sábado, 26 de novembro de 2011

Miguel Real: Leitura pessoal do "Diário" de Sebastião da Gama

Recentemente reeditado pela mão do professor João Reis Ribeiro, que assina uma notável introdução, Diário (Editorial Presença), de Sebastião da Gama, dele recolhemos o exemplo de um verdadeiro professor.
Com efeito, um conjunto de dez características estatui este diário de um estagiário das disciplinas de Português e Francês no modelo (ideal) de um perfeito professor. Neste sentido, o genuíno professor do ensino básico e secundário seria:

1. – aquele que lecciona contra o racionalismo pedagógico, o academicismo, o eruditismo, a retórica balofa, o estilo pedante e pomposo, a orientação pedagógica livresca e moralista, a total vinculação ao estudo do passado literário sem compromissos estéticos actuais;
2. – aquele que, como pulsão de desejo pedagógico-estético, munido de suficientes portas e janelas por onde corre o ar fresco da criação nova, interpenetra na sala de aula de conhecimento e criação;
3. – aquele que dá aulas contra a cultura como efeito de propaganda e contra a cultura como forma de imbecilização de massas;
4. – aquele que não trata o aluno nem como idiota nem como génio, e celebra a multiplicidade de personalidades em desabono da unidade;
5. – aquele que na sua aula foge de perspectivas culturais mecânicas, abstractas, descarnadas, presas a cadáveres teoréticos, ausentes dos nervos e do sangue da vida, isto é, das emoções e afectos humanos que, na sua diversidade, compõem o coração da literatura, da cultura e da história;
6. – aquele que, na sala de aula, aspira a promover o diálogo, não a tagarelice; o debate, não a cristalização dos argumentos numa fortaleza ideológica, isto é, ouve o aluno;
7. – aquele que, na sala de aula, escapa ao argumento repetido, à teoria mil vezes explicada ou mil vezes aplicada, à terminologia mil vezes repisada;
8. – aquele que, na sala de aula, desmascara a cultura “descartável”, confeccionada para ser vendida, consumida e deitada fora como um par de sapatos velhos, e desconstrói a cultura de massas que não possui ideias a alimentá-la, ideias originais, fortes, sólidas, que possam iluminar a realidade e perturbem a vida do aluno – uma aula, como um romance, um poema, um ensaio, deve ambicionar a mudar a vida (ou parte da vida) do leitor, abrindo-lhe um outro plano no horizonte da sua vida;
9. – aquele que, na sala de aula, reclama uma exigência de rigor ético cujo objectivo último residirá na maior amplidão da lucidez do aluno, isto é, da capacidade crítica da razão do aluno;
10. – Aquele que faz da sua aula um espaço de transgressão estética, de desmando cultural, de provocação analítica.

