sábado, 19 de janeiro de 2013

Sebastião da Gama cantado em Azeitão - 26 de Janeiro



O grupo e-Vox vai actuar no sábado, 26 de Janeiro, pelas 21h30, na sede da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, em Vila Nogueira de Azeitão, no concerto "Pelo sonho é que vamos", mistura de poemas de Sebastião da Gama com a música do grupo. Uma iniciativa da Associação Cultural Sebastião da Gama em parceria com a Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, com entrada livre.
Contamos consigo. E com os seus amigos!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Fernando Pessoa e a Gestão, por Maximiano Gonçalves



«Assim como se podem escrever asneiras com uma máquina de escrever do último modelo, se podem fazer disparates com os sistemas e aparelhos mais perfeitos para ajudar a não fazê-los. (…) O verdadeiro processo é pensar; a máquina fundamental é a inteligência.»
Fernando Pessoa

A minha primeira nota é sobre a relação de Pessoa com a palavra e recorre a uma frase de Bernardo Soares: “O que sinto é (sem que eu o queira) sentido para se escrever que se sentiu. O que penso está logo em palavras.”
Nenhum ser humano, creio, mais do que Fernando Pessoa, explicou e se explicou tanto através da palavra escrita. É o caso quando, na sua condição de empregado de escritório e, em curtos períodos, pequeno empresário, escreve sobre temas de Administração.
Antes de mais, eis o que sempre lembro quando falo de Pessoa. Nos seus diversos heterónimos, e também em cada um deles, ele manifesta, com consciência do facto, pensamentos de sinal contrário. A sua natureza obrigava-o à procura das oposições, nas diversas abordagens de que foi capaz em direcção à Verdade. Portanto, ninguém, ao atravessar a imensidade da obra pessoana, pode encontrar princípios rígidos, a não ser a sua repulsa pela ausência de escrúpulos e o seu ódio à auto-suficiência dos medíocres.
Não vou ocupar-me a falar das andanças de Pessoa empregado de escritório - como o foi Elliot, num banco, e Kafka, nos seguros -, tradutor e correspondente de línguas, de empresa para empresa, de escritório para escritório, sem vínculos absolutos de tempo inteiro, ou dos seus conselhos e ideias sobre a actividade comercial, correspondência, arquivo e Contabilidade, que começa a aprender, adolescente, na Commercial School, em Durban, onde frequentara o ensino secundário; ou da sua invenção da carta para evitar o sobrescrito no envio; ou dos seus trabalhos em Publicidade – indústria que abrigou Scott Fitzgerald e Erich Maria Remarque e, em Portugal, por exemplo, Alexandre O`Neill e Ary dos Santos e da sua noção do que se chama hoje Investigação dos Mercados.
Vou tocar, porém, um pouco, nas suas tentativas de ser empresário. Sobre estes assuntos há já obras escritas que, decerto não esgotando o que há a dizer, dão informações e interpretações bastantes.
E procurarei, sim, chamar a vossa atenção para o que pensou Pessoa sobre algumas matérias que têm a ver com Administração – hoje fala-se de Gestão –, com Organização, com Teoria e Prática, das regras de vida que se aplicam ao chefe, ao que mais ou menos manda, do que é o saber trabalhar e de certas questões das Relações Humanas. 
Antes, porém, é preciso saber quem era o homem Pessoa. A personalidade de Pessoa é marcada por um extremado individualismo, traço que de modo nenhum significa insensibilidade perante o Outro ou despreocupação perante o que considerava injusto, fosse qual fosse a questão em causa.
A sua matriz de educação e instrução faz dele, no plano da Economia, um defensor da livre empresa, contra qualquer autoritarismo; o seu modo de estar perante a comunidade faz dele um nacionalista, em minha opinião pelo seu misticismo, mas um nacionalista que ridiculariza qualquer forma de provincianismo.
Fernando Pessoa era um homem rigoroso no trabalho, literário ou de escritório. Cumpria as tarefas que a si mesmo impunha e a elas se entregava; não era, porém, desejoso de carreiras profissionais com o objectivo de obter grandes rendimentos. Preferia a liberdade no governo do seu quotidiano à segurança dos vínculos de um emprego. “Tenha paciência, Manuel da Hora, mas eu não estou para chatices”, disse, perante o convite para um estágio profissional em Madrid. Ele queria, apenas, o indispensável para uma vida de razoável conforto e fez sóbrias contas sobre isso. Quase todo o tempo da sua vida profissional está marcado por pequenos empréstimos e vales à caixa nos escritórios onde trabalhava. Pessoa, um ser fechado no convívio do dia-a-dia, teve alguns amigos, mas não era cândido em relação às afeições: “poucas pessoas são capazes de ser amigas de alguém”, escreveu.
