quarta-feira, 31 de março de 2010

Dos associados (4) - António Osório - e de outros

Quatro leitores ligados à poesia – por serem poetas ou por terem escrito sobre poesia – estão juntos na organização de uma antologia da poesia portuguesa publicada em 2009. São eles José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas. A ideia surgiu com o patrocínio da FNAC, albergando mais de centena e meia de páginas, sob o título Resumo – A poesia em 2009 (Lisboa: Assírio & Alvim, 2010), por aqui passando 35 poetas portugueses contemporâneos com 115 poemas.

Que critérios? Uma nota de entrada esclarece: “O presente volume, a que desejavelmente se dará seguimento nos próximos anos, pretende ser uma antologia dos melhores poemas publicados em Portugal ao longo de 2009”. A escolha restringiu-se ao que foi publicado em suporte livro ou revista e é apenas “o simples somatório das preferências de quatro leitores”, sendo que, no índice, é indicado quem seleccionou o quê. Parte significativa dos textos é oriunda de publicações periódicas como Criatura (Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope) ou Telhados de Vidro (Lisboa: Averno).

Do nosso associado António Osório surge o poema “A antiga pensão”, aqui posto pela escolha de Tolentino Mendonça, poema que constou no grupo de inéditos incluído em A luz fraterna (Lisboa: Assírio & Alvim, 2009). Também circulam nesta antologia seis poemas de José Carlos Barros – “As páginas dos romances”, “Se ao menos nevasse”, “Os monstros”, “Do que a vida poderia ter sido”, “Um poema antigo” e “Bernardo Soares” –, autor que venceu a mais recente edição do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, em 2009, textos que resultaram de opções dos quatro leitores antologiadores.

As razões das opções são, portanto, individuais. Mas não há dúvida de que o leitor deste Resumo se confronta com um interessante conjunto do que foi a poesia portuguesa de 2009, por onde passam, além dos nomes já mencionados, os de A. M. Pires Cabral, Adília Lopes, Ana Salomé, António Barahona, António Madureira Rodrigues, António Ramos Pereira, Bénédicte Houart, David Teles Pereira, Diogo Vaz Pinto, Fernando Echevarría, Fernando Guerreiro, Herberto Helder, Isabel de Sá, João Almeida, João Luís Barreto Guimarães, Jorge Fazenda Lourenço, José António Almeida, José Tolentino Mendonça, Luís Filipe Parrado, Luís Serra, Manuel de Freitas, Miguel Martins, Nuno Rocha Morais, Paulo Teixeira, Pedro Braga Falcão, Renata Correia Botelho, Rosa Maria Martelo, Rui Almeida, Rui Miguel Ribeiro, Rui Pires Cabral, Tiago Araújo, Vasco Graça Moura e Vítor Nogueira. - JRR

sexta-feira, 26 de março de 2010

Um cd para Sebastião da Gama

“Meu caminho é por mim fora” é o primeiro verso do poema “Itinerário”, de Sebastião da Gama. É um verso lindo de viagem introspectiva, de caminhada poética, de percurso arrábido. É um verso que se encontra com essa ideia do traçar o próprio caminho que José Régio também poetou. É um verso que resume uma obra.
Foi por todas estas razões que esse foi o verso escolhido para dar título ao cd que a Associação Cultural Sebastião da Gama vai editar, com apresentação pública prevista para Maio. É, aliás, esta a resposta à adivinha lançada neste blogue num dos idos do mês de Fevereiro – o que reúne nomes como Rui Serodio, Célia David, Fernando Guerreiro, José Nobre, Maria Barroso e Maria Clementina é o facto de das suas vontades e colaborações ter resultado este cd. Rui Serodio compôs a música e todos os outros deram as vozes. Maria Barroso foi colega de curso e amiga de Sebastião da Gama; as outras quatro vozes têm dito muita poesia e têm mais uma característica comum – todas passaram pelo TAS (Teatro Animação de Setúbal), algumas delas ainda por lá fazendo história.
Capa do cd a ser editado pela Associação Cultural Sebastião da Gama

