segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Sebastião da Gama na filatelia



No ano de 2012, passaram 60 anos sobre a morte de Sebastião da Gama, ocorrida em 7 de Fevereiro de 1952. Recorrendo à possibilidade existente nos CTT do programa “o meu selo”, a Associação Cultural Sebastião da Gama promoveu uma edição de 425 selos sujeitos ao tema “Sebastião da Gama – 60 anos depois”. 

O selo, autocolante, para circular em território nacional em envelopes até 20 gr, tem imagem trabalhada por Luís Valido e Maria Irene Pereira (nossa associada), reproduzindo uma mistura de duas fotografias: uma, de Sebastião da Gama na serra da Arrábida, datada de Agosto de 1943; outra, uma digitalização de uma página do manuscrito do seu Diário, no registo de 11 de Janeiro de 1949, o primeiro dessa obra (redigido entre 1949 e 1950 e publicado postumamente, em 1958).

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Boas Festas, com um poema de Natal

Boas Festas! Feliz Natal!
E um poema do nosso associado e poeta José-António Chocolate...


Natal doutros tempos

Eu sou do tempo em que se cantava ao Menino.

Em que não havia Pai Natal
e o Menino descia p’la chaminé
à meia noite em ponto.
Onde o sapatinho nos saía do pé
e a um canto se acomodava, pronto
a receber a prenda habitual.
Bombons em prata colorida
tal qual nossos olhos como estrelas brilhando
na negrura da noite, esperançando a vida.

Sou do tempo em que se prendava

filhós e azevias e rosetas
polvilhadas de açúcar e canela.
Em que se rufava a ronca
entoando louvores ao excelso e ao infinito céu.
Onde a família galhofava reinadia,
à lareira por dentro a noite fria.


Sou do tempo em que a nossa aldeia
tinha a dimensão do mundo
e o mundo se fazia de todos nós.
Em que o presépio se construía
com musgo catado pelas nossas mãos
e uma searinha feita em caco de barros
e oferecia a Jesus.


Desse tempo em que gente devota
na Missa do Galo cantava, louvando
o Menino que nasceu, símbolo do ano inteiro.

Do tempo em que só um dia era Natal.

Setúbal, Natal de 2012
José-António Chocolate

domingo, 23 de dezembro de 2012

"Pelo sonho é que vamos" é título de cd (3)


Grupo e-Vox no concerto de apresentação do cd, na Casa da Cultura, em Setúbal, em 8 de Dezembro. Da esquerda para a direita: Alexandre Murtinheira (guitarra clássica), Luís Alegria (flauta transversal), Diná Peres (voz) e Salvador Peres (guitarra clássica a voz). Foto de Alex Gandum.


Público presente no concerto de apresentação do cd "Pelo sonho é que vamos" em 8 de Dezembro, na Casa da Cultura, em Setúbal (aspecto parcial). Foto de Alex Gandum. 

"Pelo sonho é que vamos" é título de cd (2)



Quando, no final de Abril de 2011, o grupo e-Vox actuou no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal, num concerto em que interpretou poemas de Sebastião da Gama, albergado sob o título de um dos seus mais conhecidos poemas, logo se abriu a perspectiva de uma gravação do reportório, tão pessoal era a leitura que o grupo fez das palavras do poeta, tão delicada era a entrada nos meandros da mensagem de Sebastião.
A ideia ficou a germinar, um pouco como os poemas que brotavam da Arrábida através desse clarim que era o dizer do poeta. Cinco meses passados, o e-Vox repetia o concerto no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal e tal momento voltou a saber a novidade: nada se desgastara, os textos rejuvenesciam, as interpretações adquiriam a segurança que a poesia, ela mesma, sustentava. Estávamos em meados de Outubro e as músicas adquiriam o tom amadurecido perante um público que ficou sensibilizado e rendido.
Num e noutro concerto, ambos a cargo do e-Vox, não foram só a poesia e a música que surpreenderam. Houve também a cor da pintura ali feita, à medida que as músicas e os poemas nos invadiam e abraçavam. Nuno David nos dois eventos; Eduardo Carqueijeiro apenas no segundo. O que têm de particular estes dois pintores é o facto de, ligados a Setúbal, conhecerem a Arrábida como o próprio poeta a viveu e terem deixado que a tela se impregnasse do sentir da imensidão e da voz do poeta, em aguarela perfeita, ali produzida à vista de toda a gente, numa tripla exposição de palavras, música e cor. “Pelo sonho é que vamos” se chamou a segunda tela produzida, que fomos buscar para entrar no corpo deste cd.
Todos estes elementos foram facilitadores do trabalho que agora se apresenta. No ano em que se faz a candidatura da Arrábida a património mundial e sessenta anos depois do desaparecimento de Sebastião da Gama, este trabalho mostra a vida dos seus versos e da sua arte e a Associação Cultural Sebastião da Gama outra coisa não poderia fazer que não fosse registar para o futuro estas interpretações, ainda por cima associando duas manifestações que muito queridas foram ao próprio poeta: a música e a pintura.
O trabalho aqui está. Para ser desfrutado. Porque a mensagem de Sebastião da Gama continua a ser forte e intensa e nos pode surpreender em cada passo da Arrábida amada. - JRR

[Texto parcial de apresentação do cd "Pelo sonho é que vamos" constante no respectivo booklet]

"Pelo sonho é que vamos" é título de cd (1)



“Pelo sonho é que vamos” é, talvez, um dos versos mais conhecidos de Sebastião da Gama, que faz parte do poema “O sonho”, escrito no primeiro dia de Setembro de 1951. Universalizou-se o verso, de facto, numa homenagem que também tem de ser reclamada para Sebastião da Gama, seu autor. “Pelo sonho é que vamos” passou a ser também o título de um cd com poemas de Sebastião da Gama musicados por Salvador Peres e interpretados pelo grupo e-Vox, com a voz de Diná Peres, produzido pela Associação Cultural Sebastião da Gama.
Apresentado publicamente em 8 de Dezembro, na Casa da Cultura, em Setúbal, este cd integra sete poemas de Sebastião da Gama – “Quem me quiser amar”, “Nupcial”, “Rosas”, “Soneto do tempo perdido”, “Cantiga de amor”, “Anunciação” e “O sonho”, textos escritos entre 1944 e 1951 e surgidos em dois dos livros do poema, Serra Mãe (de 1945) e Pelo sonho é que vamos (póstumo, de 1953).
Além dos poemas, há duas peças instrumentais, “Mystic river” e “Murmúrios da Arrábida”, devidos a Alexandre Murtinheira, uma e outra peça pretendendo associar os espaços que configuraram a paisagem poética de Sebastião da Gama, o Sado e a Arrábida.
A parte gráfica do cd e do respectivo booklet vivem em torno do quadro que adoptou o verso como título, imaginado por dois pintores com intensas ligações a Setúbal, Eduardo Carqueijeiro e Nuno David, tela que foi pintada durante um concerto do e-Vox e posteriormente oferecida à Associação Cultural Sebastião da Gama, em exibição no Museu do poeta, em Azeitão.
Este projecto teve ainda a participação de Luís Alegria (elemento do grupo e-Vox, além dos três já mencionados), de David Neutel (na gravação e masterização) e de Jorge Calheiros e Augusto Pinheirinho (na composição gráfica e edição). Por outro lado, a publicação deste trabalho teve a parceria de quatro instituições: as duas Juntas de Freguesia de Azeitão (S. Simão e S. Lourenço), a Câmara Municipal de Setúbal e a Fundação Oriente.
A edição deste cd pela Associação Cultural Sebastião da Gama pretendeu, além de divulgar a poesia do poeta azeitonense e o trabalho do grupo e-Vox, assinalar os 60 anos da morte de Sebastião da Gama e o ano da candidatura da Arrábida a património mundial. – JRR