Dito isto, estranhar-se-á que Pessoa tivesse querido ser empresário. É simples perceber porquê. As suas tentativas visavam, basicamente, possibilitar os seus planos editoriais – a Íbis, tipografia e editora, onde gastou a apreciável herança que recebera; F. A. Pessoa, onde teve sócios, casa de comissões e consignações, depois trespassada. Funda, mais tarde, a Olisipo, Agentes, Organizadores e Editores, de que é Director e coproprietário, e lhe mereceu o mais cuidado planeamento.
No quadro deste trabalho, Pessoa comentou a “falta de cultura dos editores e a sua falta de organização como industriais”, calculou a percentagem da população que sabia ler e lia, de facto, procurando, até, quantificar os que compravam livros bons; e sublinha, ainda, a não “coincidência perfeita entre a parte mais culta e mais rica da sociedade”. Por fim, cria a F. N. Pessoa, onde tenta prosseguir a Olisipo.   
Fernando Pessoa foi um homem de múltiplas leituras, de interesses variados, para a sua curta vida de 47 anos. Refiro isto porque, ao contrário do que alguns pensam, nem todos os artistas, seja qual for a sua arte, são espíritos cultos.
De qualquer modo, as lacunas de cultura política que Pessoa tinha ou quis ter, e transparecem na sua visão do Mundo, são combatidas por um espírito interrogador, que o leva a interessar-se, por exemplo, pelo Anarquismo como conceito da vida política, e pela ligação entre o sentido organizador global, o planeamento, ao progresso da Sociedade. Daqui a sua leitura de Walther Rathenau, o célebre industrial e Ministro da República de Weimar, que assinou o Tratado de Rapallo, em 1922, com a União Soviética, assassinado pela extrema-direita alemã.
Uma observação de Pessoa, homem de cultura britânica, que muito preza o Comércio como instrumento de relação e, portanto, no seu papel cultural, disseminador, diz-nos “o inglês é, por exemplo, mau organizador, mas há tanto tempo que é comerciante e industrial que faz por instinto e por intuição o que o alemão ou o americano fazem por aplicação da inteligência – isto é, por organização.”
Abordo, agora, as questões da Organização como preocupação importante do cidadão Pessoa e do profissional Pessoa.
A Organização, que o Capitalismo elevara a conceito máximo para o crescimento das empresas; a Organização, que Lenine considerava fundamental para o triunfo da Revolução de Outubro e elogiava nos Alemães e nos grandes capitães de indústria norte-americanos. As suas palavras sobre Teoria e Prática, nítidas como não li outras sobre o assunto, são adequadas para introduzir o tema Organização.
Ao lê-las, lembro-me sempre da síntese genial do prodigioso Kurt Lewin – um alemão Professor de Psicologia e Filosofia da Universidade de Berlim até 1932, ano em que escapou do regime nazi para trabalhar nos E.U.A. -: “Não há nada mais prático do que uma boa teoria”, que foi a minha frase introdutória sempre que as necessidades de ofício me obrigavam a falar do tema em espaço de aula, e o pensamento que muitas vezes presidiu ao meu trabalho quotidiano.
Eis, então, as palavras de Pessoa que aqui quero deixar: “Só os espíritos superficiais desligam a teoria da prática, não olhando a que a teoria não é senão uma teoria da prática, e a prática não é senão a prática de uma teoria. Quem não sabe nada de um assunto (…) chama teórico a quem sabe mais (…). Quem sabe, mas não sabe aplicar – isto é, quem afinal não sabe, porque não saber aplicar é uma maneira de não saber – tem rancor a quem aplica por instinto. Mas, em ambos os casos, (…) há uma separação abusiva. (…) Na vida superior, a teoria e a prática completam-se. Foram feitas uma para a outra.”
Quando Pessoa alude “a quem aplica por instinto” e acerta, alude a quem passou a prova da experiência, mas a quem falta a compreensão do porquê. Não resisto a deixar, também, uma nota passageira sobre o uso da palavra rancor. Traduz, decerto, que sentiu fortemente, em alguém, a sua manifestação.
A preocupação de Fernando Pessoa é a de alguém que percebe não poder o Homem, ao aprender, prescindir quer da reflexão quer do exercício acerca das questões que enfrenta. É por isto que ensinar é ensinar a pensar e quem não o sabe fazer não ensina, de facto.
