terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Joana Luísa, 89 anos

O mês de Fevereiro de 1923 acabou numa quarta-feira, 28. Nesse dia, em Azeitão, nascia Joana Luísa Rodrigues. Passam hoje 89 anos.
Uma relação de amizade converteu-se depois numa história de amor e, em Maio de 1951, Joana Luísa casava com Sebastião da Gama, no Convento da Arrábida. Era o início de uma etapa, curta etapa, que duraria nove meses, até à morte, em Fevereiro de 1952, de Sebastião da Gama.
Poderia a obra do poeta azeitonense ficar-se por ali, reduzir-se aos três títulos que publicara e a mais uns quantos textos dispersos por jornais. Podia, de facto. Mas o destino encarregou-se de continuar a dar a conhecer a obra do poeta.
O destino e Joana Luísa. Pois. Mantendo o círculo de amigos de Sebastião da Gama, Joana Luísa foi deixando que a obra do marido viesse a público, foi incentivando que a obra tivesse conhecimento alargado e que, postumamente, o nome de Sebastião da Gama alcançasse os contornos que hoje tem. Trabalho de Joana Luísa, com a concordância de Sérgio Gama, seu cunhado e irmão mais velho de Sebastião, sob a orientação e as leituras de amigos como David Mourão-Ferreira, Maria de Lourdes Belchior, Lindley Cintra, Matilde Rosa Araújo, Couto Viana e Luís Amaro.
Não tivesse sido a dedicação e persistência de Joana Luísa e os leitores de hoje não conheceriam a maior parte da obra de Sebastião da Gama – do Diário, dos poemas, das cartas.
Passam hoje 89 anos de uma vida que teve muitos anos dedicados à poesia da Arrábida e à preservação da memória de Sebastião da Gama. Infelizmente, não podemos contar hoje com a dedicação e a disponibilidade de Joana Luísa, pois a doença venceu-a e, desde Agosto, está muito limitada devido a um avc de que foi vítima. Mas o percurso da obra de Sebastião da Gama deve-lhe imenso, é justo reconhecê-lo. E os leitores de Sebastião da Gama igualmente têm com ela esta dívida de gratidão. E, neste dia dos seus 89 anos, justo é homenageá-la.
A memória que Joana Luísa conservou de Sebastião da Gama tem sido primordial para a reconstituição da sua biografia e da sua leitura. E, a breve prazo, os leitores poderão aceder a uma parte das memórias de Joana Luísa, em trabalho que a Associação Cultural Sebastião da Gama irá editar.
Para já, fica o assinalar deste dia. Com uma flor de poesia. Com a nossa gratidão. Com o afecto devido pelas coisas reveladas.
Parabéns a Joana Luísa pelos seus 89 anos! Parabéns a Joana Luísa por este itinerário também feito pela poesia fora! - JRR
[foto: Joana Luísa, em Maio de 2006, na Arrábida]

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Dos 60 anos sobre a vida de Sebastião da Gama...


... também se escreveu em Chapéu e Bengala, Geopedrados, Baú da história, Memórias soltas de prof, Bibliozarco e Aspirina B, que se saiba. O trissemanário O Setubalense publicou o texto "Sebastião da Gama, 60 anos depois", na sua edição de hoje. Se souber de mais sítios que se tenham referido à efeméride, diga-nos, por favor.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Sebastião da Gama, 60 anos depois

Já lá vão 60 anos sobre o 7 de Fevereiro de 1952, data em que, logo pela manhãzinha, a vida abandonava Sebastião da Gama no Hospital de S. Luís, em Lisboa, depois de, na véspera, ter sido transportado desde o seu Estremozinho… A última palavra que terá dito, sabemo-lo pela Joana Luísa, mulher do poeta, foi “poesia”, conforme ainda recentemente recordou na reportagem publicada na revista do jornal Sol. E não deixa de ser curioso, no mínimo, que o percurso poético de Sebastião da Gama se tenha iniciado na infância, com uma quadra engendrada depois de uma visita à Arrábida, para reportar à família uma descoberta – “Fui passear / à serra da Arrábia / e encontrei / uma mulher grávia” –, e se tenha concluído com essa palavra que lhe foi mágica, a “poesia”, já pronunciada com a dificuldade de quem sentia que lhe fugia!...
Sebastião da Gama foi poeta na vida e na escrita. Isto é: Sebastião da Gama foi, sobretudo, poeta e viveu poetando. Em 27 anos que peregrinou, escreveu, escreveu, escreveu. Publicou três livros, de títulos sugestivos, dando a ideia de uma sequência que emergiu de um ponto que lhe foi âncora forte – a Arrábida – para chegar à totalidade de um espaço livre, universo franco à poesia, depois da passagem do cabo. Veja-se essa trilogia: Serra Mãe (1945) – Cabo da boa esperança (1947) – Campo aberto (1951). Que mais completo itinerário se poderia desejar? Bem ele dizia: “meu caminho é por mim fora”… - JRR
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[fotos: homenagem a Sebastião da Gama em Azeitão, em Fevereiro de 1953, e lápide descerrada nessa homenagem]