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Eugénio Lisboa: Sebastião da Gama - Não ter vergonha de ser sincero


Sebastião da Gama é um dos poucos escritores — em qualquer língua — do qual se pode dizer, sem hesitar, que o homem que fez a obra coincide, ponto por ponto, com o homem que a obra faz supor. Quando pensamos nele — no meu caso, a partir dos inúmeros testemunhos dos que com ele conviveram — vem primeiro, ao nosso encontro, não a admiração que temos pelo poeta e pelo diarista, mas antes, o profundo afecto que sentimos pelo homem. Quem o conheceu — e não foi, infelizmente, o meu caso — assim reagiu. Nas cartas que José Régio lhe dirigiu, verifica-se isto mesmo. Ainda antes de conhecer, com qualquer profundidade, os seus livros, já o poeta dos Poemas de Deus e do Diabo se rendia, comovidamente, à sedutora candura e sinceridade do homem que era Sebastião da Gama. Numa carta que lhe dirigiu, em 11 de Maio de 1950, José Régio dizia-lhe o seguinte: "Com profundo prazer me detenho naquelas notas íntimas, naqueles versos densos de sugestões, através dos quais a autenticidade de um Poeta se revela. Se, porém, tivesse eu dúvidas — que nunca tive — sobre a autenticidade do seu temperamento poético, bastaria conhecê-lo pessoalmente para tais dúvidas se me desfazerem. Tive, há pouco tempo, ocasião de o conhecer um pouco melhor; e, embora não possa ainda dizer que o conheço, (ou não possamos nós dizer que nos conhecemos) o certo é que senti uma espécie de necessidade de lhe vir dizer isto... Desculpe a maneira um pouco atabalhoada com que lho digo." E, noutra carta escrita pouco menos de um ano depois (8 de Abril de 1951), reforça a forte impressão de sinceridade que, no poeta da Arrábida, colhera: "Quanto à sua sinceridade," nota ele, já no final da carta," — de modo nenhum duvido dela. Basta vê-lo, meu Amigo, e ouvi-lo, para se ter a certeza de tal sinceridade. Eis o que é um Poeta!' — tenho eu pensado só de ouvi-lo." Estas palavras do poeta de As Encruzilhadas de Deus, assumem um valor muito especial, quando se tem presente a proverbial cautela com que ele se aproximava dos homens e das suas obras. Mesmo quando o impressionavam favoravelmente, Régio jogava sempre à defesa. Mas, no caso de Sebastião da Gama, a sinceridade genuína e singularmente atraente do autor de Serra-Mãe impôs-­se-lhe, desde o primeiro momento. Pouco mais de um ano após o prematuro falecimento deste, José Régio dedicou-lhe, no número duplo 16/17 da revista Távola Redonda, um comovido testemunho, de que não resisto, mais uma vez, a transcrever uma passagem: "Quando pude conhecer pessoalmente Sebastião da Gama", escreveu Régio, "pensei, encantado: ‘Louvado seja Deus! Ora aqui está um Poeta! um novo Poeta!' E essa primeira e rejuvenescedora impressão, nunca os meus encontros seguintes com Sebastião da Gama a desmentiram. Só a confirmaram. De cada vez que me encontrava com ele, voltava a pensar: 'Ora aqui está um Poeta! um verdadeiro Poeta!' Dizer que o pensava com ternura, gratidão e respeito — é dizer pouco. Donde tal e tão viva impressão? Nada ouvia a Sebastião da Gama que já não tivesse ouvido, ou não pudesse vir a ouvir, a vários outros. É que não tanto das suas palavras como de todo ele, vinha essa impressão de juvenilidade e frescura, gentileza e comunicabilidade, entusiasmo e pureza, que me fazia pensar: ‘Não há dúvida! Eis um verdadeiro Poeta'. E de cada vez me achava eu como animado, e agradecido, pelo simples facto de existir, nestes velhos e demasiado sabidos tempos de hoje, um rapaz assim tão naturalmente protegido pela sublime ingenuidade poética de sempre."
Estes textos que, quase abusadoramente, citei, tiveram um projecto: recortar a imagem de um ser humano dotado de dons poéticos, no melhor sentido desta expressão: de um ser humano dotado de frescura, de sinceridade, de pureza, de uma quase mágica comunhão com tudo o que vive, de um respeito minucioso e infinito para com a natureza, de uma espécie de afecto muito simples mas, ao mesmo tempo, muito transcendente. O grande romancista inglês E. M. Forster, referindo-se ao romance — mas podendo nós, sem perigo, extrapolá-lo para a poesia ou para qualquer forma de arte — dizia que o teste último, para ela, será o nosso afecto por ela, como o é para os nossos amigos. A poesia de Sebastião da Gama — admira-se, mas, o que é ainda mais importante, fica-se profundamente amigo dela. E ficamos amigos
dela porque ela é, por sua vez, genuinamente amiga de tudo quanto, na vida, importa. O poeta americano Longfellow observou, penetrantemente, que "o verdadeiro poeta é um homem amistoso. Acolhe, nos seus braços, mesmo as coisas frias e inanimadas e regozija-se com o seu próprio calor." É isto mesmo que também parece dizer Sebastião da Gama, na sua admirável página do seu Diário, com data de 9 de Março de 1949: "O poeta beija tudo, graças a Deus... E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade... E diz assim: ‘É preciso saber olhar...!’ E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo, como os homens feitos... E levanta uma pedra escura à espera para mostrar uma flor que está por detrás… E perde tempo (ganha tempo) a namorar uma ovelha... E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de sol depois de um dia chuvoso... E acha que tudo é importante..." Nesta comovente passagem se condensa toda uma arte poética que se constrói a partir do uso meticuloso do olhar: olhar para a natureza toda, sem nada desleixar. É o que o Poeta considera ser olhar "o mundo através da janela da Poesia". Olhá-lo sem vergonha, sem preconceitos absurdos. Por isso, observa, com intrépida justeza: "A gente tem vergonha de beijar tudo, de amar as flores, de se enternecer com os animais, de dar um passeio. Se beija uma árvore, é parvo; se traz uma flor na mão, é maricas, se se enternece, é fraco; se acaricia uma menina, põe nessa carícia sexo; se vai a qualquer parte para passear e ver o mundo, faz constar que foi em viagem de estudo ou viagem de negócios. Temos vergonha de ser sinceros, de que nos creiam parvos ou maricas, ou fracos ou lúbricos ou estroinas. E então perdemos o melhor da nossa vida a ludibriar os outros e a insultar as nossas intenções mais belas e generosas. Ó Portugueses, é tempo de torcer o pescoço ao respeito humano. Olhai que nós somos bons e talvez seja verdade que somos Poetas — e isso não deve ser desprezado, mas antes manifestado. Começai a ser sinceros, deixai de ser irónicos, e vereis como tudo corre melhor e a vida tem outro sabor!"
A arte poética de Sebastião da Gama consiste, pois, essencialmente nisto: olhar intrepidamente, sem vergonha, sem preconceitos, sem tabus, para tudo o que nos rodeia e nos seduz. O exercício de uma atenção minuciosa e destemida é urna promessa de grandes frutos. Quando, por debaixo de uma pedra escura, o Poeta encontra uma flor, ele sabe bem que não é apenas uma flor, porque uma flor não é nunca "apenas uma flor". A flor, como a pedra, como tudo, é o produto de uma incansável e misteriosa construção milenar: ou, como dizia o grande poeta inglês William Blake, "criar uma pequena flor é um labor que leva séculos." Sebastião da Gama sente, como poucos, a valia da natureza; o trabalho obstinado e quase clandestino que está por detrás de cada pedaço da natureza que o deslumbra. Por isso, gosta de percorrê-la, apesar de doente e prometido à morte, e não teme beijá-la: “Não tinha pés: tinha passos; / não tinha boca: era beijos; / não tinha voz: era como / se o folhado e a maresia / se tivessem combinado / para cantar ‘Ave, Maria...’”