Dos 26 textos seleccionados (correspondentes a outras tantas faixas), dois são em prosa – um excerto do Diário a explicar o que é a poesia, que abre o conjunto de gravações, e a crónica sentida “Encarcerar a asa”, que foi o último texto que Sebastião da Gama escreveu e encerra o conjunto – e todos os restantes são poemas ordenados pela cronologia da sua produção. Responsáveis pela escolha dos textos foram João Reis Ribeiro e Maria Barroso.
O cd, numerado, é acompanhado por um libreto que contém a reprodução integral dos textos, fotografias de Sebastião da Gama e um pequeno texto introdutório assinado por Marcelo Rebelo de Sousa. A concepção gráfica deste projecto esteve a cargo de Jorge Calheiros e o seu desenvolvimento conta com a parceria de empresas e instituições como Câmara Municipal de Setúbal, Fundação Buehler-Brockhaus, Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação Oriente, Grupo Nabeiro - Delta Cafés, Junta de Freguesia de S.Lourenço (Azeitão), Junta de Freguesia de S. Simão (Azeitão) e Ramos & Varela SA.
Aceitam-se inscrições para reserva, que podem ser feitas via e-mail. – JRR

domingo, 21 de março de 2010

Hoje é o Dia Mundial da Poesia

Para este Dia Mundial da Poesia, António Osório escreveu a mensagem que se reproduz, divulgada pela Sociedade Portuguesa de Autores. Vale a pena lê-la, olhando o mundo em que estamos. E vale também a pena dizer que António Osório é nosso associado e que Rilke, o autor que António Osório cita, era uma das fontes de poesia que Sebastião da Gama lia e recomendava, justamente o título Cartas a um jovem poeta. Pela mão de Sebastião da Gama, vários poetas portugueses chegaram a Rilke, designadamente David Mourão-Ferreira... - JRR

'A poesia é ainda possível'? Montale, no discurso em que recebeu o Prémio Nobel de 1975, interroga-se sobre o papel que pode ter 'a mais discreta das artes', num tempo em que 'o homem civilizado chegou ao ponto de ter horror de si próprio'. Montale deixou-nos uma palavra de esperança – para a poesia 'que surge quase por milagre e parece condensar toda uma época', 'para essa poesia não há morte possível…'.
Mais de 30 anos passaram. Não haverá agora maiores motivos para se ficar inquieto quanto ao futuro? O mundo actual não é bem pior que o de 1975? Os drogados, a sida, os alunos que desrespeitam e agridem os professores, a brutalização da Europa, a crueldade recíproca entre árabes e judeus, o terrorismo internacional, as infindáveis guerras, a crise financeira que se apossou do mundo, tudo isto não são formas tenebrosas de desprezar a vida e a poesia?
Por outro lado, avulta o triunfo da 'mediocracia' e dos best sellers do sexo (La vie sexuelle de Catherine M. chegou aos 350.000 exemplares em França e foi traduzida em vinte línguas, a portuguesa inclusive, e, note-se, era um editor respeitável, as Éditions du Seuil…).
Mutatis mutandi, o mesmo se passou e passa entre nós. Os livros dos 'ases' do futebol e da televisão, que colhem fortunas …
Em contrapartida, as edições de poesia sofrem acentuada diminuição das tiragens. Os jovens universitários lêem cada vez menos, trocando a poesia, quando a trocam, pela 'prosa' multimilionária…
Repare-se no que ocorre com a televisão, o deus ex machina. Quando aparece a poesia, e só muito raramente aparece, vem longe dos ditos 'horários nobres'. E as páginas literárias estão acabando tristemente, o que conta é o futebol e as revistas do coração…
Que fazer contra esta maré negra, contra esta ocultação da poesia?
Infelizmente, ninguém vê hoje o poeta como o via Platão – 'uma coisa leve, alada e sagrada'. Os poetas são agora uns estranhos párias, uma espécie de sonhadores que andam nas nuvens.
A defesa da poesia cabe aos poetas. Muito tem resistido, têm que resistir mais ainda.
A experiência diz-me que as leituras de poesia nas escolas e nas universidades, pelos próprios poetas, o diálogo que tem de estabelecer com os alunos seus ouvintes é uma das melhores formas de humanizar o poeta e de chamar o interesse para a poesia que faz. E não se devem limitar estas leituras ao próprio país… Graças a Eugénio Lisboa e Patrick Quillier, fui primeiro traduzido para inglês e francês – e em Inglaterra e em França convivi com centenas de alunos.
Não basta o esforço isolado do poeta. O confinamento ao seu próprio país também lhe é nefasto.
Há menos de 20 anos, quantos poetas portugueses contemporâneos eram conhecidos no Brasil ou em Espanha? Impõe-se a ajuda crescente da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, e do Instituto Camões.
Não tenhamos dúvida sobre a nossa poesia actual. Ángel Crespo, um dos maiores lusitanistas e grande poeta, na sua Antologia de Poesia Portuguesa escreveu que 'la poesía portuguesa contemporânea muestra … una variedad tal de enfoques e soluciones que hacem de ella una de las mas significativas de nuestro tiempo'.
Tão-pouco nos devemos confinar a uma ironia sarcástica contra um mundo cruel.
Sem dúvida, a poesia terá de ser um 'refúgio' contra a voragem tecnocrática, contra o desrespeito pela beleza do mundo, contra a destruição da paisagem. Os seus são os valores da vida, a poesia é, como Croce sempre defendeu, a 'palavra cósmica', uma forma de não se submeter, mas de se indignar, de estar ao lado dos humilhados, uma afirmação humanista.
Retenhamos estas palavras de Rainer Maria Rilke, nas suas Cartas a um jovem Poeta: 'ser artista é amanhecer como as árvores, que não duvidam da própria seiva e que enfrentam tranquilas as tempestades da Primavera, sem recear que o Verão não chegue'.
Teremos de ser como elas, que não põem em causa a própria seiva e que resistem às tempestades da Primavera. Contra o desprezo pela poesia, oponhamos a nossa perseverante defesa. E ofereçamos os nossos livros, com um gesto fraterno.

