segunda-feira, 30 de maio de 2011

Paulo Assim venceu Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2011

O Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2011 foi atribuído ao trabalho Retrato a Sépia, apresentado sob o pseudónimo Paulo Lódão, correspondente ao autor Paulo Jorge Coelho Carreira.
Dos 234 trabalhos apresentados a esta 13ª edição do concurso, o júri (constituído por Arlindo Mota, João Reis Ribeiro e José António Chocolate Contradanças) foi unânime na decisão, considerando Retrato a Sépia “uma obra que se revela como um livro homogéneo, sequencial, interessante”, dotado de “uma poesia aparentemente simples, intuitiva, muito fresca e cativante”, num percurso “de memórias que ruma à infância, a tempos idos, fazendo-se dum encadeamento descritivo, duma sequência de retratos a sépia onde contrasta a vivacidade dos intérpretes, dos lugares e das acções, numa linguagem de grande riqueza metafórica”.
A entrega do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama deste ano, bem como a apresentação pública da obra vencedora, está marcada para 12 de Junho, pelas 21h30, na Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, em Vila Nogueira de Azeitão.
Paulo Jorge Coelho Carreira, nascido em Porto de Mós (1965) e a residir na Batalha, exercendo a profissão de desenhador de moldes, já recebeu vários prémios literários nas modalidades de conto e poesia. Sob o pseudónimo de Paulo Assim, publicou A Quinta-feira dos Pássaros (Ponta Delgada: Veraçor, 2010), romance que lhe valeu os prémios Paul Harris (2005) e Gaspar Fructuoso (2009), e Celulose (Lugar da Palavra Editora, 2010), livro premiado com o Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres em 2010.
Recorde-se que o Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama foi certame criado em 1988, em Azeitão, pelas Juntas de Freguesia de S. Lourenço e de S. Simão, e teve realização anual até 1993 (6ª edição). A partir daí, passou a ser um concurso bienal até à sua 10ª edição, tendo, depois sofrido interrupção. O certame foi retomado em 2007 (11ª edição). O primeiro trabalho vencedor deste Prémio, em 1988, foi a obra Água das Pedras, assinado pelo pseudónimo Maria Helena Salgado, correspondendo à autora Maria do Rosário Pedreira, escritora e editora reconhecida. Outros vencedores das várias edições deste Prémio foram Hugo Santos (1989 e 1991), Maria Graciete Besse (1992), Graça Pires (1993), João Carlos Lopes Pereira (1995), Alberto Marques (1997), António Menano (2001), Amadeu Baptista (2007) e José Carlos Barros (1990 e 2009). Além do primeiro vencedor, outros trabalhos que obtiveram o primeiro lugar nas várias edições deste Prémio tiveram publicação: Uma Abstracção Inútil, de José Carlos Barros (Évora: Declives, 1991); O Aprendiz de Ventos, de Hugo Santos (Lisboa: Vega /Ulmeiro, 1992); Errâncias, de Maria Graciete Besse (Lisboa: 1992); Labirintos, de Graça Pires (Murça: Câmara Municipal de Murça, 1997); O Bosque Cintilante, de Amadeu Baptista (Azeitão: Juntas de Freguesia de S. Lourenço e de S. Simão, 2007).
A edição deste ano do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama teve organização conjunta das Juntas de Freguesia de Azeitão (S. Lourenço e S. Simão) e da Associação Cultural Sebastião da Gama, em parceria com a Câmara Municipal de Setúbal e com a Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense.

Sebastião da Gama no Festival de Música de Setúbal

A 1ª edição do Festival de Música de Setúbal aconteceu entre 27 e 29 de Maio, numa organização conjunta da Câmara Municipal de Setúbal e do The Helen Hamlyn Trust, que tomou por palco vários espaços do concelho e envolveu associações, escolas, bandas e nomes já consagrados como Pedro Caldeira Cabral ou o azeitonense Pedro Carneiro.
Vários poemas de Sebastião da Gama entraram no Festival graças à participação do externato “Rumo ao Sucesso”, de Azeitão, que, com um grupo de jovens com necessidades educativas especiais, interveio no Auditório da Anunciada, no primeiro dia do certame, interpretando os textos “O Sonho” (1951), “Somos de Barro” (1951), “Cantilena” (1946), “Madrigal” (1946), “Pequeno Poema” (1945), “O Menino Grande” (1946), “Claridade” (1944) e “Canção da Felicidade” (1946).
De acordo com texto do catálogo, da responsabilidade do estabelecimento de ensino azeitonense, a motivação veio a partir de um registo de Sebastião da Gama, datado de 9 de Março de 1949 (“O poeta beija tudo, graças a Deus…”), entrada do Diário que deu ao grupo escolar a “ideia de utilizar a poesia do poeta Sebastião da Gama, visto ser um poeta natural de Azeitão, onde o nosso colégio se situa, e o seu enamoramento pela Arrábida uma das suas fontes de inspiração.”