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A morte foi, desde cedo, uma presença próxima. O autor de Campo Aberto sabia que a sua vida seria curta. Havia, pois, que vivê-la intensamente, compensando, com intensidade, a curta duração; e havia, também, que torná-la intensamente produtiva, profissional e criativamente. Viver a vida, fruí-la, com intensidade, abrangência e minúcia — já vimos que o fez, bebendo o mundo a largos tragos; tornar a vida profissionalmente produtiva, como aluno e, depois, como professor aplicado, apesar de doente, todos os testemunhos confirmam, comovidamente, que assim fez. Mas limitar-me-ei a transcrever aqui uma curta passagem do belo testemunho que, no referido número da Távola Redonda, publicou o Professor Hernâni Cidade, um ano depois da morte do Poeta: "Como se empenhava ele" pergunta Cidade, "e com êxito notável, em ser o aluno cumpridor e esforçado, que não recuava perante o mais árido dos estudos, e de certa altura do curso em diante, com a superioridade expressa na sua alta nota de licenciatura? Com a mesma altíssima noção do dever fez o seu estágio para as Escolas Técnicas e com exemplaríssima dedicação, simpatia comunicativa e aplaudida eficiência exerceu o ensino oficial em Estremoz, onde o seu nome persiste aureolado da mais viva e comovida saudade."
Saber, em suma, que ia viver pouco incitava-o, paradoxalmente, a viver muito, o tempo todo. Observava o grande psicólogo Eric Fromm que "a ideia de ter que morrer sem ter vivido é insuportável." Sebastião da Gama, em vez de passar o tempo a namorar passivamente a morte, agarrou-se à vida e produziu vida: nos poemas que nos deixou e na dádiva total que de si fez aos amigos, aos alunos e à mulher que amou e com quem se casou. "A morte", disse Christopher Fry, num resumo, que é uma perfeita medalha, "[a morte] é um novo interesse na vida." Alguns poetas, como o portalegrense José Duro, também cedo desaparecido, devorado pela tuberculose, agarraram-se, em vida, à morte e cantaram-na de modo insistente e mórbido. Sebastião da Gama viu na morte um grande incentivo para viver a vida e venerá-la e cantá-la.
No campo da criação poética, a aproximação foi semelhante. David Mourão-Ferreira, no belo texto que dedicou à memória do poeta seu amigo, após a sua morte, cita uma passagem de uma carta que dele recebera, na qual dizia: "Sabes por que não perco tempo em cafés e em outras coisas de que o café é uma metáfora? Porque quero deixar feita a minha obra. Poder dizer à Morte: ‘Já vens tarde.' Porque ela é irónica e vem no meio da nossa distracção." E o comentário de David a estas palavras diz o seguinte: "São de Novembro de 1947 estas palavras. Três anos depois, naquele poema Alegoria, [...] tem ele estes versos, tão dramaticamente próximos dos termos da carta: 'Dona Cigarra faz serão. / Como há-de ela dormir, se a vida é curta? / _ : Cigarra que se preza, quando morre / não deve estar a meio da canção'. Dessa carta a este poema há a distância que vai de uma confissão pessoal a uma obra de arte. Não que não seja profundamente bela a expressão literária desse trecho. Mas a obra de arte, mais que pela beleza da forma, caracteriza-se, segundo creio, pela capacidade de universalizar as preocupações mais pessoais e mais íntimas. Pelo trânsito alegórico daquela cigarra, o Sebastião da Gama tornava de toda a gente uma preocupação que era tão sua."
Sebastião da Gama, na sua curta vida profissional e criativa, viveu tanto a vida, precisamente porque tinha a morte ali tão perto, à sua espera. Não cedamos, porém, à tentação romântica de atribuir à sua doença e ao seu sofrimento a origem e a causa da sua obra. Pelo contrário, o seu talento fez-se ouvir, apesar e não por causa da sua doença. Foi a combinação soberba do seu talento e do seu forte carácter que lhe permitiu, a despeito das contrariedades da doença e da morte prematura, produzir uma obra com muito de notável, ainda que curta e, sob alguns aspectos, imperfeita. Ele deverá, talvez, ao seu infortúnio, um certo teor de gravidade que perturba o alado e o gracioso de tantos poemas. Isto mesmo foi assinalado por Régio, no seu comovido testemunho, quando diz: "Não obstante, compreendo agora como certa gravidade da obra de Sebastião da Gama — essa profunda gravidade que em vários seus poemas tão admiravelmente ombreia com a graça, a frescura, a juvenilidade, até a malícia, quer dos mesmos quer dos poemas vizinhos — era ganhada na convivência da Morte; essa morte à qual, num dos mais tocantes e complexos gritos do nosso lirismo, ele pede a Deus o poupe, por ainda se não julgar digno dela! tal convivência, que é a dos que vão morrer cedo, ou vivem mortos para as superfluidades da vida corrente, - ainda que tão vivos, como Sebastião da Gama, para todas as amabilidades do Momento eterno — só tal convivência ensina coisas que também só a verdadeira Poesia comunica." Claro que Régio tem razão, se atendermos aos factos e às circunstâncias. Para o caso, terá sido a presença próxima da morte que lhe alimentou o teor de gravidade dos poemas. Mas se não fosse a Morte e ele tivesse vivido a extensão normal de uma vida, quem pode dizer que outros motivos lhe não teriam também activado um natural pendor para graves cogitações? A sua organização psico-fisiológica e o seu talento estariam lá, devidamente apetrechados e vocacionados para o exercício de aprofundamento de uma gravitas, de que a morte não é proprietária única. Não lhe concedamos, pois, mais crédito do que aquele que lhe é devido. Sobretudo, não retiremos mérito ao inconfundível talento do autor de Cabo da Boa Esperança, para, imerecidamente, o darmos àquela que lhe roubou a vida. Não foi por a mãe lhe ter dado um padrasto antipático que Baudelaire escreveu As Flores do Mal: escreveu-as porque tinha génio e apesar da antipatia do padrasto.