O Diário de Sebastião da Gama prova que as suas aulas não se destinavam apenas à formação ou consolidação da personalidade do aluno, mas também à concessão de liberdade. Para Sebastião da Gama, educar era amar e conceder liberdade e respeitar a liberdade alheia, mormente a do aluno. A profissão de professor e a vocação maior da escola residiriam, assim, em última análise, segundo o autor, na educação da liberdade do aluno e na construção de um espírito fraterno entre toda a comunidade escolar – e, portanto, na possibilidade do aluno errar como de acertar, de falhar como de conseguir, no sentido de que cada aluno, quando adulto, se tornasse um cidadão eticamente exemplar.
Dar aulas, para Sebastião da Gama, significava igualmente, tendo em conta a mentalidade que anima a pedagogia contemporânea, enformada pela atmosfera científica do século XX, que a escola devia visar a criação de um homem socialmente plural, crente no valor da técnica e da tecnologia como modo de solucionamento das questões sociais, mas também de um cidadão humanista, crente no valor da lei, da moral e, sobretudo, da poesia, de uma filosofia humanística que harmonizasse os homens entre si.
Para Sebastião da Gama dar aulas significava que o professor e a escola se constituíam como os instrumentos que a sociedade utiliza para elevar a criança ao nível formativo do adulto, tendo em conta ser o aluno, ele próprio, o destinatário privilegiado de toda a educação, mas não o aluno abstracto, modelo perfeito do aluno sábio, antes o aluno tal como se apresenta concreta e existencialmente, não raro carregado de preconceitos sociais transmitido pelo meios de comunicação de massas. Neste sentido, mais do que científicas, as suas aulas eram humanísticas e existenciais.
No Diário constatamos a existência de uma permanente actualização metodológica e instrumental da escola e dos professores. Com efeito, a antiga pedagogia, centrada no professor, nada resolve hoje em dia quando este, ainda que adulto e mais sábio, já não constitui modelo e exemplo para alunos púberes e adolescentes. Sob a capa de um rigorismo académico, a acção destes professores pode afastar os alunos dos conteúdos da sua disciplina, quando não se torna ela própria desadequada face à nova estrutura familiar e à nova cultura da empresa, mais descentralizadas e multipolares. Sebastião da Gama toma directo partido pela “nova” pedagogia, que centra a aula, não exclusivamente no professor, mas tanto no aluno quanto nos materiais pedagógicos – por isso promove a semana da Poesia e toma inúmeras iniciativas no interior da sala de aula. Teve razão antes do tempo – de facto, a Pedagogia hoje chegou a esta conclusão, o professor deve centrar a aula nos materiais ou suportes do acto de ensinar, adequando à estrutura cognitiva e existencial do aluno.
Assim, em conclusão, o conceito de educação em Sebastião da Gama é, em suma, para além da formação de uma personalidade, a concessão de liberdade. Educar é conceder liberdade, respeitar a liberdade alheia, mormente a do aluno, por muito que hoje essa concessão nos pareça utópica ou, face aos constrangimentos sociais, mesmo perversa. A profissão de professor é, assim, entendida como aquela que educa disponibilizando liberdade – e, portanto, a possibilidade de errar como de acertar, de falhar como de conseguir, de ser eticamente exemplar como de ser maleficamente exemplar. Santo ou cafajeste, cada um faz-se por si, respondendo à sua espontaneidade interior, que, sobre as circunstâncias sociais, favorecendo-as ou contraditando-as, é a sua liberdade.
Deste modo, a mentalidade que animava a Pedagogia oficial do tempo de Sebastião da Gama, enformada pela atmosfera científica do século XIX, visa a criação de um homem social uniformizado, crente no absoluto valor da técnica e da tecnologia como modo de solucionamento das questões sociais, um homem abstracto, regulado por leis jurídicas universais. Porém, Sebastião da Gama, no seu Diário, não nos fala desse homem uniformizado e universalizado, de que o professor deveria exemplo e instrumentos social.
Miguel Real
10 de Outubro de 2011.

[Comunicação apresentada no encontro "A Educação a partir do Diário de Sebastião da Gama", que aconteceu na Biblioteca Municipal de Palmela, em 28 de Outubro, inserido no programa de recepção à comunidade educativa, por iniciativa da Câmara Municipal de Palmela.]

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O "Diário" não está na lista... mas podia (devia) estar

O último número da revista Os Meus Livros (nº 104, Novembro.2011) apresenta como tema de capa “Os Caminhos do Ensino”. No interior, em quatro páginas, o texto “De zero a vinte” apresenta duas dezenas de títulos bibliográficos pretendendo olhar “vinte livros que são um ponto de partida para olhar as questões do ensino com outros olhos e compreender um pouco melhor algumas das questões que causam discordância, mas necessitam de respostas”.
Por este escaparate passam as obras: Se não estudas estás tramado, de Eduardo Marçal Grilo; O “eduquês” em discurso directo, de Nuno Crato; A Educação do meu umbigo, de Paulo Guinote; A minha sala de aula é uma trincheira, de Bárbara Wong; A arte de ensinar, de Alan Haigh; 19 argumentos para reconst(ruir) a escola pública, de Luís M. Aires; Professores e escolas, de Evangelina Bonifácio Silva; O pequeno ditador, de Javier Urra; Pais que educam, professores que amam, de Joaquim Machado; O ensino passado a limpo, de Santana Castilho; A aprendizagem cooperativa na sala de aula, de José Lopes e Helena Santos Silva; Boas práticas na educação, de António Estanqueiro; O valor de educar, o valor de instruir, de Fernando savater e outros; O Centro Escolar Republicano Almirante Reis, de Célia Oliveira Pestana; Salazar e a Escola Técnica, de Albérico Afonso Costa; Rómulo de Carvalho – Ser professor, organizado por Nuno Crato; O professor, de Franck McCourt; Não os desiludas, de Manuela Castro Neves; Fui professora do ensino primário, de Sara Tiago; SOS tenho de passar de ano, de Renato Paiva.
A questão, numa escolha de vinte títulos, é saber quais os primeiros vinte, quais os segundos vinte e assim por diante, é óbvio. Mas estranha-se que o Diário, de Sebastião da Gama, não tenha entrado na lista. Por vários motivos: por ter ajudado muita gente a abraçar o ser professor, por ser o relato de uma boa experiência, por não ter perdido actualidade, apesar das seis décadas que sobre ele já passaram. Esta omissão é tanto mais notória quanto, no texto introdutório a esta escolha, se evoca Sebastião da Gama a propósito não do Diário, mas de um poema que recorrentemente é citado: “Professor e poeta, Sebastião da Gama ficará para sempre ligado a um célebre poema, onde expressa bem a necessidade de acreditarmos e seguirmos em frente, demonstrando como a ausência de valores nunca engrandeceu uma sociedade – apesar de igual necessidade em questioná-los ciclicamente porque pelo sonho é que vamos, / comovidos e mudos. // Chegamos? Não chegamos? // Haja ou não haja frutos / pelo sonho é que vamos.
Foi pena, pois, não ter sido inserido o seu Diário na lista apresentada! [Uma declaração de interesses: obviamente, a Associação Cultural Sebastião da Gama pugna pela divulgação e estudo da mensagem do seu patrono, com particular relevo para o Diário; por outro lado, estou ligado a esta obra, uma vez que preparei a mais recente edição que dela se fez, em 2011, pela primeira vez completa e anotada.] – JRR

