Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

Joana Luísa, 89 anos

O mês de Fevereiro de 1923 acabou numa quarta-feira, 28. Nesse dia, em Azeitão, nascia Joana Luísa Rodrigues. Passam hoje 89 anos.
Uma relação de amizade converteu-se depois numa história de amor e, em Maio de 1951, Joana Luísa casava com Sebastião da Gama, no Convento da Arrábida. Era o início de uma etapa, curta etapa, que duraria nove meses, até à morte, em Fevereiro de 1952, de Sebastião da Gama.
Poderia a obra do poeta azeitonense ficar-se por ali, reduzir-se aos três títulos que publicara e a mais uns quantos textos dispersos por jornais. Podia, de facto. Mas o destino encarregou-se de continuar a dar a conhecer a obra do poeta.
O destino e Joana Luísa. Pois. Mantendo o círculo de amigos de Sebastião da Gama, Joana Luísa foi deixando que a obra do marido viesse a público, foi incentivando que a obra tivesse conhecimento alargado e que, postumamente, o nome de Sebastião da Gama alcançasse os contornos que hoje tem. Trabalho de Joana Luísa, com a concordância de Sérgio Gama, seu cunhado e irmão mais velho de Sebastião, sob a orientação e as leituras de amigos como David Mourão-Ferreira, Maria de Lourdes Belchior, Lindley Cintra, Matilde Rosa Araújo, Couto Viana e Luís Amaro.
Não tivesse sido a dedicação e persistência de Joana Luísa e os leitores de hoje não conheceriam a maior parte da obra de Sebastião da Gama – do Diário, dos poemas, das cartas.
Passam hoje 89 anos de uma vida que teve muitos anos dedicados à poesia da Arrábida e à preservação da memória de Sebastião da Gama. Infelizmente, não podemos contar hoje com a dedicação e a disponibilidade de Joana Luísa, pois a doença venceu-a e, desde Agosto, está muito limitada devido a um avc de que foi vítima. Mas o percurso da obra de Sebastião da Gama deve-lhe imenso, é justo reconhecê-lo. E os leitores de Sebastião da Gama igualmente têm com ela esta dívida de gratidão. E, neste dia dos seus 89 anos, justo é homenageá-la.
A memória que Joana Luísa conservou de Sebastião da Gama tem sido primordial para a reconstituição da sua biografia e da sua leitura. E, a breve prazo, os leitores poderão aceder a uma parte das memórias de Joana Luísa, em trabalho que a Associação Cultural Sebastião da Gama irá editar.
Para já, fica o assinalar deste dia. Com uma flor de poesia. Com a nossa gratidão. Com o afecto devido pelas coisas reveladas.
Parabéns a Joana Luísa pelos seus 89 anos! Parabéns a Joana Luísa por este itinerário também feito pela poesia fora! - JRR
[foto: Joana Luísa, em Maio de 2006, na Arrábida]

Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012

Dos 60 anos sobre a vida de Sebastião da Gama...


... também se escreveu em Chapéu e Bengala, Geopedrados, Baú da história, Memórias soltas de prof, Bibliozarco e Aspirina B, que se saiba. O trissemanário O Setubalense publicou o texto "Sebastião da Gama, 60 anos depois", na sua edição de hoje. Se souber de mais sítios que se tenham referido à efeméride, diga-nos, por favor.

Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

Sebastião da Gama, 60 anos depois

Já lá vão 60 anos sobre o 7 de Fevereiro de 1952, data em que, logo pela manhãzinha, a vida abandonava Sebastião da Gama no Hospital de S. Luís, em Lisboa, depois de, na véspera, ter sido transportado desde o seu Estremozinho… A última palavra que terá dito, sabemo-lo pela Joana Luísa, mulher do poeta, foi “poesia”, conforme ainda recentemente recordou na reportagem publicada na revista do jornal Sol. E não deixa de ser curioso, no mínimo, que o percurso poético de Sebastião da Gama se tenha iniciado na infância, com uma quadra engendrada depois de uma visita à Arrábida, para reportar à família uma descoberta – “Fui passear / à serra da Arrábia / e encontrei / uma mulher grávia” –, e se tenha concluído com essa palavra que lhe foi mágica, a “poesia”, já pronunciada com a dificuldade de quem sentia que lhe fugia!...
Sebastião da Gama foi poeta na vida e na escrita. Isto é: Sebastião da Gama foi, sobretudo, poeta e viveu poetando. Em 27 anos que peregrinou, escreveu, escreveu, escreveu. Publicou três livros, de títulos sugestivos, dando a ideia de uma sequência que emergiu de um ponto que lhe foi âncora forte – a Arrábida – para chegar à totalidade de um espaço livre, universo franco à poesia, depois da passagem do cabo. Veja-se essa trilogia: Serra Mãe (1945) – Cabo da boa esperança (1947) – Campo aberto (1951). Que mais completo itinerário se poderia desejar? Bem ele dizia: “meu caminho é por mim fora”… - JRR
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[fotos: homenagem a Sebastião da Gama em Azeitão, em Fevereiro de 1953, e lápide descerrada nessa homenagem]

Lembrar Sebastião da Gama (quando passam 60 anos sobre a sua morte)

Teria 14 ou 15 anos quando li pela primeira vez Sebastião da Gama, por 1959. Encontrei-o casualmente na biblioteca de um tio professor. Li depois outros poetas, de que gostei muito, mas Sebastião ocupou sempre um lugar especial nas minhas preferências. O facto de me ter apercebido gradualmente do caso especial que é o seu, de um poeta que o era tanto no que escrevia como no que vivia, reforçou essa preferência.
Quem sabe, essa aura especial talvez tenha prejudicado a sua reputação literária. Dá a impressão que alguns a aproveitam para tentar reduzir, sobretudo por omissão, o seu valor propriamente literário. Mas compensa-nos que muitos que não são literatos continuam a chegar à sua poesia através dessa aura, inclusive a de pedagogo (mais atual do que nunca), e encontram uma poesia das nossas maiores.
Para quem vive uma época como a nossa de destruição e perturbação da natureza, e está consciente disso, Sebastião como poeta só pode ir em crescendo de importância. Como escreveu António Cândido Franco, ele foi talvez o nosso último poeta da natureza. Da natureza íntegra. Hoje os que escrevem poesia da natureza, sem deixar de cantar a sua beleza, terão que fazer igualmente o requiem, oxalá temporário, da sua destruição. E a sua poesia poderá ser uma fonte de força para os que não se contentam com aquela por vezes dominante hoje da linguagem sem referências a nada que mereça a pena fora dela. E uma via para repor no lugar que merece a poesia da natureza, da que ainda há e da que perdemos.
Do livro Flor de Um Dia, de Aurélio Porto, que editei, retiro o primeiro poema do capítulo "Uma Leitura de Sebastião da Gama":

Sebastião

Contigo aos quinze anos tudo se aprende,
a sentir, a amar e a cantar.
Depois vêm os sábios – és ingénuo,
simples de mais,
andas longe das ideias que triunfam.
Para ti não há louros, apenas a fidelidade inquebrável
de amigos vivos
que na mão fechada cabem.
Sim, é verdade, duas ou três professorinhas primárias
ao colo apertam os teus livros,
antes que venha o vendaval da vida e as transforme
em propagandistas de perfumes,
bancárias,
ou guardadoras de meninos, exaustas e já sem chama.
Professorinhas primárias! Torcem o nariz os eruditos,
os sofisticados críticos do esquecimento,
calam o teu nome,
exilam-te no limbo das antologias.
E no entanto vives, vives na Arrábida e na terra toda inundada de luz,
vives a cantar, a amar e a sentir.
Eternos são os quinze anos que te amam.

José Carlos Costa Marques

Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012

“…Poesia…” ou Sebastião da Gama vivo!