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Vou terminar. Como todas as vidas, mas, sobretudo, como todas as vidas um pouco singulares, a vida de Sebastião da Gama é muito capaz de deixar muitas perguntas por responder. Uma delas — provavelmente estúpida, mas são as perguntas estúpidas que têm feito andar o mundo — uma delas até pode ser esta: "O que faz que se possa nascer com tanto talento e, tão prematuramente, ferido de morte?" Não sei responder, confesso. Mas sempre vos deixo, aqui, a propósito, e para acabar, estas palavras do dramaturgo americano Tennesse Williams: "A vida é uma pergunta sem resposta, mas seja-nos permitido acreditar na dignidade e na importância da pergunta."

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[Texto da palestra sobre Sebastião da Gama, proferida por Eugénio Lisboa em 16 de Novembro de 2012, na Biblioteca Municipal de Setúbal; foto de Quaresma Rosa.]


sábado, 17 de novembro de 2012

António Osório, as memórias em Setúbal


António Osório, poeta natural de Setúbal, vai ter aqui apresentado o seu segundo livro de memórias, O concerto interior - Evocações de um poeta (Assírio & Alvim, 2012). É já no dia 22, pelas 21h30, na sala polivalente do Forum Luísa Todi, numa organização da Associação Cultural Sebastião da Gama e da Delegação de Setúbal da Ordem dos Advogados. A iniciativa tem a colaboração da livraria Culsete e a participação do actor José Nobre, que lerá textos. Entrada livre. Serve de convite.

Eugénio Lisboa e a sinceridade de Sebastião da Gama




A obra de Sebastião da Gama foi visitada por Eugénio Lisboa numa excelente comunicação apresentada na Biblioteca Municipal de Setúbal na noite de 16 de Novembro, actividade promovida pela Associação Cultural Sebastião da Gama. Como tema, uma ideia muito querida da geração do poeta azeitonense – “Não ter vergonha de ser sincero”.
Eugénio Lisboa, estudioso atento da literatura portuguesa, mostrou bem aquilo que Maximiano Gonçalves (que o apresentou) indicou como “o seu prodigioso aparelho cultural” através “da internacionalização do que leu, do que ouviu, do que viu, do que sentiu”. Com efeito, a comunicação de Eugénio Lisboa não versou apenas a sinceridade em Sebastião da Gama, mas também em muitos outros escritores, não apenas portugueses, transportando para esta conferência não apenas o eventual interesse local mas a universalidade da literatura.
«Sebastião da Gama é um dos poucos escritores do qual se pode dizer, sem hesitar, que o homem que fez a obra coincide, ponto por ponto, com o homem que a obra faz supor», começou por dizer Eugénio Lisboa, que não conheceu pessoalmente o autor de Serra-Mãe, mas dele conseguiu ter o retrato através de amigos como Alberto Lacerda e José Régio, além do recurso aos seus escritos.
Eurico Lisboa seguiu, de resto, muito a visão de Régio, poeta de quem Sebastião da Gama muito se aproximou. A correspondência e outros registos regianos passaram por esta conversa de Eurico Lisboa de tal maneira que foi possível à assistência reviver o que pode ter sido o convívio entre estas duas figuras e quais seriam os dotes que Sebastião da Gama detinha, não só na sua forma de estar, mas também na sua escrita – «a imagem de um ser humano dotado de dons poéticos, no melhor sentido desta expressão: de um ser humano dotado de frescura, de sinceridade, de pureza, de uma quase mágica comunhão com tudo o que vive, de um respeito minucioso e infinito para com a natureza, de uma espécie de afecto muito simples mas, ao mesmo tempo, muito transcendente».
Outro aspecto apresentado por Eugénio Lisboa foi a questão da morte na poesia de Sebastião da Gama, que constituiu «um grande incentivo para cantar a vida», com especial chamada de atenção para o facto de não ter sido o sofrimento a causa da obra, antes a existência de um talento que «se fez ouvir, apesar de e não por causa da sua doença», forma de reconhecer o mérito do poeta. A finalizar, Eugénio Lisboa registou a sua inquietação com uma pergunta, para que encontrou resposta emprestada pelo autor de Um eléctrico chamado desejo: «O que faz que se possa nascer com tanto talento e, tão prematuramente, ferido de morte? Não sei responder, confesso. Mas sempre vos deixo, aqui, a propósito, e para acabar, estas palavras do dramaturgo americano Tennessee Williams: ’A vida é uma pergunta sem resposta, mas seja-nos permitido acreditar na dignidade e na importância da pergunta.’» - JRR
[foto: Eugénio Lisboa na Biblioteca Municipal de Setúbal]

