terça-feira, 18 de junho de 2013

"Estala de saudade o coração", o livro de Joana Luísa da Gama lido por Daniel Nobre Mendes

Ao reler o livro de memórias desta nonagenária velhinha – não  apresento desculpas pela redundância pois que a vibração é tanta que me sinto no dever de ir na crista da onda de um rebate aflito de sinos dentro de mim! –, fico emudecido, embevecido pela e com a ternura cristalina com que Joana Luísa da Gama constrói o seu livro, uma obra bem organizada pela sequencia espácio-temporal dos relatos que a preenchem e enriquecem e pela simplicidade da linguagem, uma terminologia directa, escorreita, onde nunca faltam aqueles grandes assomos de feminil doçura ou de ais magoados que se deixam transportar dentro de  testemunhos autênticos todos feitos de estalidos crepitantes, sendo eles as marcas de um olhar para trás, de má avença, uma saudade que nada devolve mas que vincam bem um pairar de voo de saudades irremediáveis e uma orfandade dolente que se nos transmite até ao rebentar da emoção pela rotura das lágrimas….
Na verdade, esta obra vem completar um poeta desaparecido há seis décadas, vem, e restitui-lhe com ardorosa veneração o que lhe faltava, celebra-o com luminoso amor e honra-o com justa e rutila bondade humana. E revela-nos facetas absolutamente desconhecidas até há bem pouco tempo pelo ineditismo de aspectos pessoais até cheios de intimidades que se espalham ao longo da obra, toda ela trespassada pela coragem de uma mulher forte e beijada pela alma de um ser humano de eleição.
Sobre intimidades e privacidades Joana Luísa não tem rebuço em nos adentrar aspectos que, tendo sido seus e, sendo agora do domínio publico, permanecem sempre seus, dado que, em dias escaldantes, a água fresca do outro ser humano pode ser a festa sagrada das fontes puras em jorros de cristalinidade que apaziguam as sedes ardentes que Joana deixa transparecer e que também são sedes de outros poetas e leitores-sedes que gretam lábios abertos na espera sofrida do que jamais se alcança …

Nocturno (poema inscrito no livro)

Rendas de Som o mar foi levantando,
que enfeitaram de branco a Noite escura.
Ventos sem fé, puseram mãos nervosas
nos vestidos da Noite e lhos rasgaram.
Anda a noite a gemer pelas devesas…
Chora lágrimas de Astros que humedecem
de fulgores riquíssimos seu manto.
Oh! Que régios farrapos, seus farrapos!

Minha Amante mais alta e mais formosa!
aqui me tens de lábios bem abertos
e rubros e sedentos de teus beijos.
Deixa a minha nudez cobrir teus ombros
e dá-me a glória virgem do teu peito.
E se o Dia chegar, que o dia fique lá fora, ao Sol,
à espera que se acabe a eternidade
desta hora magnífica de noivos.    
Ar. 20-7-946
Sebastião

Este livro, sendo uma viagem pelas interioridades de uma mulher do povo simples das terras sadinas, não deixa de ser ainda uma verdadeira mostra de retratos da sua terra de outras épocas num esboço socioafectivo comovente pela espontaneidade do fluir das prosas e pela imensa ternura que assinala cada página. Assim, Joana Luísa, sem intencionalidade premeditada, faz reviver características culturais, humanas e comportamentais Azeitonenses de um País pré e pós guerra onde um modo de ser poético foi mais do que uma atitude de aceitação, mas sim, uma das formas de expressividade de vários grupos juvenis inconformistas que não aceitavam modelos convencionais mas iam em busca de outros parâmetros líricos de expressão para novas maneiras de intercomunicabilidade na aventura estética de inconformismos criativos. E conseguiram-no!
Sebastião da Gama, neste livro, vai de mão em mão com companheiros pelo braço brando e meigo da meninice e, depois, das juvenílias enamoradas-vai a caminho nas brincadeiras de criança lépida, no ternurento namoro florido de adolescente, vai noivar com Joana  e casar com a Poesia para sempre.
Bendito seja!!!
Daniel Nobre Mendes

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Sebastião da Gama em três biografias e um poema por alunos do 3º B (EB 1 nº 12 de Setúbal)

Três biografias e um poema sobre Sebastião da Gama foram trabalhos do 3º B da Escola Básica de 1º Ciclo nº 12 (Amoreiras, Agrupamento de Escolas de Bocage), em Setúbal, fizeram depois de uma sessão em que à turma foi apresentado o poeta da Arrábida.

