvi tantos e tantos poemas, mal eles nasceram; sei-os quase de cor. Era preciso agora juntar os poemas de depois do Campo aberto e publicá-los. Joana Luísa, deixa-me colaborar contigo no cumprimento deste dever, sim? Eu trato de tudo quanto disser respeito à edição. Como último abraço, a unir-nos para sempre (lembras-te quando ele escreveu “começou no Mirante dos Frades e não tem fim”?), eu gostava – mas tu dirás se achas bem – de escrever umas palavras, o estudo que ele tantas vezes me pediu sobre a poesia dele e que eu nunca cheguei a escrever, que acompanhariam esses últimos versos. Deixas, Joana Luísa? Eu queria fazer tanta coisa pela memória dele.
Quando tiveres coragem de vir a Lisboa, vem a nossa casa. Está sempre aberta para ti. Os nossos pequeninos esperam-te. Eles podem dar-te um pouco de conforto com aquela alegria que o Sebastião tão bem sabia compreender. Vem, Joana Luísa. Se quiseres, também tens onde ficar. Dizemo-lo do fundo do coração.
Abraça por nós a Mãe e o Pai dele, o Sérgio. Diz-lhes que estamos muito junto da vossa dor.
A ti abraçam-te muito, muito
Luís Filipe e Maria Adelaide

O dia em que Sebastião da Gama partiu...

Cemitério de Vila Nogueira de Azeitão
Pelas 8h30 da manhã de 7 de Fevereiro de 1952, falecia, no Hospital de S. Luís, em Lisboa, Sebastião da Gama, chegado na véspera de Estremoz. A tuberculose, de que padecia desde a sua juventude, vencera-o, pondo-lhe fim a um percurso de 27 anos, cheio de escrita e de leitura. Pelo caminho, ficavam três livros de poesia, uma licenciatura com tese sobre a poesia social, alguns (poucos) ensaios, muita colaboração jornalística, uma curta mas intensa experiência de ensino (nas Escolas Industrial e Comercial de João Vaz, em Setúbal, Industrial e Comercial Veiga Beirão, em Lisboa, e Industrial e Comercial de Estremoz) que teve direito a uma reflexão diarística incluída no título póstumo Diário (1958), muitas amizades (e muita consternação) e uma obra literária para conhecer (e para publicar).
De acordo com o testemunho de sua mulher, Joana Luísa da Gama, a última palavra que lhe foi ouvida foi a palavra “poesia”. Apesar de a sua escrita mais conhecida ser da área da poesia, certo é que o seu último texto foi em prosa, sob o título “Encarcerar a asa”, crónica com ares estremocenses e verdadeiro hino à liberdade e ao amor à vida, redigida em 25 de Janeiro de 1952 e publicada uns dias depois, em 3 de Fevereiro, no jornal Brados do Alentejo (dirigido na altura por João Falcato, este jornal teve colaboração muito diversificada, com nomes reconhecidos como Antunes da Silva, Matilde Rosa Araújo, Joaquim Vermelho, Fernando Namora, Cruz Malpique ou Silva Tavares) e posteriormente integrado na colectânea O segredo é amar. (JRR)

sábado, 6 de fevereiro de 2010

A escola, ecossistema da sociedade (a propósito de um poema de Sebastião da Gama)

Tempos da Escola

Aquela escola velha , outra mãe
em que eu bebi o leite do Saber,
Inspira-me saudades, só de a ver,
desse tempo que foi e já não vem.

Tempos felizes esses, em que eu ia,
a mala negra ao ombro, o rir na face,
pra que na minha mente se amostrasse,
em vez de escura noite, claro dia.

Tempos que se perderam no passado,
como as águas do rio no mar salgado,
esses são, em que eu lia João de Deus

e em que a palavra “amor”, a vez primeira
desta vida cruel e traiçoeira
disseram, soletrando, os lábios meus!
Vila Nogueira, 22/XI/1941
Sebastião da Gama (inédito)