"Fernando Pessoa e a Gestão" em apresentação de Maximiano Gonçalves




Que Fernando Pessoa tinha escrito sobre gestão, legando muitas indicações hoje preciosas, caldeadas no seu mister de guarda-livros e também numa biblioteca de economia que foi construindo, não se ignorava. Mas Maximiano Gonçalves apresentou ao público da Biblioteca Municipal de Setúbal o trajecto do poeta e guarda-livros a um ritmo de certeira descoberta, cruzando os escritos pessoanos com aquilo que hoje sabemos que domina a gestão.
Maximiano Gonçalves foi o convidado da Associação Cultural Sebastião da Gama para, na noite de 3 de Novembro, falar sobre “Fernando Pessoa e a gestão”. Colaborador do Diário de Notícias, da RDP, da TSF e do Le Monde Diplomatique, Maximiano Gonçalves já trabalhou em gestão e leccionou nessa área, versando a liderança, a dinamização de recursos humanos e comportamento organizacional. Tem publicada a obra Dizer é preciso (1998), que reúne as suas crónicas transmitidas na RDP.
Fernando Pessoa não foi caso único neste ofício de empregado de escritório, que era também correspondente de línguas, tradutor e publicitário. Nomes grados como Erich Maria Remarque ou Fitzgerald também passaram pela publicidade, como Pessoa. Além disso, o escritor dos heterónimos chegou a criar a sua própria empresa no mundo da edição, a Íbis, ainda que com resultados modestos. Defensor da livre empresa, Pessoa avançou em Portugal com a ideia de consultoria e teorizou sobre organização. De igual forma apregoou princípios que relacionam as empresas com as sociedades em que estão envolvidas – “as empresas comerciais e industriais participam do estado moral das sociedades a que pertencem”.
Foi todo este universo que Maximiano Gonçalves nos levou a visitar perante uma assembleia atenta. Afinal, falava-se também de Fernando Pessoa, o poeta que Sebastião da Gama admirou, leu, estudou, chegando mesmo a revelar essas leituras nos seus poemas! - JRR
[na foto: Manuel Pisco (vereador da CMS), Maximiano Gonaçalves e João Reis Ribeiro (ACSG)]

domingo, 11 de novembro de 2012

Sebastião da Gama visto por Eugénio Lisboa



Eugénio Lisboa é um nome incontornável na cultura portuguesa actual, seja pela sua dedicação à literatura (apesar da sua formação em engenharia), seja pelo estudo aturado que tem feito sobre diversos autores (designadamente José Régio), seja pelo conhecimento vasto relativo à literatura memorialística, seja pelas intervenções cívicas que tem feito.
Vamos ter a possibilidade de o ouvir em Setúbal, desta vez para falar sobre Sebastião da Gama. Serve de convite. Até ao dia 16!

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Dos associados (32) - Cunha Bento apresentou casas nobres e apalaçadas em Setúbal




A tarde de 26 de Outubro do Centro de Investigação Manuel Medeiros, da Universidade Sénior de Setúbal (Uniseti) foi preenchida com a palestra “Casas nobres e apalaçadas em Setúbal – passado / presente e futuro”, proferida pelo nosso associado António Cunha Bento, no auditório da Biblioteca Municipal de Setúbal.
Perante uma plateia de cerca de meia centena de pessoas, as construções setubalenses nobres e apalaçadas erguidas no interior da muralha do século XVII desfilaram na sua história e nas observações do que falta ainda para saber em termos de história local.
Foram 17 as edificações apresentadas, algumas com histórias mais conhecidas, várias com a perspectiva de virem a ser contadas histórias.
António Cunha Bento deixou, no final deste aturado trabalho de divulgação e de reconhecimento, a mensagem de que “classificação só por si não basta”, uma vez que a reconstrução e a reabilitação devem constituir parâmetros a serem considerados.
Colaborador em muitas iniciativas de âmbito local, António Cunha Bento (n. 1946) é autor de várias intervenções em defesa do património, tem serviço prestado no movimento associativo sadino de âmbito histórico-cultural e é uma referência incontornável no que à história regional diz respeito, seja pela disponibilidade para a troca de informações, seja pelo acervo historiográfico local que detém, seja pela meticulosidade de informação que o caracteriza. Um nome a ser considerado para uma distinção local na área da cultura, sem favor, tal como chegou a ser alvitrado na sessão.
António Quaresma Rosa

domingo, 21 de outubro de 2012

Fernando Pessoa e a Gestão - convite

Fernando Pessoa foi um dos poetas bem lidos por Sebastião da Gama, atento como era o poeta azeitonense a toda a sua contemporaneidade. Por isso, a nossa Associação vai promover uma sessão sobre uma faceta menos conhecida de Pessoa... É um convite!


"O Concerto Interior", o novo livro de António Osório



Promovido pela Assírio & Alvim e pela Bertrand, teve lugar no passado dia 17 de Outubro, pelas 18h30, o lançamento do novo livro do poeta António Osório com o título O Concerto Interior – Evocações de um poeta. A cerimónia decorreu na grande sala de exposições da Livraria Bertrand, situada no centro comercial Picoas Plaza, em Lisboa, com numerosa assistência, a começar por antigos colegas advogados, muitos amigos e familiares, e, em cuja mesa da presidência, além do autor, estavam Vasco David, em representação da Editora, e os Drs. José Manuel de Vasconcelos e Pedro Mexia, apresentadores do livro.
Ambos os apresentadores enalteceram esta nova publicação de António Osório e congratularam-se com a mensagem que nos é transmitida. “Um livro essencialmente de infância embora refira recordações de todo o seu curriculum, inclusive, profissional”, disse José Manuel de Vasconcelos. António Osório, afirmou ainda, “é uma pessoa muito discreta, neste diário não há solavancos, fala de si através dos afectos dos outros, trata-se de um magnífico texto, todo ele musical.”
Por sua vez, Pedro Mexia lembrou a velha amizade que o liga ao autor e confessou, inclusivamente, que António Osório o incentivara a escrever, também, poesia. Afirmou que a poesia de António Osório é um “hino à gratidão e que a transparência dos seus poemas é incontornável”.
A terminar, usou da palavra o autor para agradecer a todos os presentes a simpatia e amizade demonstrada na presença nesta cerimónia de lançamento deste seu novo livro, bem como todas as palavras e referências elogiosas dos amigos apresentadores desta sua obra.
A Associação Cultural Sebastião da Gama esteve presente  na pessoa de um dos seus elementos directivos, que, numa breve intervenção, apresentou sinceras felicitações ao autor por mais esta maravilhosa obra com que nos brindou. Não podemos esquecer que António Osório é um dos primeiros associados da Associação Cultural Sebastião da Gama que dele tem recebido inúmeras provas de colaboração e amizade. Isto, para não falarmos da grande amizade que o ligou ao seu patrono, Sebastião da Gama, a quem, aliás, faz uma especial referência logo nas primeiras linhas deste seu novo livro.
A apresentação desta obra em Setúbal ocorrerá no dia 22 de Novembro, pelas 21h30, na sala polivalente do Forum Municipal Luísa Todi, numa sessão organizada pela nossa Associação e pela delegação regional da Ordem dos Advogados, evento que será de entrada livre.
Manuel Herculano Silva