quarta-feira, 17 de março de 2010

A Associação reuniu-se com a Câmara de Setúbal e com a Junta de Freguesia de S. Lourenço

A Câmara Municipal de Setúbal está a fazer o périplo das freguesias sob o lema “Ouvir a população, construir o futuro”, encontrando-se em visita e reuniões em Azeitão. Na noite de ontem, a autarquia promoveu uma reunião com a Direcção da Associação Cultural Sebastião da Gama, na sede da Junta de Freguesia de S. Lourenço (Azeitão). Estiveram presentes, por parte da Câmara Municipal, a Presidente, Maria das Dores Meira, e os vereadores André Martins, Carlos Rabaçal, Carla Guerreiro e Rui Higino, além de alguns técnicos da área sócio-cultural; a Junta de Freguesia de São Lourenço esteve representada pela sua Presidente, Celestina Neves, e por David Marques; em nome da nossa Associação estiveram o Presidente da Direcção, João Reis Ribeiro, e Nicolau da Claudina.
Esta reunião serviu para apresentar as nossas intenções para este ano: continuação da digitalização do espólio de Sebastião da Gama; promoção de sessões de divulgação sobre a obra e a vida de Sebastião da Gama em escolas ou outras instituições; edição do “Boletim Informativo”; apoio a estudiosos cujos trabalhos passem pela obra de Sebastião da Gama; colaboração com outras instituições que promovam acções relacionadas com o nosso patrono (designadamente, o Coral Infantil de Setúbal, que vai promover um concerto a partir da figura e da obra de Sebastião da Gama); edição de um cd contendo textos de Sebastião da Gama; participação na Comissão de Acompanhamento da candidatura da Arrábida a Património Mundial; apoio à edição e divulgação das obras de Sebastião da Gama e a obras que o estudem; colaboração na celebração do Dia Municipal da Arrábida e de Sebastião da Gama (em Abril); colaboração na organização do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama.
Da parte dos autarcas houve o reconhecimento do trabalho que a nossa Associação tem levado a cabo, bem como a garantia do apoio a ser prestado pelas autarquias no que à promoção deste marco azeitonense que é a figura de Sebastião da Gama respeite e o apelo à continuidade das acções que a Associação Cultural Sebastião da Gama tem levado a cabo. - JRR