A revista "tabu", de 3 do mês que decorre, insere nas suas páginas um belo trabalho de Vladimiro Nunes sobre algumas confissões a que Joana da Gama não mandou fechar o gravador que as reproduz e, assim sendo, a companheira extremosa do poeta arrabidino vai, ao longo das linhas do jornalista do Sol, reinventando vivências idas que a viagem pelo deserto voraz da existência não apagou.
Esta octogenária simpática continua a deslizar no comboio mágico da vida e de nada se arrepende pois que a sua experiência afectiva, que não posso nem devo caracterizar por razões de pundonor, lhe ensina e determina uma comunicação sincera para o público que, com carinho receptivo, a acolhe e estima.
Verdadeiramente chega-se ao Sebastião Artur Cardoso da Gama, o “Bastião”, como com ternura e desvelo é chamado. Chegamos até ao poeta serrano, mais perto dele ficamos seguindo o trilho da oralidade de Joana até quase atingirmos essas duas íntimas humanidades que se não escondem e sentimos o poeta, ele mesmo, sentimo-lo na sua interioridade privada como água puríssima que canta e se não cala na música do cante poético da sua voz para que a serra, com o seu folhado, a sua urze, numa mistura de embriagadores cheiros, o sussurro oceânico embalador, ao longe, a enorme solidão das vozes estridentes que envolvem o seu dia a dia silente, sentimo-lo pertinho, mesmo pertinho da raiz do nosso coração — para que a Arrábida não desperte desse sono melodioso afagado pelos olhos, pela fala e pelo sentir de um poeta de fina sensibilidade e de singeleza genuínas.
Mas a outra maneira de sentir Sebastião da Gama é lendo-o e meditando-o pela palavra lavrada, semeada, adubada pelo seu próprio sangue de moço ceifado aos 27 anos. Que injustiça!
“Poesia” foi a última palavra que escreveu com as cordas vocais, quero escrever musicais, poesia, essa essência translúcida como a vida que se esvai mas que permanece abrigada no envelope de um poema tal como a vida num corpo feito de finitude.
A poesia é eterna mas a vida não!
“Poesia”, a última palavra que disse, a primeira palavra que sentiu como a expressão fiel do espelho da verdade — um pórtico abrindo-se do seu portelo pequenino e humilde do Portinho da Arrábida para a posteridade, um poeta para conhecer e amar, tal como ele o fez para e com toda a gente, dando e dando-se sem cobrar juros e sem nada em troca esperar. Dando-se. Dando-se simplesmente…
“Bastião” é assim enquanto se ler em língua Portuguesa porque permanece vivo e só vivos os poetas e a poesia fazem sentido.
Sebastião da Gama ainda só tem 27 anos. É uma criança a sorrir e a brincar com as tranças luzidias da minha noite estrelada!!!
Daniel Nobre Mendes

Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

"Os Duques de Quibir" cantam "Pequeno poema"


“Pequeno Poema” é um dos mais conhecidos textos de Sebastião da Gama, datado de 7 de Maio de 1945, incluído no seu primeiro livro, Serra Mãe (1945).
Em vida do poeta, “Pequeno poema” teve mais duas publicações: na revista Aqui e Além (Lisboa: nº 3, Dezembro.1945, pg. 14) e no compêndio escolar organizado por Virgílio Couto para o ensino técnico Leituras II (Lisboa: Livraria Didáctica, 1949?, pg. 74). Virgílio Couto, à data professor metodólogo a orientar o estágio de Sebastião da Gama na Escola Veiga Beirão, deu uma prova de reconhecimento ao poeta publicando este seu poema num livro escolar.
Este mesmo texto foi já objecto de outros tratamentos musicais. A versão que aqui se apresenta, recolhida no You Tube, foi inserida no álbum Momentos… do grupo "Os Duques de Quibir", de 1989, musicada por Quim Cruz e Vadinho.

Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012

Joana Luísa e as memórias de Sebastião da Gama

Na revista “Tabu”, na edição de hoje do semanário Sol, o jornalista Vladimiro Nunes assina uma reportagem, em seis páginas, feita com Joana Luísa da Gama sobre o poeta Sebastião da Gama.
O trabalho, preparado há uns meses, deveria ter uma outra parte - uma visita aos sítios de Sebastião da Gama na Arrábida, na companhia de Joana Luísa, a mulher do poeta. No entanto, em resultado do estado de saúde de Joana Luísa da Gama, essa segunda parte já não pôde ser concretizada.
Assim, para assinalar o 60º aniversário da morte de Sebastião da Gama, que passa no dia 7 de Fevereiro, o Sol resolveu publicar a reportagem onde se contam as vivências e as memórias de Joana Luísa sobre o poeta e sobre a divulgação da sua obra.
É um momento importante para a divulgação do nosso patrono. E a reportagem está feita com alma, num retrato fiel. A não perder. - JRR

Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

Arrábida, a serra de um Poeta

“Arrábida – Serra de um Poeta” é filme de cerca de dez minutos com que Miguel Brazuna se apresentou ao concurso “Arrábida – Curtas e Doc’s 2011”, promovido pela AMRS no âmbito da candidatura da Arrábida a Património Mundial.
O filme, disponível no Youtube, percorre imagens da Arrábida numa ligação com a mensagem da poesia de Serra Mãe, o primeiro livro de Sebastião da Gama (Lisboa: Portugália Editora, 1945).
Relativamente a uma nota que aparece no final do filme sobre a ligação do poeta à criação da Liga para a Protecção da Natureza, bastará precisar que a Liga foi criada em 1948, na sequência de uma carta que, no verão de 1947, Sebastião da Gama fez chegar a um professor do Instituto Superior de Agronomia clamando pela protecção da Mata do Solitário. Sebastião da Gama não foi membro fundador da LPN, mas a criação daquela que é a mais antiga organização não governamental em prol do ambiente surgiu após ter sido ouvida a voz do poeta.
Reconheça-se que este filme está repleto de sensibilidade, podendo-se perscrutar os versos de Sebastião da Gama através das imagens, seja pelo descobrir a vida que alimenta a serra, seja pelas visões de pormenor sobre a Natureza, seja pelos planos que se confundem com o horizonte. Ao leitor atento, não passarão ao lado sonoridades e imagens que ressaltam da poesia do autor que, um dia, chamou à serra “mãe”… - JRR


Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

Sebastião da Gama e a música (das palavras)

Na sua poesia, Sebastião da Gama foi sensível à música, aparecesse ela como “canto”, “hino”, “som” ou “música” mesmo. São vários os poemas que publicou em que a arte musical se manifesta – recorde-se, por ordem de publicação, um poema de cada um dos três livros que o poeta editou: “Vida” (“Hoje, cá dentro, houve festa... / E, se houve festa e veludos, / e música azul, e tudo / quanto digo, / foi somente porque a Graça / desceu hoje a visitar-me.”), em Serra Mãe (1945); “As Fontes” ("De todas as aldeias / vieram, cantando, as moças / encher as bilhas. // E eu fui também cantando ao som das águas… / Cantava as minhas mãos, cantava as fontes.”), em Cabo da boa esperança (1947); “Manhã no Sado” (“Ali, à beira-rio, / de olhos só para o rio, de ouvidos surdos / ao que não é a música das águas, / um sossego alegórico persiste.”), em Campo aberto (1951).
No próprio Diário, ao refletir sobre a poesia e sobre a palavra, várias vezes o professor Sebastião da Gama se referiu à música. Vale a pena determo-nos sobre estes dois curtos excertos: “ser Poeta, tinha eu pensado dizer-lhes, é estar encantado ou desencantado e contá-lo com palavras que pareçam música” (9 de Março de 1949) e “A palavra, para os gramaticómanos, é um cadáver numa mesa de anatomia; quem pode amar um cadáver? Depois da dissecação do estilo, a beleza, a música, a personalidade de cada palavra já não pode ser gostada pela criança, receosa de errar o género, o número, a forma da palavra que tem em frente; e receosa do oito, do sete, do seis da tabela; e receosa do ponteiro com que certos professores ensinam, impõem a gramática.” (16 de Março de 1949).
Mas Sebastião da Gama tinha também a preocupação pedagógica de passar esta mensagem musical para o leitor, por mais simples que ele fosse, explicando-lhe a relação da arte musical com a palavra e com o som. E foi assim que, numa crónica publicada no Jornal do Barreiro, em 24 de Agosto de 1950, intitulada “Sobre a Poesia”, se preocupou em simplificar esse casamento entre a poesia e o canto: “No povo inculto e na criança é que a verdade acerca da Poesia está guardada; é que o conceito de Poesia se mantém ingénuo. Pois não começou a Poesia por ser o puro canto?” Esta abordagem de Sebastião da Gama torna-se radical, subscrevendo o que um amigo seu dissera – os poemas deviam ser gravados em discos em vez de ser em papel… porque os versos são “para serem ouvidos, não para serem lidos”. Esta atitude “revolucionária” não é isenta de riscos, como Sebastião da Gama o nota – é que, logo a seguir, distingue os versos ditos pelo poeta dos versos ditos por outrem, porque, acima de tudo, só os poetas saberiam dizer os seus poemas “em intimidade”, isto é, “em plena comunhão com a palavra, com a perfeita compreensão dos mínimos pormenores”.
Este afeto pela palavra transmitiu-o o poeta azeitonense aos que lhe eram mais próximos, além de ele próprio o ter praticado. Recordo-me do poeta Miguel de Castro, levado para a poesia por Sebastião da Gama (que até o ajudou a criar o pseudónimo), demorar bastante tempo a ultimar um poema – é que o poema só adquiria a sua forma perfeita quando o poeta o conseguisse dizer tomando o sabor das palavras e das imagens e satisfazendo-se com esse prazer. Um trabalho de poeta, afinal… - JRR
(in Coralíssimo. Setúbal: Coral Infantil de Setúbal, nº 23, 20 de novembro de 2011, pg. 8)

Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

Sebastião da Gama entre os "Poetas (d)e Azeitão"

O título “Poetas (d)e Azeitão” diz tudo – a naturalidade ou a temática azeitonense presentes na poesia ao longo dos tempos. Simultaneamente, uma homenagem aos poetas locais, com particular incidência nos poetas populares. E o visitante passa assim por pouco mais de uma dúzia de nomes, em que coabitam alguns consagrados com outros que, embora epígonos, vão preenchendo a poesia dos dias com os versos com que alimentam a vida. Alguns destes poetas têm obra publicada em livro; outros nunca reuniram os seus escritos para publicação; outros ainda divulgam-se em sítios de poesia na internet.
A exposição, cujo trabalho de recolha se deve sobretudo a Vanda Rocha, pode ser vista até 28 de Janeiro no Museu Sebastião da Gama, em Azeitão, onde convivem rimas de Alcindo Bastos, António Poeiras, Arronches Junqueiro, Carlos Alberto Ferreira Júnior, Francisco Teles, Joaquim Caineta, Joaquim Oliveira, José Gago, Manuel Frango de Sousa, Manuel Maria Eusébio (“Calafate” – cujo centenário de falecimento passou em Novembro), Margarida Caineta, Maria Cândida Parreira e Sebastião da Gama.
De Sebastião da Gama estão presentes dois textos, digitalizados a partir dos manuscritos originais: uma “Poesia”, de 1943, primeira versão do poema “Serra Mãe”, com algumas diferenças relativamente ao texto que é conhecido e que integra o livro com o título homónimo publicado em 1945; e o poema inédito “Vira de Vila Nogueira”, de Dezembro de 1941, assinado por “Tarro”, o pseudónimo que Sebastião da Gama utilizou em alguns dos seus poemas mas que nunca acompanhou os textos publicados. A nossa Associação colaborou neste evento através da cedência destas digitalizações.
Na abertura da exposição, em 17 de Dezembro, o vereador André Martins fez questão de sublinhar que, sendo esta uma homenagem aos poetas azeitonenses, era também uma forma de começar a assinalar os 60 anos sobre o desaparecimento de Sebastião da Gama, que passam em Fevereiro de 2012. – JRR

Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011

Sebastião da Gama, navegador…

…sim, mas de palavras, de poemas, descobridor de caminhos do lirismo. Essa foi a navegação do poeta azeitonense Sebastião da Gama, referência cultural inultrapassável da literatura portuguesa do século XX.
A ideia do “navegador” veio do programa “O Elo Mais Fraco”, transmitido na RTP hoje, quando à pergunta “O português Sebastião da Gama distinguiu-se como escritor ou como navegador?” o concorrente respondeu “Navegador”.
Compreende-se o lapso por poder resultar da confusão com Vasco da Gama. No entanto, não se aceita, mesmo pela diferença do tempo que separa ambos. Só espero que, como entre os concorrentes havia dois de Azeitão e uma de Quinta do Anjo, pelo menos estes três soubessem de quem se estava a falar…
Quanto ao resto, só podemos pensar que nos pesa a responsabilidade de continuarmos a divulgar Sebastião da Gama e a sua obra. O próximo ano, em que passam 60 anos sobre a sua morte, pode ser um bom pretexto para que mais se fale dele.
Sebastião da Gama, escritor e navegador de poemas, bem merece ser conhecido! – JRR

Sábado, 24 de Dezembro de 2011

Boas Festas (e um poema inédito de Sebastião da Gama)

NATAL

Eu não tenho razão pra estar triste.
- Eu hoje sou a estrela e os Reis Magos
e sou a ovelhinha do Presépio...

Mas vou triste, Menino de Belém!
Não me lembro que faltam
trinta e três longos anos pra que eu seja
a dor que há-de matar a tua Mãe.

Sebastião da Gama, 25 de Dezembro de 1944

Sábado, 26 de Novembro de 2011

Miguel Real: Leitura pessoal do "Diário" de Sebastião da Gama

Recentemente reeditado pela mão do professor João Reis Ribeiro, que assina uma notável introdução, Diário (Editorial Presença), de Sebastião da Gama, dele recolhemos o exemplo de um verdadeiro professor.
Com efeito, um conjunto de dez características estatui este diário de um estagiário das disciplinas de Português e Francês no modelo (ideal) de um perfeito professor. Neste sentido, o genuíno professor do ensino básico e secundário seria:

1. – aquele que lecciona contra o racionalismo pedagógico, o academicismo, o eruditismo, a retórica balofa, o estilo pedante e pomposo, a orientação pedagógica livresca e moralista, a total vinculação ao estudo do passado literário sem compromissos estéticos actuais;
2. – aquele que, como pulsão de desejo pedagógico-estético, munido de suficientes portas e janelas por onde corre o ar fresco da criação nova, interpenetra na sala de aula de conhecimento e criação;
3. – aquele que dá aulas contra a cultura como efeito de propaganda e contra a cultura como forma de imbecilização de massas;
4. – aquele que não trata o aluno nem como idiota nem como génio, e celebra a multiplicidade de personalidades em desabono da unidade;
5. – aquele que na sua aula foge de perspectivas culturais mecânicas, abstractas, descarnadas, presas a cadáveres teoréticos, ausentes dos nervos e do sangue da vida, isto é, das emoções e afectos humanos que, na sua diversidade, compõem o coração da literatura, da cultura e da história;
6. – aquele que, na sala de aula, aspira a promover o diálogo, não a tagarelice; o debate, não a cristalização dos argumentos numa fortaleza ideológica, isto é, ouve o aluno;
7. – aquele que, na sala de aula, escapa ao argumento repetido, à teoria mil vezes explicada ou mil vezes aplicada, à terminologia mil vezes repisada;
8. – aquele que, na sala de aula, desmascara a cultura “descartável”, confeccionada para ser vendida, consumida e deitada fora como um par de sapatos velhos, e desconstrói a cultura de massas que não possui ideias a alimentá-la, ideias originais, fortes, sólidas, que possam iluminar a realidade e perturbem a vida do aluno – uma aula, como um romance, um poema, um ensaio, deve ambicionar a mudar a vida (ou parte da vida) do leitor, abrindo-lhe um outro plano no horizonte da sua vida;
9. – aquele que, na sala de aula, reclama uma exigência de rigor ético cujo objectivo último residirá na maior amplidão da lucidez do aluno, isto é, da capacidade crítica da razão do aluno;
10. – Aquele que faz da sua aula um espaço de transgressão estética, de desmando cultural, de provocação analítica.