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Dos associados (31) - António Osório em entrevista



António Osório, um dos mais importantes poetas portugueses da actualidade e nosso associado, é entrevistado na mais recente edição do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias (nº 1095, de 19 de Setembro).
A entrevista, conduzida por Maria Leonor Nunes, tem como pretexto o livro que brevemente estará nos escaparates, assinado por António Osório, intitulado O concerto interior, uma “revisitação das personagens e episódios da vida do poeta, ensaísta e advogado”.
António Osório, que conheceu Sebastião da Gama e com ele privou, já escreveu algumas memórias sobre o poeta azeitonense; neste livro, o autor de Serra-Mãe voltará a ser objecto de histórias, a par com muitas outras personagens que se cruzaram na vida de António Osório, que diz sobre este seu novo título: “Neste livro há uma mistura de poesia, prosa e sonho. E procurei ser verdadeiro, como em tudo na minha vida.”
A entrevista, importante para quem queira conhecer António Osório (nascido em Setúbal há 79 anos e cujo primeiro livro, A raiz afectuosa, saiu há 40 anos), passa pela poesia, pela biografia, pelos gostos e prazeres, pelo anúncio do que pode ser partilhado neste livro. O Concerto Interior, título poético de um jeito de fazer memórias em que a poesia e o sentir se cruzam, foi pretexto para esta entrevista que termina com António Osório a dizer o que procura como poeta: “A busca do sentido do mundo. A busca da ‘luz verde’. Acho que existe uma luz verde, que todos vemos, que é a de sermos fraternos uns para os outros.”
Brevemente, uma outra entrevista de António Osório será publicada, desta vez na revista Ler (a sair no início de Outubro). O livro de que se fala será objecto de apresentação pública em data a ser divulgada oportunamente, numa iniciativa que será levada a cabo com a participação da nossa Associação. – JRR

domingo, 23 de setembro de 2012

Dos associados (30) - O nosso presidente recebeu a medalha de mérito cultural


A nossa Associação está de parabéns! O nosso Presidente recebeu Medalha de Mérito Cultural.
Tudo se passou no passado dia 15 de Setembro - Comemorações do dia da Cidade, em Setúbal. Tal como em anos anteriores, a Câmara Municipal de Setúbal comemorou o seu feriado municipal com um vasto programa de eventos culturais de que destacaremos somente a sessão realizada nesse dia no Salão Nobre dos Paços do Concelho.
Foi precisamente no decorrer desta sessão solene que teve lugar a homenagem aos funcionários municipais ultimamente aposentados e a condecoração de diversas personalidades e entidades do concelho com a Medalha de honra da cidade.
Entre as diversas personalidades propostas pela nossa Câmara Municipal  para serem condecoradas está precisamente o nosso presidente, Dr. João Reis Ribeiro. Estamos, pois, perante um acontecimento que enche de júbilo  a nossa Associação, com todos os seus associados, amigos e admiradores do grande homem, poeta e pedagogo que foi Sebastião da Gama.
No curriculum apresentado nesta sessão evocativa pela Câmara Municipal, justificativo da atribuição deste galardão, ficámos a saber que o Professor João Reis Ribeiro nasceu em Alvarães (concelho e distrito de Viana do Castelo) no ano de 1958. Desde a sua vinda para o concelho de Setúbal, para além da actividade docente, vem manifestando um grande interesse pela história local da região através de estudos que vem publicando com notória assiduidade, tanto em periódicos de circulação local como em livro.
Para além de alguns estudos em colaboração com outros investigadores, é de sua autoria a obra Histórias da região de Setúbal e Arrábida, de que saiu em 2003 o primeiro volume. Tem ainda colaboração no Grande Dicionário Enciclopédico Ediclube e são de assinalar também outras obras de sua autoria, tais como Minho (1993), Histórias e cantinhos da região de Palmela (2002) e Imagens da Península da Arrábida no século XIX (2004, em colaboração com António da Cunha Bento). Ultimamente, preparou uma edição anotada do Diário de Sebastião da Gama (2011).
Convém ainda referir os cargos directivos desempenhados no movimento associativo: Associação Desportiva e Cultural de Alvarães; Casa do Minho (Lisboa); Centro Social de Palmela e Grupo dos Amigos do Concelho de Palmela, além de colaborações com o Centro de Estudos Bocageanos e Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão.
Apaixonado pela obra do poeta e pedagogo Sebastião da Gama, João Reis Ribeiro vem-lhe dedicando atenção, leitura e estudo a partir, sobretudo, da tese de mestrado que defendeu e na qual analisou o percurso da revista Távola Redonda, a que o autor de Serra-Mãe esteve ligado.
João Reis Ribeiro, docente bem conhecido e apreciado nos meios literários de Setúbal, desempenha ainda as funções de Presidente da Associação Cultural Sebastião da Gama, instituída no ano de 2006 e que tem como propósito principal a divulgação da mensagem e da obra do poeta azeitonense.
João Reis Ribeiro tem-se mostrado um incansável intensificador da memória de Sebastião da Gama, promovendo, através da Associação a que preside e em parceria com a Câmara Municipal de Setúbal e de outras Entidades, diversas iniciativas tendentes a evocar o grande poeta e pedagogo azeitonense Sebastião da Gama.
Aqui fica, pois, um pequeno esboço do valor e mérito humano, moral e intelectual do nosso presidente que, diga-se em abono da verdade, nos enche de orgulho.Com renovados parabéns por esta Medalha de mérito intelectual e por todos os êxitos já alcançados, formulamos votos para que tenha muita saúde a fim de poder continuar a conceder à  nossa Associação e a todas as actividades  em que está envolvido o seu incontornável contributo. – Manuel  Herculano Silva

[Na foto: João Reis Ribeiro, ladeado pela Presidente da Câmara de Setúbal e pelo Presidente da Assembleia Municipal de Setúbal.
Foto de Fátima Ribeiro] 