A escola. Primeiro grupo social com o qual o jovem Sebastião é confrontado, representa uma mãe que lhe irá saciar a fome do Saber. Alegria e saudade sentidas apenas com dezassete anos de idade, mas com uma maturidade induzida pelo sofrimento de conhecer, desde os catorze, os condicionamentos impostos por uma doença para a qual não se conhece a cura. A um ano do ingresso na Faculdade de Letras de Lisboa, já recorda com saudade a criança e a alegria que a vida de então lhe proporcionou. Escola-família, unidade em que cresce, representa a importância da família como integração da educação escolar.
Na escola as crianças sentem-se tanto mais felizes e capazes de absorver conhecimentos, quanto maior for a capacidade do professor para observar a família. Mas quando aquele considera, para além da família, a cidade e a nação, maior é a segurança que as crianças sentem na escola. Porque o professor é um elo desta cadeia, tem que educar o homem através da capacidade de integração de todos os grupos socio-humanos representados na sociedade. O “claro dia” a que Sebastião alude é fruto da capacidade do professor para transferir a superioridade da sua orientação espiritual para as consciências dos alunos, estando desta forma, a interagir com o mundo. Nesta perspectiva, qualquer que seja a profissão futura, é imprescindível assegurar aos jovens o máximo de valores humanos. Esta certeza foi fulcral em Sebastião da Gama, homem e professor. Foi em torno desta verdade que os seus discípulos aprenderam a Vida. “O segredo é amar...” consagrou-lhe o lugar que ocupa em todos aqueles que foram bafejados pela sorte de com ele terem privado.
Sebastião integrou em todos os seus actos um triângulo em cujos vértices figuraram a Honestidade, a Independência, o Respeito à Arte e à Vida. Desta maneira foi homem, artista, pedagogo, ecologista (ainda antes de se falar na ecologia!). Soube, como ninguém, ouvir o outro, quem quer que ele fosse. Deu-se aos outros. Esta dádiva, base humanizadora, é a ferramenta com a qual o homem de amanhã se integra harmoniosamente na sua sociedade. Será fonte de crer em um mundo melhor onde o outro é tratado com a maior humanidade e respeito. O aluno de hoje tem que acreditar no homem de amanhã. A crença positiva no futuro é, segundo Daniel Sampaio, essencial a todas as gerações.
A cultura humana que se exige ao professor, decorrendo necessariamente da sua boa preparação, é, pois, o caminho. “Para ser professor, também é preciso ter as mãos purificadas. A toda a hora temos que tocar em flores”. “O que eu quero, principalmente, é que vivam felizes”. Frases do seu Diário.
Todas as reflexões que fiz conduzem-nos a crer que a experiência escolar se deve basear na convicção de que esta é um espaço de formação humana amplo e não apenas uma cadeia de transmissão de conteúdos destituídos de interesse.
Somos responsáveis pela sociedade em que vivemos e as nossas atitudes ajudam a construir um mundo melhor ou pior. Nesta medida a escola não pode alienar os alunos. A libertação autêntica, que é a humanização em processo, não é algo que se deposite nos homens. Não é uma palavra a mais, oca, mitificante. É praxis que implica a acção e a reflexão dos homens sobre o mundo no sentido de o transformar.
Maria da Glória Dias

Um poema para Sebastião da Gama, por Artur Vaz

SEBASTIÃO DA GAMA

Servo de Deus,
poeta da natureza.
Tu serás sempre
anjo ancorado
na Serra-Mãe.

Terra que tu beijaste
e que por ti foi cantada,
nos poemas que deixaste
na obra inacabada.
Tu serás sempre uma voz
Do Amor e da Liberdade,
na tua nova morada.
Poeta da natureza
da Távola, por ti criada.

Foste o arauto
e a voz da Arrábida,
Campo Aberto e Cabo da Boa Esperança.
Pelo sonho, tu seguiste,
entre estevas e flores,
num supremo querer divino
em férteis e encantados amores.

Foste Mar-Azul,
memorial do teu povo,
êxtase e presença espiritual.
Tantas vezes te chamaram louco,
deixa lá isso!
Em tua defesa...
estão os teus cânticos.
Os poetas, esses, nunca morrem,
enquanto houver poesia, serão imortais.