Lembrar Sebastião da Gama (quando passam 60 anos sobre a sua morte)

Teria 14 ou 15 anos quando li pela primeira vez Sebastião da Gama, por 1959. Encontrei-o casualmente na biblioteca de um tio professor. Li depois outros poetas, de que gostei muito, mas Sebastião ocupou sempre um lugar especial nas minhas preferências. O facto de me ter apercebido gradualmente do caso especial que é o seu, de um poeta que o era tanto no que escrevia como no que vivia, reforçou essa preferência.
Quem sabe, essa aura especial talvez tenha prejudicado a sua reputação literária. Dá a impressão que alguns a aproveitam para tentar reduzir, sobretudo por omissão, o seu valor propriamente literário. Mas compensa-nos que muitos que não são literatos continuam a chegar à sua poesia através dessa aura, inclusive a de pedagogo (mais atual do que nunca), e encontram uma poesia das nossas maiores.
Para quem vive uma época como a nossa de destruição e perturbação da natureza, e está consciente disso, Sebastião como poeta só pode ir em crescendo de importância. Como escreveu António Cândido Franco, ele foi talvez o nosso último poeta da natureza. Da natureza íntegra. Hoje os que escrevem poesia da natureza, sem deixar de cantar a sua beleza, terão que fazer igualmente o requiem, oxalá temporário, da sua destruição. E a sua poesia poderá ser uma fonte de força para os que não se contentam com aquela por vezes dominante hoje da linguagem sem referências a nada que mereça a pena fora dela. E uma via para repor no lugar que merece a poesia da natureza, da que ainda há e da que perdemos.
Do livro Flor de Um Dia, de Aurélio Porto, que editei, retiro o primeiro poema do capítulo "Uma Leitura de Sebastião da Gama":

Sebastião

Contigo aos quinze anos tudo se aprende,
a sentir, a amar e a cantar.
Depois vêm os sábios – és ingénuo,
simples de mais,
andas longe das ideias que triunfam.
Para ti não há louros, apenas a fidelidade inquebrável
de amigos vivos
que na mão fechada cabem.
Sim, é verdade, duas ou três professorinhas primárias
ao colo apertam os teus livros,
antes que venha o vendaval da vida e as transforme
em propagandistas de perfumes,
bancárias,
ou guardadoras de meninos, exaustas e já sem chama.
Professorinhas primárias! Torcem o nariz os eruditos,
os sofisticados críticos do esquecimento,
calam o teu nome,
exilam-te no limbo das antologias.
E no entanto vives, vives na Arrábida e na terra toda inundada de luz,
vives a cantar, a amar e a sentir.
Eternos são os quinze anos que te amam.

José Carlos Costa Marques

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

“…Poesia…” ou Sebastião da Gama vivo!