quarta-feira, 10 de março de 2010

Dos associados (3) - José Raposo

O Setubalense: 10.Março.2010.
O nosso associado José Alberto Carmo Raposo é o autor da letra da "Grande Marcha de Lisboa" para 2010, a que foi dado o título de "Lisboa Menina".
Detentor de vários prémios em concursos de poesia, José Raposo (como assina a sua produção literária) é natural de Santiago do Cacém, onde nasceu am 1947. Vive em Setúbal desde 1972, depois de a vida o ter levado a Beja, Coimbra, Lisboa e Angola. Junto ao Sado exerceu a profissão de técnico de farmácia até há bem pouco tempo. Há quatro anos, teve publicado o seu primeiro livro de poesia - Afectos e cumplicidades (Setúbal: ed. Autor, 2006) - em cujo prefácio escreveu Luís Graça: "O poeta que mora nestes versos tem a transcendência das coisas simples. Verseja na linha alentejana das saias, mas sem a preocupação da rima obrigatória, todavia certeira e certinha, como se fora um bordado."
Aqui se reproduz o excerto do jornal O Setubalense de hoje, que dá a notícia. Aqui felicitamos a dupla José Raposo e Carlos Pinto. - JRR

segunda-feira, 8 de março de 2010

A paisagem que Sebastião da Gama cantou entre as "Maravilhas Naturais"

A paisagem que Sebastião da Gama enalteceu na sua poesia – as faces da Arrábida, a sua “serra-mãe” – está entre as finalistas para o concurso das “Sete Maravilhas Naturais de Portugal”, ontem divulgadas.

Sebastião da Gama contemplando a Arrábida, com o Portinho ao fundo (Maio de 1943)

No princípio, eram 323; passaram, depois, a 77; agora, são 21; a partir de Setembro, serão 7. O concurso iniciou-se com 323 candidaturas, de que um júri escolheu 77 e, depois de uma escolha monitorizada, ficou reduzido a 21 opções, a partir de agora à espera dos votos portugueses até que, em Setembro, sejam reveladas as maravilhas eleitas.
As paisagens finalistas estão agrupadas em sete núcleos: “Florestas e matas”, “Grandes Relevos”, “Grutas e Cavernas”, “Praias e Falésias”, “Zonas Marinhas”, “Zonas não Marinhas” e “Zonas Protegidas”. A região de Setúbal está presente em três categorias: o Parque Natural da Arrábida, nos “Grandes Relevos” (onde estão também a Paisagem Vulcânica da Ilha do Pico e o Vale Glaciar do Zêzere); o Portinho da Arrábida, nas “Praias e Falésias” (concorrendo com o Pontal da Carrapateira e a Praia de Porto Santo); e o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, nas “Zonas Protegidas” (a par com o Parque Natural da Peneda-Gerês e Reserva Natural da Lagoa do Fogo).
Mais informações aqui.

sábado, 6 de março de 2010

"Serra-Mãe" premiado em Paris

“Serra-Mãe” foi o nome dado à serra da Arrábida por Sebastião da Gama num poema que integra o seu primeiro livro, também intitulado Serra-Mãe, cuja primeira edição data de 1945.
Mas “Serra-Mãe” virou também marca de vinho há alguns anos, a partir da casta “castelão” (periquita), classificado como DOC, engarrafado pela empresa Sivipa – Sociedade Vinícola de Palmela. Assim, a “Serra-Mãe” tem andado por longe, por muitas mesas e satisfazendo o gosto de muitos apreciadores.
E tem obtido prémios. Como a medalha de ouro que foi agora atribuída ao “Serra-Mãe Reserva” nas Vinalies Internationales 2010, que tiveram lugar em Paris entre 26 de Fevereiro e 2 de Março. Eram 3500 vinhos a concurso, para Portugal vieram 74 medalhas (21 de ouro e 53 de prata). E "Serra-Mãe" assim vai indo mais longe, dando nome também a um produto da região.