Porque tu, Sebastião da Gama,
nesta encruzilhada da Vida
foste e serás,
como Camões, Bocage e Pessoa,
um poeta genial.
Artur Vaz. in Tributos (2009)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A segunda casa de Sebastião da Gama e o segundo registo

Quando Sebastião da Gama tinha 6 meses, a família mudou de casa, indo viver para o número 140 da rua José Augusto Coelho, em Vila Nogueira de Azeitão. Estava-se em Outubro de 1924. Uns dias depois, em 27 de Novembro, acontecia o baptizado do jovem Sebastião na Igreja Matriz de S. Lourenço, sendo celebrante o padre Manuel Fernandes de Barros e assumindo como padrinhos Gabriel Domingos do Carmo, casado, notário, e Josefina Pascoal Cardoso, casada, doméstica.
Esta segunda residência de Sebastião da Gama serviu-lhe até aos 14 anos, altura em que, por motivos de saúde, a família fixou residência no Portinho da Arrábida.
Apesar de esta segunda casa não ser aquela em que o poeta nasceu, certo é que muita gente é levada a pensar estar perante a que foi a sua primeira residência, uma vez que é na sua frontaria que se pode ver uma lápide evocativa, colocada na que foi a primeira homenagem pública póstuma a Sebastião da Gama, ocorrida em 8 de Fevereiro, quando passava o primeiro aniversário sobre a sua morte. Nessa lápide, pode ser lida a inscrição “Faltava-lhe a morte / para ser completo. / A taça estava cheia. / Faltava-lhe a pétala / da rosa / para transbordar.”, seguida do nome do poeta e das datas de nascimento e de morte e do registo “homenagem dos seus conterrâneos 1953”. Os versos para aqui transplantados constituem a abertura do poema “Ode a um amigo morto”, datado de Novembro de 1946, que Sebastião da Gama incluiu na obra Cabo da boa esperança (1947). (JRR)
Fotos: casa na Rua José Augusto Coelho, 140, em Azeitão, na actualidade; registo baptismal de Sebastião da Gama; homenagem dos azeitonenses em 8 de Maio de 1953.