Dos associados (29): Rui Peixoto e o quotidiano azeitonense dos anos 20


A apresentação pública foi já no final de Junho, mas a obra merece referência: falo de O Azeitonense, semanário publicado em Azeitão entre 3 de Agosto de 1919 e 25 de Julho de 1920. Cerca de um ano durou a publicação, de que saíram 51 números.
Em Junho passado, foi feita a apresentação de uma edição facsimilada deste jornal, trabalho devido ao nosso associado Rui Peixoto, ainda que com a colaboração de Pedro Marquês de Sousa, Leonardo Bento e António Eduardo Chumbinho. Para se avaliar da dificuldade deste trabalho, bastará pensar que, na Biblioteca Municipal de Setúbal, existem apenas 15 números desta publicação; um particular, Francisco Lavrador, ofereceu ao Jornal de Azeitão uma colecção em que constam 40 números; a totalidade da colecção existe apenas na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, recurso que ocupou Rui Peixoto na sua pesquisa.
Qual era a intenção do jornal dirigido por Gastão Faria de Bettencourt? Logo no número inaugural, a linguagem era clara no artigo intitulado “O nosso intuito”: “O nosso semanário será órgão defensor dos interesses de Azeitão, completamente alheio a política.”
Ao longo das cinco dezenas de números editados, há referências a figuras importantes da vida cultural portuguesa, notícias locais, sugestões para melhoramentos na freguesia, versos de poetas locais e de outros de renome nacional e anúncios (no primeiro número, já se fala dos “deliciosos bolos de Azeitão” de Manuel Rodrigues, “o Cego”, por exemplo, ou de José Maria da Fonseca, numa página que reúne 17 anunciantes).
São duas centenas de páginas com que se fez a história do quotidiano azeitonense, não apenas com interesse devido à curiosidade mas sobretudo para sentir a dinâmica que animava a vila. Um trabalho que deve ser agradecido a Rui Peixoto! – JRR

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Sebastião da Gama nas memórias de Maria Barroso


O quarto volume do Álbum de Memórias de Maria Barroso, redigido por Vladimiro Nunes, publicado com a edição do semanário Sol de hoje, abrange o período entre 1945 e 1948, fase em que a biografada está na Faculdade de Letras em Lisboa e período em que conhece Sebastião da Gama.
A relação de amizade entre o poeta de Azeitão e Maria Barroso, estendida a Joana Luísa da Gama (mulher do poeta), foi de tal forma intensa que as referências a esse convívio feitas neste volume são diversas, em simultâneo com reprodução de vários trechos epistolares que de Azeitão seguiram para Lisboa e com várias fotografias do arquivo familiar de Sebastião da Gama.
As referências ao poeta são dominadas pelo testemunho de Maria Barroso, que diz: «Dava-me muito com ele na Faculdade. Era um homem de uma enorme pureza e um grande poeta. Gostava muito de mim, éramos muito amigos. Quando se me dirigia por carta ou me escrevia uma dedicatória num livro assinava sempre ‘do teu muito irmão Sebastião Artur’. Eu só lhe dizia: ‘Ó Sebastião, tu não digas os teus poemas, porque os estragas e eles são tão bonitos.’ Eu gostava tanto da poesia dele que achava que a forma como ele a dizia não lhe fazia justiça.»
No capítulo alusivo a este tempo da Faculdade, há ainda espaço para relembrar o círculo de amigos que ambos frequentavam, constituído por nomes como Eurico Lisboa, Lindley Cintra, Maria de Lourdes Belchior, Matilde Rosa Araújo e David Mourão-Ferreira.
Recorde-se que Maria Barroso integrou a comissão de honra do monumento que a Sebastião da Gama foi erigido em Azeitão em 2007 (por iniciativa da nossa Associação) e fez parte do elenco que disse poemas de Sebastião da Gama no cd “Meu caminho é por mim fora”, editado por esta Associação em 2010. – JRR

sábado, 21 de julho de 2012

Memória: José Hermano Saraiva (1919-2012)


José Hermano Saraiva, que trouxe a história de Portugal até muitos de nós e nos ensinou a ter gosto pela nossa identidade, foi também um apreciador de Sebastião da Gama e com ele se cruzou nos corredores da Faculdade de Letras.
Aquando da construção do monumento que a nossa Associação erigiu em Azeitão em 2007, José Hermano Saraiva integrou a Comissão de Honra desse monumento. Infelizmente, não pôde assistir à cerimónia de inauguração em 9 de Junho de 2007!
Uns dias depois, visitei-o na sua casa de Palmela para lhe oferecer, em nome da Associação, a medalha então cunhada e para lhe contar o que tinha sido a festa. Conversámos sobre Sebastião da Gama e garantiu que haveria de fazer um programa televisivo sobre o poeta azeitonense. Com efeito, três anos depois, em Junho de 2010, uma edição do programa “A alma e a gente” era dedicada ao “poeta da Arrábida”.
O homem que nos contou histórias e encheu Portugal com um pouco mais de cultura e de saber partiu. Fica-nos a sua memória e uma homenagem à erudição e ao saber. - JRR

[foto: José Hermano Saraiva, em 18 de Junho de 2007, lendo o Boletim Informativo da Associação Cultural Sebastião da Gama]

domingo, 15 de julho de 2012

Sebastião da Gama homenageado pela Escola Maria Ulrich


Sebastião da Gama foi o tema da tarde de ontem para a Escola Superior de Educadores de Infância Maria Ulrich, num programa preenchido e de qualidade, que aliou a visita ao Museu azeitonense, uma visão da pedagogia e da poesia do autor de Serra-Mãe e a música, fosse em forma de homenagem ou de exaltação da mensagem do poeta.
Depois de uma visita ao Museu Sebastião da Gama, em Azeitão, o grupo de alunos e de professores da ESEIMU dirigiu-se para o salão nobre da Câmara Municipal de Setúbal. O programa foi apresentado por Isabel Baltazar, a professora responsável pela actividade, João Reis Ribeiro interveio em curta abordagem sobre o poeta-professor e Leonor Leitão-Cadete conduziu o passeio pela música que prestou tributo ao poeta e à sua poesia, enriquecido com as vozes do actor Rui David, do tenor Samuel Vieira e dos alunos Celeste Silva, Carlos Silva e Teresa Sousa Pinto.
Uma tarde de comunhão poética, com improvisos e palavras que em muito enriqueceram uma visão de Sebastião da Gama. Um programa feliz, que evidenciou o poeta e deixou que a poesia cantasse forte dentro de cada um. De resto, no final, Ana Aires, directora da ESEIMU, registou essa importância que a sua instituição tem dado ao poeta azeitonense. Foi um “Encontro com Sebastião da Gama”, com resposta aos versos através da música, arte que ele apreciava e de que tem imensos registos nos seus poemas.
A obra e a mensagem de Sebastião da Gama poderão vir a ser a temática das Jornadas Pedagógicas da ESEIMU no próximo ano lectivo, o que seria uma forma simpática e consistente de assinalar o 60º aniversário da primeira obra publicada postumamente, Pelo sonho é que vamos (1953). – JRR