Biografia por Joana Tavares e Mariana Sousa (3º B)

Biografia por Lara Santos (3º B)

Biografia por Rodrigo Madeira (3º B)

Poema por Joana Tavares e Mariana Sousa (3º B)

"Ladra o gato" em réplica por alunas do 3º B (EB 1 nº 12 de Setúbal) – “Ruge o rato”


"Ladra o gato", poema da trilogia "Pedrinho", que Sebastião da Gama escreveu em 24 de Setembro de 1949, apenas publicado no volume póstumo Estevas (2004) e republicado na antologia A minha arca de Noé (2006), constituiu motivo para que Joana Tavares e Mariana Sousa, duas alunas do 3º B da Escola Básica de 1º Ciclo nº 12 (Amoreiras, Agrupamento de Escolas de Bocage), em Setúbal, fizessem uma réplica, com entrada do leão e do rato, depois de uma sessão em que à turma foi apresentado Sebastião da Gama.


"Ladra o gato" pelos alunos do 3º B (EB 1 nº 12 de Setúbal)

"Ladra o gato" é um dos poemas da trilogia "Pedrinho", que Sebastião da Gama escreveu em 24 de Setembro de 1949, apenas publicado no volume póstumo Estevas (2004) e republicado na antologia A minha arca de Noé (2006), de que aqui se reproduzem interpretações coloridas que alunos do 3º B da Escola Básica de 1º Ciclo nº 12 (Amoreiras, Agrupamento de Escolas de Bocage), em Setúbal, fizeram depois de uma sessão em que à turma foi apresentado Sebastião da Gama.

Desenho de Aléxia (3º B)

Desenho de Alina (3º B)

Desenho de João Figueiredo (3º B)

Desenho de Lara Santos (3º B)

Desenho de Pedro Santos ( 3º B)

Desenho de Rafael P., intitulado "Os Trocados"

Desenho de Rafael Silva (3º B)

Desenho de Rodrigo Lobo (3º B)

Desenho de Tiago Sebastião (3ª B)

Desenho de Tomás (3º B)

"Dança dentro de um balde" pelos alunos do 3º B (EB 1 nº 12 de Setúbal)


"Dança dentro de um balde" é um dos poemas da trilogia "Pedrinho", que Sebastião da Gama escreveu em 22 de Setembro de 1949, apenas publicado no volume póstumo Estevas (2004) e republicado na antologia A minha arca de Noé (2006), de que aqui se reproduz interpretação colorida que aluna do 3º B da Escola Básica de 1º Ciclo nº 12 (Amoreiras, Agrupamento de Escolas de Bocage), em Setúbal, fez depois de uma sessão em que à turma foi apresentado Sebastião da Gama.

Desenho de Anastácia (3º B)

"O chapéu do Toneco" pelos alunos do 3º B (EB 1 nº 12 de Setúbal)


"O chapéu do Toneco" é um dos poemas da trilogia "Pedrinho", que Sebastião da Gama escreveu em 22 de Setembro de 1949, apenas publicado no volume póstumo Estevas (2004) e republicado na antologia A minha arca de Noé (2006), de que aqui se reproduz interpretação colorida que aluna do 3º B da Escola Básica de 1º Ciclo nº 12 (Amoreiras, Agrupamento de Escolas de Bocage), em Setúbal, fez depois de uma sessão em que à turma foi apresentado Sebastião da Gama.

Desenho de Érica (3º B)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

"Ladra o gato" pelos alunos do 4º A (EB 1 nº 12 de Setúbal)


"Ladra o gato" é um dos poemas da trilogia "Pedrinho", que Sebastião da Gama escreveu em 24 de Setembro de 1949, apenas publicado no volume póstumo Estevas (2004) e republicadas na antologia A minha arca de Noé (2006), que aqui se reproduz, seguido das interpretações coloridas que os alunos do 4ºA da Escola Básica de 1º Ciclo nº 12 (Amoreiras, Agrupamento de Escolas de Bocage), em Setúbal, fizeram depois de uma sessão em que lhes foi apresentado Sebastião da Gama. 

Ladra o gato,
mia o cão.
Oh que grande
trapalhada:
faz o cão
re nhá nhá nhau,
vai o gato
faz ão ão.
Andam os bichos malucos
sem nenhuma afinação.
Ladra o gato
ladra o gato
ladra o gato
mia o cão.