Sebastião da Gama lido por Alexandre Santos

Na obra Sebastião da Gama – Milagre de Vida em busca do Eterno (Lisboa: Roma Editora, 2008), de Alexandre F. Santos, o leitor passa pelo primeiro capítulo, intitulado “O autor e o seu tempo”, e tem a sensação de entrar na vida do poeta, pelo menos naquela faceta que é mais pública, a da sua poesia e do seu pensar. Alexandre Santos cruza poemas, testemunhos, leituras, correspondência e o ambiente cultural e literário da época e dá-nos um retrato que ajuda a entender a obra deste poeta, primeiro passo para descobrirmos que a escrita, o sentir, a vida e a pessoa, no caso de Sebastião da Gama, são indissociáveis, são os pilares de uma mesma catedral. Não me estou a referir a pormenores biográficos, note-se (embora alguns vão perpassando); esta leitura permite-nos ir mais longe e entrar nas linhas de pensamento, no ideário e no caminho deste poeta, afinal naquilo que determinou que o poeta fosse o que foi, que o homem experimentasse o que experimentou.
Talvez a nossa adesão a este texto parta de verdades que nos são ditas – apetecia-me dizer “reveladas” e só o não digo sem hesitar porque a revelação é algo de pessoal e de único – mas, dizia, este texto transporta verdades que demonstram um caminhar a passo que Alexandre Santos fez pela obra de Sebastião da Gama, com nítida e notável simpatia, com esclarecido e assumido envolvimento. Repare-se, a título de exemplo, em afirmações que Alexandre Santos faz sobre Sebastião da Gama, que pressupõem o conhecimento da obra, mas também o fascínio que essa mesma obra exerceu sobre o seu leitor e estudioso: “um hino luminoso à sagração da Vida” é a metáfora escolhida para contrapor e classificar o trajecto dos 27 anos que Sebastião da Gama viveu; sobre a escrita, acentuará que é constituída por “páginas vivas e coloridas, cheias do brilho e do calor coloquial que ele era tão exímio a transmitir”; sobre a humanidade de um percurso de vida, afirma que “Sebastião da Gama, alma genuinamente sensível e profunda, descobriu que a vida é uma conquista diária feita de contínuas quedas e voos, de fraquezas e de triunfos”; sobre o trajecto poético, a sua autonomia e independência, entende que Sebastião da Gama “pretendia ser genuíno e livre, fazendo da poesia o reflexo da vida e do pulsar do seu coração, nunca se submetendo à tutela de qualquer corrente ou ideologia”.
No final deste primeiro capítulo, a conclusão só pode ser uma: “para Sebastião da Gama, a poesia, mais do que um modo de fazer, um comportamento, era, sobretudo, um modo de ser, uma atmosfera espiritual, uma ética de acção, um transcendente exercício de um sacerdócio.”
O ciclo mais biográfico, enraizado numa vasta leitura da obra, fecha-se e o segundo capítulo traz-nos “o poeta e o pedagogo”, logo não nos surpreendendo que um e outro coexistam numa íntima abordagem.
E o que nos traz Alexandre Santos? Fundamentalmente, um olhar de vários ângulos sobre a obra de Sebastião da Gama.
Em primeiro lugar, o ciclo das obras por ele publicadas, a saber: Serra Mãe (1945), Cabo da boa esperança (1947) e Campo aberto (1951). A leitura dos poemas é convenientemente anotada nas suas linhas temáticas e de amadurecimento, num caminho que segue a chamada da poesia: desde a busca da perfeição (seja no texto, seja na mensagem a fazer passar) até um “grito à alegria, à vida e à esperança”, numa leitura simbólica da estrutura dos livros, ajudada, por exemplo, pelos títulos dos dois últimos poemas de Serra Mãe, respectivamente “Alegria” e “Claridade”, uma forma eufórica e luminosa de concluir um trajecto, de atingir, como Sebastião da Gama referia numa carta a Luís Amaro, o “Presente Eterno”, mensagem por demais bonita e promissora.
O trajecto por estes livros continua em Cabo da boa esperança, roteiro de descoberta da poesia por toda a parte de onde surja vida, género de oferta que se expõe ao poeta, aprendizagem na lição dada pela Natureza, de onde não está ausente Deus nem um diálogo com Ele. Em 1951, Campo aberto fecha esta espécie de trilogia, já com maior maturidade, onde surgem ecos de grandes poetas como Torga ou Pessoa, por exemplo. E continua a ser significativo o domínio do simbólico e das associações neste percurso – é que o fecho da trilogia é feito com dois poemas, um dedicado a “Cristo” e outro à “Senhora da Lapa”, modelo com quem dialoga, um, e protectora, a outra; e não pouco significativo é que os dois últimos versos que Sebastião da Gama publicou em livro tenham sido “Em Tuas mãos me entrego / como se ao Mar me desse”. É a partilha da obra, do poema maior, da mensagem de amor e de vida, que o conjunto da obra é.