O Diário de Sebastião da Gama prova que as suas aulas não se destinavam apenas à formação ou consolidação da personalidade do aluno, mas também à concessão de liberdade. Para Sebastião da Gama, educar era amar e conceder liberdade e respeitar a liberdade alheia, mormente a do aluno. A profissão de professor e a vocação maior da escola residiriam, assim, em última análise, segundo o autor, na educação da liberdade do aluno e na construção de um espírito fraterno entre toda a comunidade escolar – e, portanto, na possibilidade do aluno errar como de acertar, de falhar como de conseguir, no sentido de que cada aluno, quando adulto, se tornasse um cidadão eticamente exemplar.
Dar aulas, para Sebastião da Gama, significava igualmente, tendo em conta a mentalidade que anima a pedagogia contemporânea, enformada pela atmosfera científica do século XX, que a escola devia visar a criação de um homem socialmente plural, crente no valor da técnica e da tecnologia como modo de solucionamento das questões sociais, mas também de um cidadão humanista, crente no valor da lei, da moral e, sobretudo, da poesia, de uma filosofia humanística que harmonizasse os homens entre si.
Para Sebastião da Gama dar aulas significava que o professor e a escola se constituíam como os instrumentos que a sociedade utiliza para elevar a criança ao nível formativo do adulto, tendo em conta ser o aluno, ele próprio, o destinatário privilegiado de toda a educação, mas não o aluno abstracto, modelo perfeito do aluno sábio, antes o aluno tal como se apresenta concreta e existencialmente, não raro carregado de preconceitos sociais transmitido pelo meios de comunicação de massas. Neste sentido, mais do que científicas, as suas aulas eram humanísticas e existenciais.
No Diário constatamos a existência de uma permanente actualização metodológica e instrumental da escola e dos professores. Com efeito, a antiga pedagogia, centrada no professor, nada resolve hoje em dia quando este, ainda que adulto e mais sábio, já não constitui modelo e exemplo para alunos púberes e adolescentes. Sob a capa de um rigorismo académico, a acção destes professores pode afastar os alunos dos conteúdos da sua disciplina, quando não se torna ela própria desadequada face à nova estrutura familiar e à nova cultura da empresa, mais descentralizadas e multipolares. Sebastião da Gama toma directo partido pela “nova” pedagogia, que centra a aula, não exclusivamente no professor, mas tanto no aluno quanto nos materiais pedagógicos – por isso promove a semana da Poesia e toma inúmeras iniciativas no interior da sala de aula. Teve razão antes do tempo – de facto, a Pedagogia hoje chegou a esta conclusão, o professor deve centrar a aula nos materiais ou suportes do acto de ensinar, adequando à estrutura cognitiva e existencial do aluno.
Assim, em conclusão, o conceito de educação em Sebastião da Gama é, em suma, para além da formação de uma personalidade, a concessão de liberdade. Educar é conceder liberdade, respeitar a liberdade alheia, mormente a do aluno, por muito que hoje essa concessão nos pareça utópica ou, face aos constrangimentos sociais, mesmo perversa. A profissão de professor é, assim, entendida como aquela que educa disponibilizando liberdade – e, portanto, a possibilidade de errar como de acertar, de falhar como de conseguir, de ser eticamente exemplar como de ser maleficamente exemplar. Santo ou cafajeste, cada um faz-se por si, respondendo à sua espontaneidade interior, que, sobre as circunstâncias sociais, favorecendo-as ou contraditando-as, é a sua liberdade.
Deste modo, a mentalidade que animava a Pedagogia oficial do tempo de Sebastião da Gama, enformada pela atmosfera científica do século XIX, visa a criação de um homem social uniformizado, crente no absoluto valor da técnica e da tecnologia como modo de solucionamento das questões sociais, um homem abstracto, regulado por leis jurídicas universais. Porém, Sebastião da Gama, no seu Diário, não nos fala desse homem uniformizado e universalizado, de que o professor deveria exemplo e instrumentos social.
Miguel Real
10 de Outubro de 2011.

