segunda-feira, 13 de junho de 2011

Entrega do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama - I

A entrega do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama ocorreu na noite de ontem, na sede da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense. Paulo Assim foi o autor da obra premiada nesta 13ª edição do certame, intitulada Retrato a Sépia.
Antes da sessão, Paulo Assim teve um encontro com Joana Luísa da Gama, que, por razões de saúde, não pôde estar presente no evento.
A entrega do Prémio contou com a colaboração de Carlos Zacarias e de Sónia Paulo, que disseram poemas de Sebastião da Gama, a abrir o espectáculo, e de Paulo Assim, na conclusão.

As intervenções estiveram a cargo de José António Contradanças (em nome do júri), João Carpelho e Celestina Neves (presidentes das Juntas de Freguesia de S. Simão e de S. Lourenço, respectivamente), João Reis Ribeiro (Associação Cultural Sebastião da Gama) e Manuel Queirós (Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense).
O tom dos discursos acertou por algumas ideias importantes, como: a oportunidade da existência deste Prémio, não só como memória de Sebastião da Gama mas também como evento cultural azeitonense de importância crescente; o papel que, ao longo dos tempos, Joana Luísa da Gama tem tido na publicação e divulgação da obra de Sebastião da Gama; a qualidade que o trabalho premiado apresenta, na senda de outros importantes poetas portugueses que têm sido vencedores deste Prémio, como Amadeu Baptista, Maria do Rosário Pedreira, José Carlos de Barros, etc.
Paulo Carreira, que assume o nome literário de Paulo Assim, vive na Batalha, onde é desenhador de moldes, tem já vários trabalhos premiados e foi o vencedor desta 13ª edição do Prémio, que incluiu uma oferta pecuniária e a edição em livro da obra seleccionada pelo júri (constituído por Arlindo Mota, João Reis Ribeiro e José António Contradanças).
O Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama foi criado em 1988 pelas Juntas de Freguesia de S. Lourenço e de S. Simão (Azeitão), patrocinadoras que se têm mantido e que, na realização deste ano, contaram com a parceria da Associação Cultural Sebastião da Gama, da Câmara Municipal de Setúbal e da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense.

Entrega do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama - II

Na sessão de entrega do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, ontem realizada em Azeitão, foi José António Contradanças quem interveio em nome do júri. É esse discurso que aqui reproduzimos. Mas o leitor pode encontrar mais comentários ao livro vencedor, Retrato a Sépia, se vier por aqui ou por aqui.

Apresentaram-se a concurso duzentos e trinta e quatro trabalhos. O júri, por unanimidade, escolheu como obra poética a premiar a que se apresentou com o número cento e sessenta e nove, de título “Retrato a Sépia”, assinada sob o pseudónimo de Paulo Lódão. E fê-lo, distinguindo “uma obra que se revela como um livro homogéneo, sequencial, interessante e guloso no desafio ao apetite à leitura. Estando perante uma poesia aparentemente simples, intuitiva, muito fresca e cativante, não deixa de nos marcar com mensagens profundas a partir de vivências tão sentidas e tão puras, que hoje teriam lugar na construção do tal “novo paradigma” que se reclama, fundado em valores que devem pautar uma sã convivência em sociedade (“Eram mais do que nossas mães, as árvores de fruto,”; “Sabem? A minha mãe não dormia enquanto eu não chegasse. / Entregava-me aos labirintos da noite e ela fazia arroz-doce.”; “O meu avô tinha a tez dos mouros e ar sereno/ de quem descasca laranjas pela madrugada. / Falava-me do mar como quem olha/ para os sulcos sibilinos das mãos.”; “Na sala do meu avô havia um búzio, havia o mar”).
É um livro de memórias que ruma à infância (“saio para a rua, / esse lugar chamado infância.”), a tempos idos (“Não sei, mas o meu pai/ clandestinamente abraçava as árvores. / Esqueci-me de lhe perguntar/ ao mesmo tempo/ que me esqueci de ser filho.”), fazendo-se dum encadeamento descritivo, duma sequência de retratos a sépia onde contrasta a vivacidade dos intérpretes, dos lugares e das acções, numa linguagem de grande riqueza metafórica (“…nós, seres humanos, somos uma mistura/ de árvore e de pássaro:/ precisamos de raízes, mas também de asas para irmos mais longe.”; “Pelas ruas da nossa aldeia formigavam os ecos das crianças, / os homens ganhavam calos de tanto sonharem com as mãos/ e as mulheres saboreavam o paladar da terra na planta dos pés”; “Caçava estrelas cadentes desnorteadas…”; “Eu sei, mãe, eu sei. / As palavras querem-se ao sol. / A poesia quer-se ao vento”; “o ar quente e quieto da tarde/ era uma porta”; “Pois, a minha avó tinha já a sabedoria dos pássaros ancestrais, / apesar do seu corpo mirrado albergar todo o peso das asas.”; “Cravando os punhos na massa, / a minha avó emprenhava o alguidar/ nas manhãs de sábado.”) e fazendo uso de imagens coloridas e puras (“Não te esqueças – dizia-me a minha mãe - / de estender os teus poemas na varanda:/ fechados, ganham ferrugem e não soam muito bem aos ouvidos”; “E as amoras tinham/ o sabor da aventura/ A língua roxa soletrava/ outras palavras, talvez paixão ou mesmo já amor, / e as mãos com riscos de sangue/ pedindo que incendiássemos/ a tarde das cigarras.”; “No beirado do nosso alpendre havia um gato/ que nos lambia o sol nas mãos.”). Em suma, é um livro que sendo fácil de ler, nos leva a pensar, a reflectir e porque não (?) a agir.” Afinal, como diz o autor: “As nossas viagens aladas são curtas e brancas, / têm a duração da cal efervescente e mais nada. / Restam-nos os desfeitos retratos a sépia.” A que contrapõe, desafiando o futuro: “seremos sempre como papel genuíno de um retrato ainda por tirar.”