Depois deste ciclo da trilogia, um outro é estudado por Alexandre Santos: o da obra que Sebastião da Gama deixou preparada, com título escolhido, mas que não chegou a ver publicada. Falo de Pelo sonho é que vamos, publicado em 1953, quase dois anos após a sua morte, obra que atesta a maturidade do poeta e que, convictamente, afirma aquelas que são as características da construção dos seus poemas – “simplicidade, espontaneidade e aproximação à oralidade”, talvez a chave que explica a tão grande adesão à leitura dos textos de Sebastião da Gama e constitui, em simultâneo, o cadinho em que assegurou também a sua prática pedagógica, conforme se pode ver no Diário.
Aqui chegados, a este “poema do pedagogo”, curiosa designação para um livro em prosa, o leitor é banhado pela espuma dos dias de um professor em contacto com os seus alunos! Tal como os poemas, pela sua espontaneidade, também as melhores aulas de Sebastião da Gama aconteciam “de repente”, com dose acentuada de “improviso”. E Alexandre Santos regista o essencial, o ponto de união da poesia com a vida, da prosa do Diário com os poemas dos livros, ao dizer: “O amor não é para Sebastião da Gama apenas uma palavra, mas sim o acontecimento soberano da vida humana, o centro de toda e qualquer teoria educativa. E aqui está a essência da pedagogia deste mestre que irá pautar toda a sua actividade de Poeta e professor que semeia ternura em tudo o que faz. Para ele, fazer alguma coisa é pura e simplesmente amar.” E todos nos lembramos daquelas duas linhas do Diário, escritas em 23 de Março de 1949: “Tens muito que fazer? Não. Tenho muito que amar.” E acrescentava Sebastião da Gama: “Não entendo ser professor de outra maneira.” (Que bela mensagem para a escola dos tempos que correm e para todos aqueles que nela intervêm!...)
Este Diário é outro livro de maturidade, assumida enquanto processo de construção, obra iniciada há pouco mais de 60 anos – precisamente em 11 de Janeiro, dia desse distante 1949 em que aconteceu a primeira página do Diário, obra que considero dever ser de leitura obrigatória na formação de professores (e que, já agora, deveria ser de conhecimento não menos obrigatório para pais e governantes preocupados com a educação!...).
A conclusão do estudo de Alexandre Santos dá-se com o capítulo intitulado “Em demanda de uma arte poética”, que tenta fazer o laço com todos os fios percorridos: quanto à liberdade de inspiração e de imaginação, Sebastião da Gama surge na linha dos poetas românticos; conhece os clássicos e domina as técnicas por eles seguidas; a poesia é revelação que se assume na forma de “captar o universo poético contemplado”; a poesia é “a mais perfeita expressão do ser humano”; o poema é espontâneo e dá voz ao poeta (tão espontâneo que Sebastião da Gama quase não apresenta versões melhoradas ou diferentes dos seus poemas); os temas são o que são, mas a poesia nasce de sentimentos, de “momentos de alma e momentos da paisagem”; a sua poesia é diurna, apolínea, num elogio à vida, revela a verdade. Em conclusão, a espontaneidade de Sebastião da Gama é um processo em que “está latente todo um percurso, não raro longo e árduo, que, partindo do alerta inicial de um símbolo visto ou sentido, abrange, além deste momento de génese, uma fase mais ou menos prolongada da gestação poética até ao auge da epifania modulada em música”. No poema, em suma.
Alexandre Santos não esconde, como já disse no início, o fascínio de leitor perante o dizer de Sebastião da Gama, confessando ter-se sentido impressionado “vivamente” com “a extraordinária vitalidade que [a sua obra] irradia para o leitor”, fenómeno explicável pela reconstituição que esta poesia faz entre o homem, a Natureza e as coisas, não estando ausente uma relação com o divino. E assim se lê a poesia de “um adulto que soube conservar em si o deslumbramento, a simplicidade e a ternura de criança”.
Não fique o leitor pelas imagens que de palavras se vão fazendo. Este livro contém também o registo fotográfico, em 30 páginas, dos passos da vida de Sebastião da Gama e dos espaços de influência e de bem-estar que motivaram poesia, com particular destaque para a Arrábida. É uma agradável forma de partilhar textos, ambientes, paisagens, olhares e dizeres, numa não menos agradável obra que, tendo um propósito inicial académico, soube trazer para o fácil acesso a chave da poesia de Sebastião da Gama, disponível para todos. (JRR)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Sebastião da Gama em Poço de Caldas