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Ouvir "Pasmo", de Sebastião da Gama

“Pasmo” é poema de Sebastião da Gama, datado de 29 de Julho de 1944, logo inserido pelo poeta no seu primeiro livro, Serra-Mãe, em 1945.
A sua audição está agora disponível na net, através do Youtube, pela voz de Raul Resendes, a partir do programa “Poema do Dia”, dedicado à poesia, em co-produção da Associação Cultural Despe-Te Que Suas e da Antena 1 / Açores, com o apoio do Governo açoriano.
Na gravação disponível, constam ainda comentários finais da autoria de Carla Mota e de Urbano Bettencourt.

sábado, 19 de novembro de 2011

Dos associados (25) - Luís Amaro

Em 1949, Luís Amaro (que é nosso associado desde o início) publicou o livro Dádiva (Lisboa: Portugália Editora), que mereceu de Sebastião da Gama uma carta de amigo, mais que de leitor. Ou talvez nela contendo as duas perspectivas, nela dizendo a dada altura: “O teu livro tem, além de muita poesia, de muito coração, de muita honestidade humana e de Artista, uma unidade que eu invejo”. No Diário, Sebastião da Gama registaria também, em curta e sentida nota (18 de Fevereiro de 1949): “Ao escrever isto – ser professor é dar-se – lembro-me do amaro. Pobre querido Amigo, tão nobre, tão modesto, tão pudico da sua intimidade. Um António Nobre que chegou tarde, uma flor que o vento magoou… Há três anos que lhe peço o livro: ele, tímido, recusa sempre mostrá-lo ao mundo. (…) Pois há uma semana encontrei o Amaro. Acompanhei-o. Junto de um portal, com medo de que alguém que passasse ou ouvisse, segredou-me: ‘Vou publicar.” – ‘Diário Íntimo?’ – ‘Não. Dádiva.’ Senti cá dentro uma lágrima que era a compreensão exacta e comovida daquele nome. Dádiva. Dádiva. Dádiva.”

Em 1975, Luís Amaro publicou Diário Íntimo (Lisboa: Iniciativas Editoriais), aí incluindo Dádiva, voltando a editá-lo em 2006 (Lisboa: & etc). Agora, nova edição surge – Diário Íntimo – Dádiva e Outros Poemas (Licorne, 2011), que merece nota no caderno “Atual” saído no Expresso de hoje, assinada por António Guerreiro, uma nota que é muito mais sobre o valor de Luís Amaro enquanto pessoa do que sobre o livro e que vale a pena ler para se ter uma ideia da importância do nome de Luís Amaro na literatura portuguesa do século XX. – JRR

Dos associados (24) - David Sequerra

Na semana que passou, o Secretário de Estado do Desporto e Juventude, Alexandre Mestre, esteve em Sesimbra, onde visitou o Grupo Desportivo de Sesimbra. No final da visita, o governante enalteceu o papel desempenhado por David Sequerra na área do desporto entregando-lhe a Medalha de Bons Serviços Desportivos. Aqui fica o recorte com a notícia saída na edição do Sem Mais Jornal de hoje e aqui se registam os parabéns ao nosso associado David Sequerra. – JRR

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A "Cantilena", de Sebastião da Gama, em Frankfurt

Sebastião da Gama esteve presente em Frankfurt, na manifestação de portugueses que não aceitam o encerramento do vice-consulado daquela cidade. Segundo a edição online do Notícias Lusófonas, a tarde de ontem viu cerca de um milhar de manifestantes a reivindicarem a continuidade do vice-consulado, recorrendo a conhecidas canções de intervenção, entre as quais constou a “Cantilena”, que foi musicada por Francisco Fanhais.
Muito embora este poema não tenha sido produzido com intenções políticas, a verdade é que a imagem do rouxinal impedido de voar por lhe terem cortado as asas constituiu um bom pretexto para a poesia e para a música de intervenção, tendo merecido a atenção de Fanhais na década de 1960.