Pessoa sabe que teoria significa observar, examinar. É a observar que pensamos; observando sempre, pensando o que se observou e, ao pensar, observar melhor, é a sequência do conhecimento.
Este assunto, deixem-me dizê-lo, em parêntesis, alguns chamados de pouco letrados compreendem, por funda qualidade própria, e outros, ignorantes letrados, nunca entendem.
A Organização, nota Pessoa, não deve ter a tentação do excesso de disciplina. Escreve ele: “Parecemo-nos muito com os alemães. Como eles agimos sempre em grupo, e cada um do grupo porque os outros agem.” E, mais à frente (não resisto, neste momento que atravessamos, a lembrar), escreve: “Esperamos sempre pela voz de comando. (…) Como os alemães, nós compensamos a nossa rígida disciplina fundamental por uma indisciplina superficial, de crianças que brincam à vida. Refilamos só de palavras. (…) Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma ‘revolução’ foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficámos, miserandamente, os mesmos disciplinados que éramos. Foi um gesto infantil, de superfície e fingimento.”
Sobre a Organização, ainda outra observação inicial, que se prende com o chefe, o gestor: “Organizam-se organizações de modo a organizar, também, organizadores”. Pessoa escreve-a para sublinhar duas coisas: por um lado, que o chefe da organização não pode ser posto em causa, constantemente, pelos chefes dos diversos órgãos; por outro, que não há hierarquia de funções, só há hierarquia de cargos.
Fernando Pessoa escreve sobre a organização de Portugal, destaca a obra de Pombal, e lembra que o País cai por não ter prosseguido o desenvolvimento industrial e comercial que este estadista inaugurou.
Ele tem o conceito do que hoje chamamos consultoria – exprime-se como consultor e pensador de estratégias: avança projectos sobre concentração industrial e uma empresa de exportação de produtos portugueses. Pessoa insiste em que, para um país atrasado como Portugal, só há uma transformação possível, a transformação profissional no sentido da “industrialização sistemática do País”.
O seu texto dos projectos é enviado a Ramires dos Reis, administrador da Companhia Industrial de Portugal e Colónias, que o elogia mas não considera “realizável na prática”.
E sobre a figura do Chefe? Que qualidade básica deve ter aquele que é chefe, sendo que o chefe é o que quer vencer? Eis o que Pessoa nos diz: “Para vencer – material ou imaterialmente – três coisas definíveis são precisas: saber trabalhar, aproveitar oportunidades e criar relações. O resto pertence ao elemento indefinível, mas real, a que, à falta de melhor nome, se chama sorte. Não é o trabalho, mas o saber trabalhar, que é o segredo do êxito no trabalho; saber trabalhar quer dizer: não fazer um esforço inútil, persistir no esforço até ao fim, e saber reconstruir e saber reconstruir uma orientação quando se verificou que ela era, ou se tornou, errada. Aproveitar oportunidades quer dizer não só não as perder, mas, também, achá-las.(…) Tudo mais é herdar do tio brasileiro ou não estar onde caiu a granada. (…) Da simples vontade vivem só os pequenos comerciantes; da simples inspiração vivem só os pequenos poetas.”
Dediquei algum tempo, para ganhar alguma compreensão do trabalho, a reflectir sobre o que me aconteceu na vida profissional: O que aprendi como cumpridor de normas de acção; como me desempenhava quando me tornaram mais e mais autónomo; o que fiz quando, nomeado gestor, tive de aprender a sê-lo? O que pude fazer quando fui (como me chamavam?) Director ou lá o que era?
O que aprendi foi a olhar o outro, a olhar-me com o outro e a tentar olhar o outro comigo, a ver uns com outros.
Tive de falar, em contexto de Ensino, sobre Chefia, Liderança, Comportamento Organizacional, Dinamização de Recursos Humanos. Tive, obviamente, de estudar autores extraordinários, palavras sábias de grandes condutores de homens na vida política e militar; e tive de folhear, também, textos patetas de aldrabões sobre triunfos instantâneos na vida pessoal e profissional, como é natural entrecortados de conselhos sensatos que no dia-a-dia ouvimos de muitos e cujos livros inundam de estupidez e falta de escrúpulos, livrarias e outros locais de venda de materiais impressos. Ora leiamos Pessoa: “Estão cheias as livrarias de todo o mundo de livros que ensinam a vencer. Muitos deles contêm indicações interessantes, por vezes aproveitáveis. Quase todos se reportam, particularmente, ao êxito material, o que é explicável, pois é esse o que supremamente interessa à grande maioria dos homens.”