A nossa associada Alexandrina Pereira esteve recentemente no Brasil, na Academia de Letras de Poço de Caldas. Na bagagem, levou para oferta obras de Sebastião da Gama e também a medalha evocativa do monumento ao poeta, cunhada em 2007. São dois momentos da oferta de lembranças da Asscociação Cultural Sebastião da Gama, feita numa sessão na Academia de Letras em Poço de Caldas, presidida por Marcus Vinicus de Moraes (também nosso associado) que as fotografias nos mostram, ambas por gentileza de Alexandrina Pereira.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Associados da ACSG encontram-se no Brasil

Alexandrina Pereira e Marcus Vinicius de Moraes são associados da ACSG (desde 2006 e de 2007, respectivamente). Ambos se encontraram no Brasil, em Poços de Caldas, onde Marcus Vinicius de Moraes dá vida a uma Academia de Letras. Alexandrina Pereira foi homenageada e, na bagagem, levou para o Brasil obras de e sobre Sebastião da Gama, que a ACSG ofereceu, a convite de Alexandrina Pereira. Aqui fica a notícia, vinda n'O Setubalense de hoje.

O Setubalense: 3.Fevereiro.2010

"Pequeno poema" ou uma evocação do nascimento

"Pequeno poema" (Aqui e além. Dir: José Ribeiro dos Santos e Mário Neves. Lisboa: nº 3, Dezembro.1945, pg. 14)

O dia do nascimento quis perpetuá-lo Sebastião da Gama num dos seus textos poéticos. E assim surgiu “Pequeno Poema”, escrito em 7 de Maio de 1945 e, em Dezembro desse ano, publicado no terceiro número da revista Aqui e além e no seu primeiro livro, Serra Mãe, cuja primeira edição data também desse Dezembro.
De tal forma a sua mensagem é forte, seja pela imagem da mãe, seja pela alegria de viver, que este texto aparece não raro nas antologias poéticas, temáticas ou não, como se pode ilustrar através dos seguintes exemplos: Leituras II [Virgílio Couto (org.). Lisboa: Livraria Didáctica, 1948?, pg. 74 (com o título “Quando eu nasci”)], Ser Mãe [Paula Mateus (sel.). Pássaro de Fogo Editora, 2006, pg. 45], A mãe na poesia portuguesa [Albano Martins (sel.). Lisboa: Público, 2006, pg. 310]. (JRR)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

“Meu caminho é por mim fora…”

Reprodução do manuscrito de Sebastião da Gama da primeira página do poema "Itinerário"

Este verso de Sebastião da Gama, que abre o seu poema “Itinerário” (datado de 29 de Outubro de 1944 e incluído no livro Serra Mãe, de 1945), tem sido o título das sessões de divulgação que a Associação Cultural Sebastião da Gama tem promovido sobre o seu patrono.
A escolha deste verso para designar essas acções justifica-se pela força que dele ressalta, sobretudo quando escrito por um jovem que tinha 20 anos e assumia ser a poesia de José Régio uma das suas âncoras. Não foi por acaso que o último livro que publicou – Campo aberto, em 1951 – teve dedicatória para duas personalidades que lhe nortearam as condutas: Virgílio Couto, que fora o seu metodólogo e mestre de pedagogia na Escola Veiga Beirão, e José Régio, poeta admirado e amado. De resto, um dos pontos altos nesse ano de 1951 na vida do poeta da Arrábida (em 25 de Fevereiro) foi o encontro com Régio em Portalegre, onde se deslocou, na companhia de Cristovam Pavia e de Manuel de Almeida Lima, para oferecer o livro, saído havia pouco mais de uma semana. A outra razão para a escolha deste verso na identificação das acções teve ainda outra causa não menos regiana: é que ele se encontra inevitavelmente com aqueles outros “só vou por onde / me levam meus próprios passos”, inseridos no poema extraordinário que é “Cântico Negro” (publicado em Poemas de Deus e do Diabo, em 1925).
A primeira acção que a ACSG promoveu sob esta designação aconteceu em 19 de Janeiro de 2007, na Biblioteca Municipal de Palmela, perante uma assistência que lotou o auditório, tendo estado presente António Manuel Couto Viana, esse homem das letras que foi companheiro de Sebastião da Gama no projecto da Távola Redonda (nascida em 1950). Houve poemas ditos pelo actor setubalense Fernando Guerreiro e contou-se com a presença do saudoso António Matos Fortuna (historiador), de Rogério Peres Claro (colega de Sebastião da Gama), de Nicolau da Claudina (aluno de Sebastião da Gama em Setúbal) e de muitos outros admiradores da obra e da personalidade do poeta azeitonense.
A partir daí, as sessões que a ACSG dinamizou sobre Sebastião da Gama não pararam, tendo passado pela Escola Secundária Sebastião da Gama (Setúbal, 7 de Fevereiro de 2007), Clube Setubalense (23 de Março de 2007), Museu Sebastião da Gama (Azeitão, 10 de Abril de 2007), Escola Básica de 2º e 3º Ciclo de Azeitão (23 de Abril de 2007), Universidade Sénior do Seixal (7 de Maio de 2007), Escola Básica Vieira da Silva (Carnaxide, 3 de Outubro de 2007), Escola Secundária Quinta das Flores (Coimbra, 24 de Outubro de 2007), Escola Secundária de Tondela (26 de Outubro de 2007), Escola Secundária de Caneças (15 de Janeiro de 2008), Escola Secundária da Sé (Lamego, 26 de Fevereiro de 2008), Escola Secundária de Moimenta da Beira (27 de Fevereiro de 2008), Escola Básica de 2º e 3º Ciclos de Pegões (24 de Abril de 2008), Escola Secundária de Barcelos (20 de Março de 2009), Escola de 2º e 3º Ciclo da Bela Vista (Setúbal, 23 de Abril de 2009) e Escola Secundária de Mem Martins (2 de Dezembro de 2009).
Para os tempos mais próximos, estão já marcadas duas sessões em escolas: a primeira, na Vialonga, em 24 de Fevereiro, e a segunda, na Escola Básica de 2º e 3º Ciclos de Pegões, em 3 de Março.
Cada sessão consta da divulgação da vida e obra de Sebastião da Gama, com recurso a apresentação em “power-point”, leitura de alguns poemas (alguns inéditos), respostas a perguntas e distribuição aos participantes de brochura contendo excertos de vários textos do poeta e alguns dos poemas que integram a sessão. Não os temos contabilizado, mas foram já umas centenas os participantes que, através da ACSG, ficaram a conhecer um pouco do nosso patrono. (JRR)