sábado, 30 de junho de 2012

Clemente, cantor, e Sebastião da Gama, poeta

Na edição do jornal Sem Mais de hoje, distribuído com o Expresso, na rubrica "Impressão Digital", o entrevistado é o cantor Clemente, natural de Setúbal, com 56 anos de aprendizagem da vida.
Depois de confessar a serra da Arrábida como o seu local de eleição, responde da seguinte forma à pergunta "Há alguma figura regional que lhe mereça rasgos de elogios?": «Sebastião da Gama, que cantou a Serra-Mãe como mais ninguém foi capaz. Nem com todas as campanhas de marketing televisivo a custar muitos milhares de euros aos contribuintes conseguem a simplicidade, o impacto e a eficácia da poesia e da prosa de Sebastião da Gama. Conheço gente que veio de outros países à região de Setúbal depois de lê-lo.»

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Adriana Simões convidou Sebastião da Gama para uma visita à sua escola


Este texto foi publicado no jornal O Setubalense, em 18 de Junho. Tem a originalidade de reconstituir uma visita à Escola Secundária Sebastião da Gama na companhia do patrono com o objectivo de "ver" as transformações que a Escola sofreu aquando da intervenção recentemente feita.
Adriana Simões, professora, integrou os órgãos de gestão da Escola Secundária Sebastião da Gama em vários mandatos e em diversas funções. Em 2008, publicou a monografia A Escola que abraçou a cidade - Escola Secundária Sebastião da Gama (1888-2000). - JRR

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Dos associados (28): José-António Chocolate em antologia de 30 anos de poesia

Foi na tarde de sábado que o nosso associado José-António Chocolate teve a apresentação do seu livro Todos os afectos (Setúbal: Estuário, 2012), antologia do próprio autor sobre as três décadas em que se dedicou à escrita poética.
O texto lido na apresentação do livro (que esteve a cargo de João Reis Ribeiro) pode ser lido aqui.
[na foto, de Quaresma Rosa: a mesa que presidiu à sessão - João Reis Ribeiro, Raul Tavares, José-António Chocolate e José Teófilo Duarte]

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Dos associados (27) - Clementina Pereira e o teatro amador sadino

A nossa associada Clementina Pereira, que também tem colaborado em alguns dos eventos organizados pela nossa Associação, designadamente dizendo poesia de Sebastião da Gama ou através da participação no cd que editámos há dois anos, apresentou meritório trabalho sobre a história do teatro amador em Setúbal, na tarde da passada quarta-feira. Aqui se reproduz a notícia saída em O Setubalense de hoje. Simultaneamente, felicita-se Clementina Pereira por este trabalho. - JRR

domingo, 6 de maio de 2012

Edifício da Escola Secundária Sebastião da Gama tem 57 anos

Em 8 de Maio de 1955, a agora designada Escola Secundária Sebastião da Gama, em Setúbal, abria nas novas instalações, a sul do Parque do Bonfim, que ainda hoje lhe servem de sede.
Construção já há muito reclamada – quase meio século de insistência, garante Peres Claro na sua obra Um século de ensino técnico profissional em Setúbal – História da Escola Secundária Sebastião da Gama (2000) –, esta novidade seria motivo de festa por vários dias, num programa cuidadosamente elaborado pela própria Escola, que então se chamava Industrial e Comercial de Setúbal. Além de uma homenagem ao pintor João Vaz, setubalense que já dera nome a esta escola, no evento constaram actos religiosos, visitas ministeriais, exposições de trabalhos de alunos e de professores, concertos e desfiles.
Agora, quando passam 57 anos sobre essa data, a Escola Secundária Sebastião da Gama vai comemorar a efeméride, associando ao evento o nome do seu patrono, sobre cujo falecimento passa neste ano o 60º aniversário.
As felicitações são devidas à Escola e à respectiva comunidade, claro. E, para que a participação seja conhecida, aqui se deixa o programa deste ano, também ele com homenagem, arte, palestra, música e poesia. – JRR 





Dos associados (26) - Primeiros sócios honorários da ACSG


A Associação Cultural Sebastião da Gama tem desde ontem três sócios honorários: Joana Luísa da Gama, Luís Gonzaga Machado e João Manuel Gama, este último a título póstumo.
Na assembleia geral ontem efectuada, a direcção propôs os três novos sócios honorários, com aprovação por unanimidade.
As razões invocadas para a concessão de tal título foram, no caso de Joana Luísa da Gama (n. 1923), a dedicação pessoal a Sebastião da Gama, prolongada na sua acção de fiel depositária do espólio do poeta e na sua acção promotora para a divulgação da obra, com a responsabilidade indirecta e, por vezes, directa, da publicação de vários títulos póstumos de Sebastião da Gama, medidas que têm contribuído para o conhecimento do poeta e para a preservação da sua memória.
Já no caso de Luís Gonzaga Machado (n. 1924) e de João Manuel Gama (1927-2011) as razões apresentadas pela direcção foram no sentido do contributo que um e outro deram para a criação do movimento que originou o surgimento da Associação Cultural Sebastião da Gama e para a construção do monumento em honra do poeta, inaugurado em 2007.
O título de “sócio honorário” é atribuído em assembleia geral por proposta da direcção ou de um mínimo de 25 associados e pretende destacar qualquer associado, singular ou colectivo, que tenha prestado serviços ou qualquer contribuição considerada relevante para os fins da Associação. - JRR


Os três sócios honorários da ACSG: Luís Gonzaga Machado e Joana Luísa da Gama (foto de Março de 2011) e João Manuel Gama (foto de 2006)

Órgãos sociais da ACSG para 2012/2014

Em assembleia geral ontem realizada, foram eleitos os novos órgãos sociais da Associação Cultural Sebastião da Gama para o triénio 2012/2014, cuja constituição é a seguinte: na Mesa da Assembleia Geral, Luís de Gonzaga Machado (presidente), João Marques de Carvalho (vice-presidente) e Ana Maria Vieitos (secretária); no Conselho Fiscal, Alexandre José Cardoso (presidente), Maria Catarina Neves (secretária) e António Quaresma Rosa (relator); na Direcção, João Reis Ribeiro (presidente), Carlos Mendes Zacarias (vice-presidente), António Cunha Bento (tesoureiro), Nicolau Pereira da Claudina (1º secretário), Manuel Herculano Silva (2º secretário), Rui dos Santos Peixoto (1º vogal) e Fernando Marques Mendes (2º vogal).