A árvore da poesia cresceu ontem no Rossio de Azeitão

Há umas semanas, a Ema telefonou-me a perguntar uma forma de poder colaborar com a Associação Cultural Sebastião da Gama, porque achava que todos deviam ser voluntários na memória do poeta de Azeitão. Acrescentou que se disponibilizava para a animação de um ateliê de arte e escrita criativa, destinado ao público infanto-juvenil.
Fiquei entusiasmado e sugeri-lhe o dia da entrega do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, que ocorreria em Azeitão, para ser levada a cabo tal iniciativa, que teve o patrocínio da Associação Cultural Sebastião da Gama e da Junta de Freguesia de São Lourenço (Azeitão).
E foi assim que, no Rossio de Azeitão, na manhã de ontem, nasceu a árvore da poesia, numa oficina de arte na rua, em homenagem a Sebastião da Gama, com cerca de uma dúzia de crianças em seu torno, alguns pais, muito boa disposição, tempo de verão, fotografias apelativas e palavras do Poeta da Arrábida.
A Ema produziu uma animação extraordinária, que levou as crianças e os pais a um mergulho no sentimento poético, a um passeio pela natureza, a um estar ecologicamente com a terra, ao mundo rico da cor da vida.
Colhendo palavras e fotografias da árvore da poesia, foram sendo construídos textos; aproveitando materiais já utilizados, foram criadas flores de pétalas que ali ganharam cor e alegria.
Dos textos ali construídos, reproduzo um: “O vento beija as ondas do mar / enquanto os búzios / conversam entre si / deitados na areia. / A voz do silêncio / segreda às águas / uma canção de amor / e de paz. // A beleza / que aqui nasce / é a vitória da vida / sobre a morte.”
Foram cerca de duas horas bem passadas, doces. E pareceu-me mesmo ver que o Sebastião da Gama, lá no murete em que se fez monumento, sorriu ao ver tanta alegria a povoar o Rossio…
Ah, quanto à Ema e ao seu grupo de trabalho, podem procurá-la aqui.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Agenda - 12 de Junho, à noite, entrega do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama

Agenda - 12 de Junho, pela manhã, oficina de arte na rua

12 de Junho é a data para a cerimónia da entrega do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama. Mas, pela manhã, às 10h30, o Rossio de Azeitão vai assistir a uma oficina de arte na rua, que passa pelas flores e por Sebastião da Gama.
Aqui fica o convite! Passe-o a amigos! Traga os seus filhos e os dos amigos! Uma forma diferente de sentir a poesia e de homenagear Sebastião da Gama... ali, na terra que o viu nascer!... - JRR

António Manuel Couto Viana entre homenagens

António Manuel Couto Viana, que faleceu em 2010, foi um dos grandes amigos de Sebastião da Gama e foi nosso associado. A norte, este poeta é o centro de homenagens e evocações, que passam por Ponte do Lima, Ponte da Barca e Porto, uma geografia que ele bem conhecia e sobre que muito escreveu.
Aqui fica a notícia, recortada do segundo mais antigo jornal português em publicação - A Aurora do Lima -, saído ontem, 8 de Junho. - JRR

A Aurora do Lima: 08.Junho.2011