Pouquíssimas vezes li observações tão desafiantes, tão fundas como as que Pessoa nos deixou sobre regras de vida, regras morais, de comportamento a seguir por um chefe, que referiu como “um dependente”, na medida em que “precisar de dominar os outros é precisar dos outros”.
Todavia, ao falar de “grande homem”, no sentido de líder, Pessoa acentua: “é o que impõe aos outros o seu próprio sonho, os seus próprios sonhos. Para lhes impor os seus próprios sonhos tem, por isso, que sonhar sonhos que eles tenham, de certo modo, entressonhado, para que deveras eles possam recebê-los”. Pessoa, de novo, em “Notas para uma regra de vida”: “1 - Cada um de nós não tem de seu nem de real senão a própria individualidade. 2 – Aumentar é aumentar-se. 3 – Invadir a individualidade alheia é, além de contrário ao princípio fundamental, contrário (por isso mesmo também) a nós mesmos, pois invadir é sair de si, e ficamos sempre onde ganhamos. (Por isso o criminoso é um débil, e o chefe um escravo. O verdadeiro forte é um despertador, nos outros, de energias deles. O verdadeiro Mestre é um mestre de o não acompanharem). 4 – Atrair os outros a si é, ainda assim, o sinal da individualidade.” E, em regras morais: “Nunca afirmar que, em determinadas circunstâncias – inexperimentadas para vós – agireis de determinada maneira. Nunca dar opinião imediata sobre uma coisa, a não ser que seja directamente resolúvel segundo princípios fixos. “
Acentuo, em sequência, o que, na minha vida de consultor e de aulas, transmiti, por tê-lo aprendido: um gestor é alguém que não só vê mas olha e, ao olhar, provoca o olhar dos que com ele trabalham. Há uma bela frase de Pessoa relacionada com o que acabei de dizer: “Transmitir movimento é, pois, ou transmitir vida ou despertar vida”.
O pensamento do autor do Livro do Desassossego é implacável com a questão da responsabilidade, que é questão historicamente desprezada em Portugal, desprezada à náusea. Ora o mais simples chefe ou o mais importante gestor ou entende o carácter intrínseco da responsabilidade nessa sua qualidade ou não o é, de todo. Ser chefe não é “a piada sempre inoportuna e a alma fora do universo em seu conjunto”. Como escreve Pessoa: “É do pior gosto, e do pior efeito, desculpar-se um chefe com um erro dum empregado. Não há erro de empregados. Todo o erro dum empregado é apenas o erro de ter empregados que fazem erros”.
Que significa este precioso comentário? Que, para além dos erros, o chefe deve saber seleccionar quem possa não errar ou errar o menos possível, saber preparar o empregado para não errar, isto é, dar-lhe Formação, ter a noção do que é Responsabilidade, coisa que não se delega. Quando Pessoa escreve notas para regras de vida, regras morais, ele está a dizer como pensa que deve agir quem hoje se chama um gestor.
Já referimos que Pessoa foi moldado pela ideia da livre empresa, do patrão. Contudo, olhava os donos das empresas de modo diferenciado e distinguia aqueles que possuíam uma empresa e ganhavam o lucro apropriado dos milionários. Sobre eles, escreveu o seguinte: “Nunca nenhum homem se tornou milionário pelo trabalho árduo ou inteligência. No pior caso, ele tornou-se nisso por uma imensa e imaginativa falta de escrúpulos; na melhor hipótese pela feliz intuição em circunstâncias especulativas”. E, em particular sobre milionários americanos, expressa-se assim: “Sois uma tão completa zoologia de bestas que a garganta recusa elevar-se por desdém completo”. E mais à frente: “A vossa espécie polui tudo o que toca, e a doutrina que guia o místico indiano a não matar uma mosca guia-vos a não deixarem viver os homens.” Mais directo e claro é impossível. É a lucidez de que Álvaro de Campos se vangloria. (Eu sei que Pessoa, sempre preocupado com a desgraçada mentalidade do meio empresarial português, reproduziu as normas industriais do milionário Henry Ford. Uma delas dizia: “O salário justo é o salário mais alto que o patrão pode pagar regularmente”. Norma que desvenda o seguinte: nem todos os milionários eram como Ford. Eu sei que Pessoa deixou escrito “As empresas comerciais e industriais participam do estado moral das sociedades a que pertencem”).
Fernando Pessoa nunca desprezou o mundo do escritório ou olhou com superior indiferença a vida empresarial. Bem ao contrário. São conhecidos os seus notáveis comentários sobre Comércio e Cultura.