A revista "tabu", de 3 do mês que decorre, insere nas suas páginas um belo trabalho de Vladimiro Nunes sobre algumas confissões a que Joana da Gama não mandou fechar o gravador que as reproduz e, assim sendo, a companheira extremosa do poeta arrabidino vai, ao longo das linhas do jornalista do Sol, reinventando vivências idas que a viagem pelo deserto voraz da existência não apagou.
Esta octogenária simpática continua a deslizar no comboio mágico da vida e de nada se arrepende pois que a sua experiência afectiva, que não posso nem devo caracterizar por razões de pundonor, lhe ensina e determina uma comunicação sincera para o público que, com carinho receptivo, a acolhe e estima.
Verdadeiramente chega-se ao Sebastião Artur Cardoso da Gama, o “Bastião”, como com ternura e desvelo é chamado. Chegamos até ao poeta serrano, mais perto dele ficamos seguindo o trilho da oralidade de Joana até quase atingirmos essas duas íntimas humanidades que se não escondem e sentimos o poeta, ele mesmo, sentimo-lo na sua interioridade privada como água puríssima que canta e se não cala na música do cante poético da sua voz para que a serra, com o seu folhado, a sua urze, numa mistura de embriagadores cheiros, o sussurro oceânico embalador, ao longe, a enorme solidão das vozes estridentes que envolvem o seu dia a dia silente, sentimo-lo pertinho, mesmo pertinho da raiz do nosso coração — para que a Arrábida não desperte desse sono melodioso afagado pelos olhos, pela fala e pelo sentir de um poeta de fina sensibilidade e de singeleza genuínas.
Mas a outra maneira de sentir Sebastião da Gama é lendo-o e meditando-o pela palavra lavrada, semeada, adubada pelo seu próprio sangue de moço ceifado aos 27 anos. Que injustiça!
“Poesia” foi a última palavra que escreveu com as cordas vocais, quero escrever musicais, poesia, essa essência translúcida como a vida que se esvai mas que permanece abrigada no envelope de um poema tal como a vida num corpo feito de finitude.
A poesia é eterna mas a vida não!
“Poesia”, a última palavra que disse, a primeira palavra que sentiu como a expressão fiel do espelho da verdade — um pórtico abrindo-se do seu portelo pequenino e humilde do Portinho da Arrábida para a posteridade, um poeta para conhecer e amar, tal como ele o fez para e com toda a gente, dando e dando-se sem cobrar juros e sem nada em troca esperar. Dando-se. Dando-se simplesmente…
“Bastião” é assim enquanto se ler em língua Portuguesa porque permanece vivo e só vivos os poetas e a poesia fazem sentido.
Sebastião da Gama ainda só tem 27 anos. É uma criança a sorrir e a brincar com as tranças luzidias da minha noite estrelada!!!
Daniel Nobre Mendes

sábado, 4 de fevereiro de 2012

"Os Duques de Quibir" cantam "Pequeno poema"


“Pequeno Poema” é um dos mais conhecidos textos de Sebastião da Gama, datado de 7 de Maio de 1945, incluído no seu primeiro livro, Serra Mãe (1945).
Em vida do poeta, “Pequeno poema” teve mais duas publicações: na revista Aqui e Além (Lisboa: nº 3, Dezembro.1945, pg. 14) e no compêndio escolar organizado por Virgílio Couto para o ensino técnico Leituras II (Lisboa: Livraria Didáctica, 1949?, pg. 74). Virgílio Couto, à data professor metodólogo a orientar o estágio de Sebastião da Gama na Escola Veiga Beirão, deu uma prova de reconhecimento ao poeta publicando este seu poema num livro escolar.
Este mesmo texto foi já objecto de outros tratamentos musicais. A versão que aqui se apresenta, recolhida no You Tube, foi inserida no álbum Momentos… do grupo "Os Duques de Quibir", de 1989, musicada por Quim Cruz e Vadinho.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Joana Luísa e as memórias de Sebastião da Gama

Na revista “Tabu”, na edição de hoje do semanário Sol, o jornalista Vladimiro Nunes assina uma reportagem, em seis páginas, feita com Joana Luísa da Gama sobre o poeta Sebastião da Gama.
O trabalho, preparado há uns meses, deveria ter uma outra parte - uma visita aos sítios de Sebastião da Gama na Arrábida, na companhia de Joana Luísa, a mulher do poeta. No entanto, em resultado do estado de saúde de Joana Luísa da Gama, essa segunda parte já não pôde ser concretizada.
Assim, para assinalar o 60º aniversário da morte de Sebastião da Gama, que passa no dia 7 de Fevereiro, o Sol resolveu publicar a reportagem onde se contam as vivências e as memórias de Joana Luísa sobre o poeta e sobre a divulgação da sua obra.
É um momento importante para a divulgação do nosso patrono. E a reportagem está feita com alma, num retrato fiel. A não perder. - JRR