sábado, 6 de março de 2010

José Mattoso e a “ideia para Portugal”, citando Sebastião da Gama

É a segunda personalidade a reflectir sobre uma “ideia para Portugal”, em texto-depoimento que saiu na edição do Público de hoje. Escrito poderoso, sem rodeios, assente na cultura (incluindo o recurso a um poema de Sebastião da Gama), de que transcrevo alguns excertos, alinhados nos subtítulos originais:
História e previsão – “(…) Na verdade, não podemos cultivar ilusões. O mundo será sempre o mesmo: com hegemonia americana, europeia ou chinesa, com globalização ou sem ela, com revoluções ou governos estáveis, com guerras ou com a paz, teremos sempre de contar com o sofrimento, a desigualdade social, a luta pela vida, a morte. (…) Se me perguntam o que espero para Portugal nos próximos anos, devolveria a pergunta aos economistas e sociólogos. Sem ilusões, é claro. Em tempos de crise, como a actual, as suas previsões podem traduzir probabilidades, mas também a intenção oculta de influenciar a opinião pública para tranquilizar os investidores, beneficiar o funcionamento normal da máquina financeira ou favorecer os sectores políticos a que estão ligados. Raramente revelarão informações seguras, ou seja, estatísticas exactas, completas e significativas. A manipulação estatística é uma arma poderosa. (…) As previsões "científicas" ignoram o inesperado, como aconteceu no 11 de Setembro. (…)”
Identidade nacional – “(…) Que se pode, então, esperar do futuro próximo de Portugal em virtude de factores identitários ou estruturais? (…) Notemos a diferença entre o Portugal atlântico e o interior, o densamente povoado e o desertificado, o citadino e o que resta do rural. (…) Um país feito de bocados que nada consegue unir. Acontece não só nas estruturas socioeconómicas, mas também na produção cultural, cuja "norma" é a "descontinuidade de saltos geracionais" (Eduardo Lourenço, citado por Miguel Real), e a esterilidade institucional das obras geniais (Fernão Lopes, Nuno Gonçalves, Vieira, Pessoa, Amadeu, Antero...). Daí o "irrealismo", acentuado por Eduardo Lourenço, tanto do discurso patriótico alimentado pela epopeia dos Descobrimentos e assumido pelo Estado Novo, como do pessimismo decadentista dos Vencidos da Vida, ambos resultantes do complexo de inferioridade nacional. (…)”
Desencanto – “Daí os protestos dos poetas: Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo... meu remorso / meu remorso de todos nós (Alexandre O"Neill); O país que tinha já de si pequeno / fizeram-no pequeno para mim / os donos das pessoas e das terras / os vendilhões das almas no templo do mundo (Ruy Belo); Portugal / país defunto talvez unto para nações vivas / Portugal meu país de desistentes (Ruy Belo); Meu país desgraçado! / Por que fatal engano? Que malévolos crimes / teus direitos de berço violaram? (Sebastião da Gama); Este país te mata lentamente. / País que tu chamaste e não responde. / País que tu nomeias e não nasce. (Sophia de Mello Breyner Andresen); Pátria magra - meu corpo figurado / Meu pobre Portugal de pele e osso! / Nada na tua imagem se alterou: / A casca e o caroço / dum sonho que mirrou (Miguel Torga). Depois dos entusiasmos criados pelas expectativas da integração na Europa, os portugueses descobrem que os níveis de vida, a educação elementar, a cultura, as capacidades técnicas, a competitividade económica, o funcionamento das instituições, o desempenho da justiça, a eficiência do regulamento jurídico, continuam tão longe dos níveis da Europa como sempre foram. O 'atraso' português é uma dura realidade. (…)”
Saber durar – “(…) Uma das descobertas mais simples e mais irrecusáveis do após 25 de Abril é que Portugal é um país como os outros. Sem missão providencial, sem Quinto Império, sem realizações espectaculares, sem lugar especial no mundo, apesar dos Descobrimentos. Com alguns génios, reais, mas não muito numerosos. Não é provável que para ele se desloque o centro do mundo, ou venha a desempenhar um papel de relevo na confrontação das civilizações. (…) A aceitação do quotidiano pode também significar a libertação tanto dos complexos de inferioridade como da paranóia colectiva. (…) Deve, ser tomado não como programa pessoal sustentado a qualquer preço, mas como convite à resistência quotidiana, à inteligência na busca de soluções possíveis, à busca da solidariedade social, de partilha do bom e do mau, de honestidade e persistência no trabalho, de aceitação da responsabilidade, de sabedoria. (…) O que os nossos antepassados nos ensinam, é isso mesmo - não proclamar glórias quinhentistas que não são nossas, mas de quem as viveu; não declinar responsabilidades inerentes à vida em sociedade; não lamentar vícios nacionais, mas combatê-los; não cultivar utopias enganadoras ou esperanças vãs, mas ser realista e pragmático. Por mais moralista que este discurso pareça (ou seja!), não creio que possamos dispensar-nos de pensar assim, nesta época de dúvidas tão radicais acerca do nosso futuro como as que resultam da globalização, da comunicação em 'tempo real', do domínio da técnica sobre a biologia, da facilidade com que se compra o armamento, da irresponsabilidade com que se agride a natureza. (…)”
O lugar dos justos – “(…) Não acredito numa ideia para Portugal senão baseada no respeito pelo Homem e pela sua dignidade. (…) O que a vida me tem ensinado é que existem mais 'justos' neste mundo do que se pode saber através dos jornais. Há muitas formas de santidade oculta, nem que seja por meio do sofrimento assumido, do apaziguamento, da noção do dever. A religião católica aliada ao individualismo atrofiou o conceito de 'justo'. (…) Os 'justos' são a porção viva e sã, mas escondida, da comunidade a que pertencem. Garantem a sua capacidade de regeneração. (…) Talvez isso sirva de antídoto contra a desilusão que nos causam os poderosos da finança, da política ou do espectáculo. (…)”

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