quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Arrábida, a serra de um Poeta

“Arrábida – Serra de um Poeta” é filme de cerca de dez minutos com que Miguel Brazuna se apresentou ao concurso “Arrábida – Curtas e Doc’s 2011”, promovido pela AMRS no âmbito da candidatura da Arrábida a Património Mundial.
O filme, disponível no Youtube, percorre imagens da Arrábida numa ligação com a mensagem da poesia de Serra Mãe, o primeiro livro de Sebastião da Gama (Lisboa: Portugália Editora, 1945).
Relativamente a uma nota que aparece no final do filme sobre a ligação do poeta à criação da Liga para a Protecção da Natureza, bastará precisar que a Liga foi criada em 1948, na sequência de uma carta que, no verão de 1947, Sebastião da Gama fez chegar a um professor do Instituto Superior de Agronomia clamando pela protecção da Mata do Solitário. Sebastião da Gama não foi membro fundador da LPN, mas a criação daquela que é a mais antiga organização não governamental em prol do ambiente surgiu após ter sido ouvida a voz do poeta.
Reconheça-se que este filme está repleto de sensibilidade, podendo-se perscrutar os versos de Sebastião da Gama através das imagens, seja pelo descobrir a vida que alimenta a serra, seja pelas visões de pormenor sobre a Natureza, seja pelos planos que se confundem com o horizonte. Ao leitor atento, não passarão ao lado sonoridades e imagens que ressaltam da poesia do autor que, um dia, chamou à serra “mãe”… - JRR


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Sebastião da Gama e a música (das palavras)

Na sua poesia, Sebastião da Gama foi sensível à música, aparecesse ela como “canto”, “hino”, “som” ou “música” mesmo. São vários os poemas que publicou em que a arte musical se manifesta – recorde-se, por ordem de publicação, um poema de cada um dos três livros que o poeta editou: “Vida” (“Hoje, cá dentro, houve festa... / E, se houve festa e veludos, / e música azul, e tudo / quanto digo, / foi somente porque a Graça / desceu hoje a visitar-me.”), em Serra Mãe (1945); “As Fontes” ("De todas as aldeias / vieram, cantando, as moças / encher as bilhas. // E eu fui também cantando ao som das águas… / Cantava as minhas mãos, cantava as fontes.”), em Cabo da boa esperança (1947); “Manhã no Sado” (“Ali, à beira-rio, / de olhos só para o rio, de ouvidos surdos / ao que não é a música das águas, / um sossego alegórico persiste.”), em Campo aberto (1951).
No próprio Diário, ao refletir sobre a poesia e sobre a palavra, várias vezes o professor Sebastião da Gama se referiu à música. Vale a pena determo-nos sobre estes dois curtos excertos: “ser Poeta, tinha eu pensado dizer-lhes, é estar encantado ou desencantado e contá-lo com palavras que pareçam música” (9 de Março de 1949) e “A palavra, para os gramaticómanos, é um cadáver numa mesa de anatomia; quem pode amar um cadáver? Depois da dissecação do estilo, a beleza, a música, a personalidade de cada palavra já não pode ser gostada pela criança, receosa de errar o género, o número, a forma da palavra que tem em frente; e receosa do oito, do sete, do seis da tabela; e receosa do ponteiro com que certos professores ensinam, impõem a gramática.” (16 de Março de 1949).
Mas Sebastião da Gama tinha também a preocupação pedagógica de passar esta mensagem musical para o leitor, por mais simples que ele fosse, explicando-lhe a relação da arte musical com a palavra e com o som. E foi assim que, numa crónica publicada no Jornal do Barreiro, em 24 de Agosto de 1950, intitulada “Sobre a Poesia”, se preocupou em simplificar esse casamento entre a poesia e o canto: “No povo inculto e na criança é que a verdade acerca da Poesia está guardada; é que o conceito de Poesia se mantém ingénuo. Pois não começou a Poesia por ser o puro canto?” Esta abordagem de Sebastião da Gama torna-se radical, subscrevendo o que um amigo seu dissera – os poemas deviam ser gravados em discos em vez de ser em papel… porque os versos são “para serem ouvidos, não para serem lidos”. Esta atitude “revolucionária” não é isenta de riscos, como Sebastião da Gama o nota – é que, logo a seguir, distingue os versos ditos pelo poeta dos versos ditos por outrem, porque, acima de tudo, só os poetas saberiam dizer os seus poemas “em intimidade”, isto é, “em plena comunhão com a palavra, com a perfeita compreensão dos mínimos pormenores”.
Este afeto pela palavra transmitiu-o o poeta azeitonense aos que lhe eram mais próximos, além de ele próprio o ter praticado. Recordo-me do poeta Miguel de Castro, levado para a poesia por Sebastião da Gama (que até o ajudou a criar o pseudónimo), demorar bastante tempo a ultimar um poema – é que o poema só adquiria a sua forma perfeita quando o poeta o conseguisse dizer tomando o sabor das palavras e das imagens e satisfazendo-se com esse prazer. Um trabalho de poeta, afinal… - JRR
(in Coralíssimo. Setúbal: Coral Infantil de Setúbal, nº 23, 20 de novembro de 2011, pg. 8)