Alexander Search, portanto Fernando Pessoa, escreveu: “Jamais existiu alma mais afectuosa ou terna do que a minha, alma mais repleta de bondade, de compaixão, de tudo o que é ternura e amor. Porém, nenhuma alma é tão solitária como a minha”. Bernardo Soares, portanto Fernando Pessoa, escreveu: “Foi-se hoje embora, diz-se que definitivamente, para a terra que é natal dele, o chamado moço do escritório, aquele mesmo homem que tenho estado habituado a considerar como parte desta casa humana e, portanto, como parte de mim e do mundo que é meu. Foi-se hoje embora. No corredor, encontrando-nos casuais, para a surpresa esperada da despedida, dei-lhe eu um abraço timidamente retribuído, e tive contra-alma bastante para não chorar, como, em meu coração, desejavam sem mim meus olhos quentes. Cada coisa foi nossa, ainda que só pelos acidentes do convívio ou da visão, porque foi nossa se torna nós. O que se partiu hoje, pois, para uma terra galega que ignoro, não foi, para mim, o moço do escritório: foi uma parte vital, porque visual e humana, da substância da minha vida. Fui hoje diminuído. Já não sou bem o mesmo. O moço do escritório foi-se embora.
Tudo que se passa no onde vivemos é em nós que se passa. Tudo que cessa no que vemos é em nós que cessa. Tudo o que foi, se o vimos quando era, é de nós que foi tirado quando se partiu. O moço do escritório foi-se embora. É mais pesado, mais velho, menos voluntário que me sento à carteira alta e começo a continuação da escrita de ontem. Mas a vaga tragédia de hoje interrompe com meditações, que tenho que dominar à força, o processo automático da escrita como deve ser. Não tenho alma para trabalhar senão porque posso com uma inércia activa ser escravo de mim. O moço do escritório foi-se embora. (…) Hoje a tragédia é visível pela falta, sensível por não merecer que se sinta. Meu Deus, meu Deus, o moço do escritório foi-se embora.”
Este texto de superlativa beleza do Livro do Desassossego, conciso e denso, diz-nos, também, que a pomposa Gestão dos Recursos Humanos tem de reconhecer em cada um de cada grupo de trabalho a mesma dignidade e o mesmo poder de presença. ”Cada homem é um império”, na frase eterna de Saint-Exupéry, acreditasse ou não Pessoa, se o conhecesse, no convite marxiano à transformação do Homem.
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[Texto da palestra sobre “Fernando Pessoa e a Gestão, proferida por Maximiano Gonçalves e promovida pela Associação Cultural Sebastião da Gama em 3 de Novembro de 2012, na Biblioteca Municipal de Setúbal.]

Dos associados (34) - António Quaresma Rosa com foto premiada



António Quaresma Rosa, nosso associado, obteve mais um galardão do INATEL graças a uma fotografia enviada para o prémio “INATEL – Programa Saúde e Termalismo Sénior 2011/12”.
Seleccionada entre cerca de centena e meia de trabalhos, a foto "Tempo que não passa" constitui um ponto de vista crítico sobre o abandono da linha do Vouga. A estação em que o relógio se exibe é a de Santa Maria da Feira, onde uma placa assinala as bodas de diamante da inauguração do primeiro troço da linha do Vale do Vouga, ocorrida em Novembro de 1908, com a presença de D. Manuel II.
António Quaresma Rosa foi já o vencedor da edição 2009/10 do mesmo prémio, conforme se pode ver aqui.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Dos associados (33) - Maria Teresa Correia e Joaquim Bravo


O mês de Novembro viu partir dois dos nossos associados, ambos ligados a Azeitão: Maria Teresa Rodrigues Lopes Gama Correia (14.Nov.1931-05.Nov.2012) e Joaquim Paulo dos Santos Bravo (16.Fev.1943-18.Nov.2012).
Maria Teresa Correia era esposa de João Gama (1927-2011) e mãe de Nuno Gama, também nosso associado. João Gama foi um dos principais responsáveis pela criação da Associação Cultural Sebastião da Gama e de tal forma a sua ligação à Associação foi intensa que, após o seu falecimento, a esposa quis manter o número de associado e a respectiva quotização em dia.
Joaquim Bravo integrou o grupo de fundadores da Associação, em 2006. Pessoa querida em Azeitão, aqui se reproduz o “elogio fúnebre” produzido por Manuel Queirós, também nosso associado e dirigente da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, publicado na última edição do Jornal de Azeitão (nº 195, Dezembro.2012).