[Comunicação apresentada no encontro "A Educação a partir do Diário de Sebastião da Gama", que aconteceu na Biblioteca Municipal de Palmela, em 28 de Outubro, inserido no programa de recepção à comunidade educativa, por iniciativa da Câmara Municipal de Palmela.]

Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011

O "Diário" não está na lista... mas podia (devia) estar

O último número da revista Os Meus Livros (nº 104, Novembro.2011) apresenta como tema de capa “Os Caminhos do Ensino”. No interior, em quatro páginas, o texto “De zero a vinte” apresenta duas dezenas de títulos bibliográficos pretendendo olhar “vinte livros que são um ponto de partida para olhar as questões do ensino com outros olhos e compreender um pouco melhor algumas das questões que causam discordância, mas necessitam de respostas”.
Por este escaparate passam as obras: Se não estudas estás tramado, de Eduardo Marçal Grilo; O “eduquês” em discurso directo, de Nuno Crato; A Educação do meu umbigo, de Paulo Guinote; A minha sala de aula é uma trincheira, de Bárbara Wong; A arte de ensinar, de Alan Haigh; 19 argumentos para reconst(ruir) a escola pública, de Luís M. Aires; Professores e escolas, de Evangelina Bonifácio Silva; O pequeno ditador, de Javier Urra; Pais que educam, professores que amam, de Joaquim Machado; O ensino passado a limpo, de Santana Castilho; A aprendizagem cooperativa na sala de aula, de José Lopes e Helena Santos Silva; Boas práticas na educação, de António Estanqueiro; O valor de educar, o valor de instruir, de Fernando savater e outros; O Centro Escolar Republicano Almirante Reis, de Célia Oliveira Pestana; Salazar e a Escola Técnica, de Albérico Afonso Costa; Rómulo de Carvalho – Ser professor, organizado por Nuno Crato; O professor, de Franck McCourt; Não os desiludas, de Manuela Castro Neves; Fui professora do ensino primário, de Sara Tiago; SOS tenho de passar de ano, de Renato Paiva.
A questão, numa escolha de vinte títulos, é saber quais os primeiros vinte, quais os segundos vinte e assim por diante, é óbvio. Mas estranha-se que o Diário, de Sebastião da Gama, não tenha entrado na lista. Por vários motivos: por ter ajudado muita gente a abraçar o ser professor, por ser o relato de uma boa experiência, por não ter perdido actualidade, apesar das seis décadas que sobre ele já passaram. Esta omissão é tanto mais notória quanto, no texto introdutório a esta escolha, se evoca Sebastião da Gama a propósito não do Diário, mas de um poema que recorrentemente é citado: “Professor e poeta, Sebastião da Gama ficará para sempre ligado a um célebre poema, onde expressa bem a necessidade de acreditarmos e seguirmos em frente, demonstrando como a ausência de valores nunca engrandeceu uma sociedade – apesar de igual necessidade em questioná-los ciclicamente porque pelo sonho é que vamos, / comovidos e mudos. // Chegamos? Não chegamos? // Haja ou não haja frutos / pelo sonho é que vamos.
Foi pena, pois, não ter sido inserido o seu Diário na lista apresentada! [Uma declaração de interesses: obviamente, a Associação Cultural Sebastião da Gama pugna pela divulgação e estudo da mensagem do seu patrono, com particular relevo para o Diário; por outro lado, estou ligado a esta obra, uma vez que preparei a mais recente edição que dela se fez, em 2011, pela primeira vez completa e anotada.] – JRR

Terça-feira, 22 de Novembro de 2011

Ouvir "Pasmo", de Sebastião da Gama

“Pasmo” é poema de Sebastião da Gama, datado de 29 de Julho de 1944, logo inserido pelo poeta no seu primeiro livro, Serra-Mãe, em 1945.
A sua audição está agora disponível na net, através do Youtube, pela voz de Raul Resendes, a partir do programa “Poema do Dia”, dedicado à poesia, em co-produção da Associação Cultural Despe-Te Que Suas e da Antena 1 / Açores, com o apoio do Governo açoriano.
Na gravação disponível, constam ainda comentários finais da autoria de Carla Mota e de Urbano Bettencourt.