Desenho de Afonso Salazar (4º A)

Desenho de Alexandre Lima (4º A)

Desenho de Francisco Ribeiro (4º A)

Desenho de Gonçalo Semião (4º A)

Desenho de João Pedro Silva (4º A)

Desenho de Manuel Ventura (4º A)

Desenho de Matilde Ribeiro (4º A)

Desenho de Tomás Cotta (4º A)

"Dança dentro de um balde" pelos alunos do 4º A (EB 1 nº 12 de Setúbal)


"Dança dentro de um balde" é um dos poemas da trilogia "Pedrinho", que Sebastião da Gama escreveu em 22 de Setembro de 1949, apenas publicado no volume póstumo Estevas (2004) e republicadas na antologia A minha arca de Noé (2006), que aqui se reproduz, seguido das interpretações coloridas que os alunos do 4ºA da Escola Básica de 1º Ciclo nº 12 (Amoreiras, Agrupamento de Escolas de Bocage), em Setúbal, fizeram depois de uma sessão em que lhes foi apresentado Sebastião da Gama.

Dança dentro de um balde,
ao som de um realejo,
uma pulga zarolha
com um caranguejo.

Que trangalhadanças
que é o caranguejo!
Torto de uma perna,
de outra perna coxo.
Mas dança e redança
sua contradança.

Não se paga nada
P’ra ver a festança.
Que grande paródia!
Geme o realejo,
Saltarica a pulga,
coxeia, coxeia,
coxeia o caranguejo.

Desenho de Diogo Foleão (4º A)

Desenho de João Cotta (4º A)

Desenho de Nicole Russo (4º A)

Desenho de Rita Tamen (4º A)

"O chapéu do Toneco" pelos alunos do 4º A (EB 1 nº 12 de Setúbal)

"O chapéu do Toneco" é um dos poemas da trilogia "Pedrinho", que Sebastião da Gama escreveu em 22 de Setembro de 1949, apenas publicado no volume póstumo Estevas (2004) e republicadas na antologia A minha arca de Noé (2006), que aqui se reproduz, seguido das interpretações coloridas que os alunos do 4ºA da Escola Básica de 1º Ciclo nº 12 (Amoreiras, Agrupamento de Escolas de Bocage), em Setúbal, fizeram depois de uma sessão em que lhes foi apresentado Sebastião da Gama.

O chapéu do Toneco
tem um buraco aberto.
Entra-lhe a chuva
pelo buraco.
Tingue lingue lingue.
Tingue lingue longue.
Lá fica o Toneco
todo encharcadinho
como um pintainho
debaixo dum caneco!

Desenho de Beatriz Lota (4º A)

Desenho de David Mesquita (4º A)

Desenho de Filipa Luís (4º A)

Desenho de Gonçalo Pereira (4º A)

Desenho de Inês Ferreira (4º A)

Desenho de Maria Inês Cruz (4º A)

Desenho de Pedro Lopes (4º A)

Desenho de Rodrigo Antequera (4º A)

Desenho de Tiago Freitas (4º A)

Sebastião da Gama na EB 1 das Amoreiras, em Setúbal


Em 17 e 31 de Maio, estive na Escola Básica de 1º Ciclo nº 12 (conhecida como Escola das Amoreiras, pertencente ao Agrupamento de Escolas Bocage), em Setúbal, para falar sobre Sebastião da Gama aos alunos das turmas 4ºA e 3ºB, respectivamente, depois de convites feitos pelas professoras Antónia Freitas e Isabel Marques, docentes de uma e da outra turma.
Confesso que, sendo a primeira vez que ia apresentar o poeta a alunos do 1º Ciclo, algumas reticências se me punham… No entanto, contas feitas às duas sessões, a adesão dos alunos foi espantosa. Atentos, curiosos, participantes, interessados. Alguns tinham já ido pesquisar notas sobre Sebastião da Gama, outros foram perguntando isto e aquilo, sobre poemas, sobre o poeta, sobre ler… Outros quiseram ser eles mesmos a ler os poemas que lhes levei. E a participação foi permanente e intensa. No final, tiveram o desafio para ilustrarem poemas, trabalho que resultou nas propostas que noutros postais se mostram, tecidas em torno dos poemas “O chapéu do Toneco”, “Dança dentro dum balde” e “Ladra o gato”, datados de Setembro de 1949 e apenas publicados no volume póstumo Estevas, em 2004.

A mensagem de Sebastião da Gama chega com facilidade aos mais pequenos. Por ser linguagem que eles entendem, porque gostam de saber quem são as figuras da sua terra, porque apreciam referências e valores. A motivação era grande, viu-se. Quer pelo espírito de agilidade de todos eles, quer pelo cuidado prévio que as professoras tiveram na motivação. Creio que, pelas reacções a que assisti, os alunos ficaram contentes. E a poesia também ficou feliz! – JRR