José Mattoso e a “ideia para Portugal”, citando Sebastião da Gama

É a segunda personalidade a reflectir sobre uma “ideia para Portugal”, em texto-depoimento que saiu na edição do Público de hoje. Escrito poderoso, sem rodeios, assente na cultura (incluindo o recurso a um poema de Sebastião da Gama), de que transcrevo alguns excertos, alinhados nos subtítulos originais:
História e previsão – “(…) Na verdade, não podemos cultivar ilusões. O mundo será sempre o mesmo: com hegemonia americana, europeia ou chinesa, com globalização ou sem ela, com revoluções ou governos estáveis, com guerras ou com a paz, teremos sempre de contar com o sofrimento, a desigualdade social, a luta pela vida, a morte. (…) Se me perguntam o que espero para Portugal nos próximos anos, devolveria a pergunta aos economistas e sociólogos. Sem ilusões, é claro. Em tempos de crise, como a actual, as suas previsões podem traduzir probabilidades, mas também a intenção oculta de influenciar a opinião pública para tranquilizar os investidores, beneficiar o funcionamento normal da máquina financeira ou favorecer os sectores políticos a que estão ligados. Raramente revelarão informações seguras, ou seja, estatísticas exactas, completas e significativas. A manipulação estatística é uma arma poderosa. (…) As previsões "científicas" ignoram o inesperado, como aconteceu no 11 de Setembro. (…)”
Identidade nacional – “(…) Que se pode, então, esperar do futuro próximo de Portugal em virtude de factores identitários ou estruturais? (…) Notemos a diferença entre o Portugal atlântico e o interior, o densamente povoado e o desertificado, o citadino e o que resta do rural. (…) Um país feito de bocados que nada consegue unir. Acontece não só nas estruturas socioeconómicas, mas também na produção cultural, cuja "norma" é a "descontinuidade de saltos geracionais" (Eduardo Lourenço, citado por Miguel Real), e a esterilidade institucional das obras geniais (Fernão Lopes, Nuno Gonçalves, Vieira, Pessoa, Amadeu, Antero...). Daí o "irrealismo", acentuado por Eduardo Lourenço, tanto do discurso patriótico alimentado pela epopeia dos Descobrimentos e assumido pelo Estado Novo, como do pessimismo decadentista dos Vencidos da Vida, ambos resultantes do complexo de inferioridade nacional. (…)”
Desencanto – “Daí os protestos dos poetas: Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo... meu remorso / meu remorso de todos nós (Alexandre O"Neill); O país que tinha já de si pequeno / fizeram-no pequeno para mim / os donos das pessoas e das terras / os vendilhões das almas no templo do mundo (Ruy Belo); Portugal / país defunto talvez unto para nações vivas / Portugal meu país de desistentes (Ruy Belo); Meu país desgraçado! / Por que fatal engano? Que malévolos crimes / teus direitos de berço violaram? (Sebastião da Gama); Este país te mata lentamente. / País que tu chamaste e não responde. / País que tu nomeias e não nasce. (Sophia de Mello Breyner Andresen); Pátria magra - meu corpo figurado / Meu pobre Portugal de pele e osso! / Nada na tua imagem se alterou: / A casca e o caroço / dum sonho que mirrou (Miguel Torga). Depois dos entusiasmos criados pelas expectativas da integração na Europa, os portugueses descobrem que os níveis de vida, a educação elementar, a cultura, as capacidades técnicas, a competitividade económica, o funcionamento das instituições, o desempenho da justiça, a eficiência do regulamento jurídico, continuam tão longe dos níveis da Europa como sempre foram. O 'atraso' português é uma dura realidade. (…)”
Saber durar – “(…) Uma das descobertas mais simples e mais irrecusáveis do após 25 de Abril é que Portugal é um país como os outros. Sem missão providencial, sem Quinto Império, sem realizações espectaculares, sem lugar especial no mundo, apesar dos Descobrimentos. Com alguns génios, reais, mas não muito numerosos. Não é provável que para ele se desloque o centro do mundo, ou venha a desempenhar um papel de relevo na confrontação das civilizações. (…) A aceitação do quotidiano pode também significar a libertação tanto dos complexos de inferioridade como da paranóia colectiva. (…) Deve, ser tomado não como programa pessoal sustentado a qualquer preço, mas como convite à resistência quotidiana, à inteligência na busca de soluções possíveis, à busca da solidariedade social, de partilha do bom e do mau, de honestidade e persistência no trabalho, de aceitação da responsabilidade, de sabedoria. (…) O que os nossos antepassados nos ensinam, é isso mesmo - não proclamar glórias quinhentistas que não são nossas, mas de quem as viveu; não declinar responsabilidades inerentes à vida em sociedade; não lamentar vícios nacionais, mas combatê-los; não cultivar utopias enganadoras ou esperanças vãs, mas ser realista e pragmático. Por mais moralista que este discurso pareça (ou seja!), não creio que possamos dispensar-nos de pensar assim, nesta época de dúvidas tão radicais acerca do nosso futuro como as que resultam da globalização, da comunicação em 'tempo real', do domínio da técnica sobre a biologia, da facilidade com que se compra o armamento, da irresponsabilidade com que se agride a natureza. (…)”
O lugar dos justos – “(…) Não acredito numa ideia para Portugal senão baseada no respeito pelo Homem e pela sua dignidade. (…) O que a vida me tem ensinado é que existem mais 'justos' neste mundo do que se pode saber através dos jornais. Há muitas formas de santidade oculta, nem que seja por meio do sofrimento assumido, do apaziguamento, da noção do dever. A religião católica aliada ao individualismo atrofiou o conceito de 'justo'. (…) Os 'justos' são a porção viva e sã, mas escondida, da comunidade a que pertencem. Garantem a sua capacidade de regeneração. (…) Talvez isso sirva de antídoto contra a desilusão que nos causam os poderosos da finança, da política ou do espectáculo. (…)”