Participantes na sessão em Palmela (19 de Janeiro de 2007), vendo-se, no canto inferior esquerdo, António Matos Fortuna e António Manuel Couto Viana

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A primeira casa e o primeiro registo

Registo de nascimento de Sebastião da Gama (1924, Livro 67, Fls. 413)

Sebastião da Gama nasceu em 10 de Abril de 1924, pelas 12h30, em Vila Nogueira de Azeitão (freguesia de S. Lourenço), no número 88 da Rua José Augusto Coelho, onde hoje existe um estabelecimento comercial. Aí viveu até aos seis meses, data em que a família se mudou para outra casa na mesma rua. (JRR).

Casa onde nasceu Sebastião da Gama (Rua José Augusto Coelho, 88 - Azeitão)

Em jeito de boas-vindas

Estávamos a 17 de Janeiro de 2006 quando, no Cartório Notarial do Montijo, de Maria de Fátima Catarino Duarte, foi constituída a Associação Cultural Sebastião da Gama. O Diário da República, na sua 3ª série, publicaria, cerca de um mês e meio depois, em 3 de Março, o objecto da Associação, fazendo constar que ela nascia para: a) promover o conhecimento da vida e obra de Sebastião da Gama; b) valorizar a estética literária e a praxis pedagógica de Sebastião da Gama; c) apoiar acções e estudos que contribuam para maior conhecimento e melhor divulgação da obra de Sebastião da Gama; d) colaborar na preservação do património literário e do legado pedagógico de Sebastião da Gama; e) cooperar com outras instituições, públicas ou privadas, nacionais ou estrangeiras, nas acções que comunguem destes mesmos objectivos; f) desenvolver acções diversificadas em ordem à prossecução das intenções aqui enunciadas, podendo ser admitido como seu associado qualquer cidadão, nacional ou estrangeiro, que a direcção considere identificado com os objectivos da Associação. Assim se concretizava o sonho de um grupo de cidadãos, amigos da obra e do legado do poeta azeitonense e alguns seus amigos pessoais, que tinham em vista a preservação da memória e da identidade.
Várias reuniões deste grupo promotor se tinham efectuado desde o verão anterior, todas no sentido de se perpetuar a memória do poeta da Arrábida, fosse com um monumento a propósito, fosse pela divulgação da sua obra. A ideia da constituição de uma associação rapidamente se impôs e o processo foi rápido, depois de obtida a autorização dos familiares para a atribuição do nome do patrono.
Daí para cá, a vida da Associação Cultural Sebastião da Gama (ACSG) tem-se pautado pelo cumprimento dos objectivos estatuídos, em torno dos quais se juntaram já mais de duas centenas de associados e muitos amigos. Todas as acções que têm sido levadas a cabo têm tido uma considerável adesão, sentindo-se que lembrar Sebastião da Gama e a sua obra não é questão vã, antes é imperativo de cidadania.
É sobre a Associação e sobre o seu patrono que este blogue irá dar notícias. Ao ritmo das possibilidades que o voluntariado permite. Ao ritmo da vontade de contribuir um pouco para o enaltecimento das marcas culturais de uma região e de um país que são os nossos e com os quais nos comprometemos. Biografia, bibliografia, apreciações, notícias, acções a desenvolver, relatos e projectos… de tudo passará por aqui. Queremos, com todos que nos leiam e que colaborem, dar cumprimento aos objectivos que nos norteiam. (JRR)