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Quatro poetas da "Távola Redonda" no Palácio Fronteira

A geração literária ligada à revista Távola Redonda (1950-1954) foi objecto de um ciclo de poesia promovido pela Fundação das Casas de Fronteira e Alorna no mês de Maio, sessões que decorreram no Palácio Fronteira, em Lisboa.
Este ciclo integrou quatro sessões, realizadas em 10, 12, 17 e 19 de Maio, cada uma delas dedicada a um autor que colaborou na revista: Cristovam Pavia (1933-1968), David Mourão-Ferreira (1927-1996), Matilde Rosa Araújo (1921-2010) e Sebastião da Gama (1924-1952), respectivamente. Cada sessão foi composta por uma apresentação do autor em destaque e pela leitura de um leque variado dos seus poemas, alguns deles comentados pelo respectivo apresentador.
Fernando J. B. Martinho apresentou Cristovam Pavia como “o poeta que alcança a sua maturidade muito precocemente”. Situando-se no grupo dos católicos progressistas, tinha profunda ligação aos lugares da infância (época que lhe serviu como um “lugar de ouro”), valorizados através de uma poesia introspectiva, de contemplação, assim aparecendo como continuador da poesia presencista. Detentor de uma poesia de dimensão religiosa, nela se afirma a simplicidade dos meios expressivos, a riqueza das imagens. Para Fernando J. B. Martinho, a poesia de Pavia é “muito límpida, muito pura, profundamente elegíaca”, assim se integrando na tradição lírica portuguesa, mas notando-se que existe assinalável “conhecimento da tradição moderna portuguesa”, sobretudo pelas ligações a António Nobre, Sá Carneiro ou a poetas brasileiros como Vinicius de Morais, Jorge de Lima, Manuel Bandeira ou Cecília Meireles.
A poesia de David Mourão-Ferreira foi apresentada por Clara Rocha, que chamou a atenção para linhas de leitura relacionadas com o tempo e com a memória. Relativamente ao primeiro tópico, assinalou a importância da simbologia associada ao ciclo diário (o dia, a noite, a luz), ao valor da medida do instante (assinalando acontecimento, epifania). Quanto ao significado da memória, Clara Rocha aproximou-a dos tempos da infância, da adolescência ou das leituras de referência, vendo a memória como “antídoto quanto ao passar do tempo”, como “um dispositivo de reapropriação dos momentos vitais”. Importantes também nesta dimensão são os lugares, em que, se Lisboa surge (com os seus bairros e as pessoas) como “chave”, já a Europa se apresenta como “o grande lugar”. Clara Rocha considerou ainda a “estreita ligação” entre a tradução e a produção poética em Mourão-Ferreira, defendendo que “a aproximação aos autores europeus e aos clássicos lhe deu a mestria da sua própria poesia.”
A faceta poética de Matilde Rosa Araújo teve a leitura de Violante Magalhães, que enquadrou a autora na perspectiva da valorização do lirismo e da autenticidade, marcas que foram apanágio da Távola Redonda. Apesar de a infância ser um tema forte e omnipresente em Matilde Rosa Araújo, temas como a passagem do tempo, a solidão do sujeito, a morte e a fidelidade à tradição lírica pontuam a sua poesia. Para Violante Magalhães, os heróis da escrita de Matilde Rosa Araújo são os humildes (crianças, idosos, varredores, etc.), os grupos mais desfavorecidos, e “a naturalidade dos seus poemas é acompanhada de uma aparente simplicidade”, neles sobressaindo “o peso extraordinário” da infância, vista como algo que “fizesse milagrinhos”.
Sebastião da Gama foi apresentado por João Reis Ribeiro, que assinalou a considerável produção escrita (poesia, diarística, epistolografia, colaboração na imprensa) do autor, quantidade valorizada pela simultaneidade da doença (que o assolou desde os 14 anos), da licenciatura, do estágio e do ensino, tudo tendo decorrido num tempo de 13 anos aproximadamente (contado a partir do mais antigo poema que se lhe conhece, datado de 1939). O papel de Sebastião da Gama na Távola Redonda foi destacado por João Reis Ribeiro, que o considerou um garante à distância da qualidade poética da revista, muito embora o seu principal crítico fosse Mourão-Ferreira. O autor desta apresentação pôs depois em diálogo os quatro poetas abordados neste ciclo, dando a conhecer fragmentos de correspondência entre Sebastião da Gama e cada um dos outros poetas, evidenciando a preocupação da qualidade e da crítica da escrita poética nas cartas para Pavia e Mourão-Ferreira e “um certo espírito fraternal e mais intimista” nas missivas para Matilde Rosa Araújo.
A leitura de poemas das quatro sessões esteve a cargo de Antónia Brandão, Teresa Albuquerque, Vanda Anastácio e Fernando Mascarenhas, o anfitrião deste ciclo de poesia portuguesa do século XX.
[foto por Manuel Herculano - mesa que presidiu à última sessão do ciclo de poesia, constituída por Teresa Albuquerque, João Reis Ribeiro, Fernando Mascarenhas e Antónia Brandão]

terça-feira, 24 de maio de 2011

Coral Infantil de Setúbal e Banda da Armada entre cinco poemas de Sebastião da Gama