sexta-feira, 5 de março de 2010

Memórias e testemunhos (2): António Quaresma Rosa

"Não fui seu aluno nem o conheci na sua forma fisica. Fui, no entanto, aluno, a partir dos anos 50 do século passado, de uma plêiade de professores que, na 'Escola da Saboaria', seguiam o seu comportamento e nos souberam transmitir a mística do que viria a ser o Diário.
No 'Primeiro de Dezembro' de 1951, na festa tradicional da Escola, na antiga Sala Ferreira de Sousa (actual União Setubalense), os (e as) mais 'prendados' alunos, entre outras coisas, recitavam. De entre as alunas era a Alina Vaz, do Barreiro ou do Montijo (já não sei bem), que mais se destacava. Disse ela (já o tinha feito na semana anterior, na festa de anos do Director - Eng. Athayde de Medeiros, assim mesmo escrito, que era dos Açores) um poema de um ex-professor, que tinha ido para Estremoz, tirado de um livro que se chamava 'Arrábida mãe'... Não, era Serra-Mãi, já antigo... pelo aspecto das folhas tão repassadas, tinha que ser antigo...
Alguns meses depois, já no 2º período, soube-se, não sei por quem, que aquele professor tinha morrido!
A Alina Vaz e outros alunos, nos 'Primeiro de Dezembro' seguintes, continuaram lendo poemas daquele velho livro..."
António Quaresma Rosa (via mail)

quinta-feira, 4 de março de 2010

Sebastião da Gama em Pegões

Há uns meses - já para lá de um ano - estive na Escola Básica 2, 3 de Pegões para apresentar Sebastião da Gama aos alunos. Recordo-me que foi uma sessão interessante, com muitos jovens interessados e atentos. Ontem, voltei à mesma escola, mas desta vez para uma sessão de conversa com professores sobre estoutro professor e também poeta que foi Sebastião da Gama. Pareceu-me sentir o encanto da entrada ou da vivência das pessoas no círculo de Sebastião, tão interessadas elas se mostraram pela visão poética que ressalta da sua pedagogia.
Falou-se de poesia, de livros, de literatura, de escola, de ensino, da Arrábida, do sentimento posto ou a pôr nas coisas que fazemos. "Era bom que fôssemos professores assim!". "É o que devemos tentar em todos os dias da nossa escola!"
Tive de chamar o Diário a terreiro para dizer que tivesse ele sido escrito por um autor estrangeiro e, de certeza, seria objecto de estudo obrigatório na formação de professores, fosse ela inicial ou contínua. Até alvitrei mais: além de leitura obrigatória para professores, também leitura obrigatória para políticos, sobretudo para os que se dedicam à área da educação; e, já agora, também para pais. Não para defesa dos professores, mas para se saber o que é ser professor e o que é viver e lutar por valores na área da educação. As coisas correriam bem melhor, imagino! - JRR

quarta-feira, 3 de março de 2010

Poema para Sebastião da Gama, por Alexandrina Pereira

Nasceu em cada verso
(ainda bem que nasceu!)
cada Poema
é um hálito de rosas...

Hora de paz bendita
enquanto a Serra e o Céu
matizam a paisagem
de uma beleza infinita.

E quando o Poeta escreveu:
“Quando nasci, não houve nada de novo
senão eu.”
Foi extrema a sua humildade
Tão humilde que nem se apercebeu
que no dia em que nasceu
uniram-se a Terra e o Céu
num abraço de bondade.

Alexandrina Pereira
[Poema recuperado de um comentário deixado a um postal aqui publicado recentemente.]

Dos associados (2): Artur Vaz

A última obra de Artur Vaz, nosso associado, foi apresentada publicamente no final de Janeiro, no Montijo, biografando um nabantino que, em 1896, quando tinha 10 anos, passou a viver na então Aldegalega do Ribatejo, designação que antecedeu a da cidade do Montijo – falo do livro Álvaro Valente – O homem e a obra (Montijo: Câmara Municipal do Montijo, 2010).
Num percurso de quase duas centenas de páginas (em que 70 são preenchidas com anexos, resultantes da pesquisa efectuada por Artur Vaz), a biografia de Álvaro Valente (1886-1965) passa, também documentada em muitas fotografias, delineada em quatro etapas – “O Apóstolo” (traçando o itinerário desta personalidade em termos familiares e como republicano, ligado ao movimento associativo e à corporação de bombeiros), “Soldado da paz” (reconhecendo o seu papel na organização dos bombeiros, quer a nível local, quer nacional, com intervenções públicas sucessivas e aparecendo ligado a três momentos altos da sua história – a criação dos Bombeiros Voluntários do Montijo, o nascimento da Liga dos Bombeiros e a autoria do lema “Vida por vida”, que ainda hoje anima as corporações dos soldados da paz), “Maçon” (evocando a passagem de Álvaro Valente, com o nome de Dante, pela organização maçónica, na loja montijense “Virtude” e na Junta Local do Livre Pensamento de Aldegalega) e “Escritor” (dando conta do contributo do biografado para os estudos locais, para a imprensa regional e para a literatura e revelando alguns dos seus textos ainda inéditos).
A leitura desta obra torna-se interessante pelo cruzamento que o autor vai fazendo com os escritos do biografado, importante fonte das suas informações, e com uma caracterização das épocas e dos ambientes que Álvaro Valente frequentou e em que interveio, para o que Artur Vaz se socorreu de uma pesquisa exaustiva.
A título de curiosidade, dois espaços de escrita houve em que o nome de Álvaro Valente se cruzou com o de Sebastião da Gama, ambos ancorados na imprensa montijense – refiro-me aos periódicos Gazeta do Sul e A Província, em que ambos os autores colaboraram: no primeiro, publicou Sebastião da Gama textos poéticos em 21 edições, no período entre 1940 e 1943, usando o pseudónimo de Zé d'Anicha, facto que Artur Vaz menciona, ainda que só referindo a publicação de quadras, que abrangeu nove números do jornal; no segundo, em 1949, ano de aparecimento do semanário, publicou Sebastião da Gama quatro textos, sendo duas colaborações com poesia e duas com texto ensaístico. - JRR