Cinco poemas de Sebastião da Gama foram cantados pelo Coral Infantil de Setúbal e musicalmente acompanhados pela Banda da Armada no concerto realizado no auditório José Afonso, na noite de sexta-feira, 20 de Maio, inserido no programa das comemorações do Dia da Marinha, que ocorreu na semana passada em Setúbal.
Os cinco textos – “Pequeno Poema”, “Alegria”, “Louvor da Poesia”, “Madrigal” e “O Sonho” – integram a peça O Poeta da Arrábida, roteiro sobre Sebastião da Gama que insere alguns dos seus poemas, preparado por João Reis Ribeiro e musicado por Samuel Pascoal, obra destinada a assinalar o 30º aniversário do Coral Infantil de Setúbal, que ainda não pôde ser exibido na totalidade devido a condições logísticas.
A interpretação destes cinco poemas constituiu assim uma pequena ante-estreia do que será a peça, marcada por uma música que aprofunda a mensagem de Sebastião da Gama, com arranjos francamente originais e surpreendentes para alguns dos textos.
Depois desta mostra, o público – que era muito – só pode desejar ver o resultado final, em que o brilho das vozes do Coral Infantil de Setúbal, o espectáculo das sonoridades da Banda da Armada e a alegria da mensagem do poeta da Arrábida harmoniosamente se enlaçam.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Sebastião da Gama no concerto da Banda da Armada

As comemorações do Dia da Marinha de 2011 ocorrem em Setúbal entre 14 e 22 de Maio. No programa de actividades, consta um concerto pela Banda da Armada, que terá lugar em 20 de Maio, pelas 22h00, no auditório José Afonso, actividade que terá a colaboração do Coral Infantil de Setúbal, que interpretará excertos da obra “O Poeta da Arrábida”, alusiva à vida e obra de Sebastião da Gama, concebida para o 30º aniversário do CIS.
Em Novembro de 2010, o Coral Infantil de Setúbal completou 30 anos, tendo desenvolvido, entre 2009 e 2010, o programa “30 Anos 30 Coros”. O final do ano de comemorações e o 30º aniversário seriam assinalados com o concerto “O Poeta da Arrábida” (guião da autoria de João Reis Ribeiro e música de Samuel Pascoal). Por falta de instalações adequadas em Setúbal, tal concerto não pôde ainda ter lugar (esperando-se que tal venha a acontecer em breve), mas, sendo a Banda da Armada a parceira na interpretação musical deste projecto, o concerto integrado nas celebrações do Dia da Marinha vai incluir excertos da referida obra.
A noite do dia 20 será, pois, uma boa oportunidade para os setubalenses acorrerem ao auditório José Afonso: pela música, pelo espectáculo, pelo Coral Infantil de Setúbal e pelo poeta ícone da Arrábida que é Sebastião da Gama.

Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2011 – Entrega do Prémio

O Regulamento do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama estipula a data de 5 de Junho para a cerimónia de entrega do Prémio.
Contudo, em virtude da convocação das eleições legislativas para essa data, que ocorreu posteriormente à elaboração e divulgação do Regulamento, e por as entidades patrocinadoras – Juntas de Freguesia de S. Lourenço e de S. Simão (Azeitão) – terem responsabilidades no funcionamento do processo eleitoral, foi deliberado o adiamento da cerimónia da entrega do Prémio, que ocorrerá em 12 de Junho, nas instalações da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Arrábida a património mundial – 2ª reunião da Comissão de Acompanhamento

Este segundo encontro, que teve a presença de inúmeras instituições e entidades, realizou-se no passado dia 9 de Maio, na sala de conferências da magnífica Casa da Baía, recentemente inaugurada, em plena Avenida Luísa Todi, em Setúbal.
Do programa podemos salientar a intervenção sobre o ponto da situação da Candidatura e duas magníficas intervenções a cargo, respectivamente, do Professor José Carlos Costa e Dr. Heitor Baptista Pato. O primeiro dissertou sobre o estudo da flora, vegetação e paisagem da serra da Arrábida; o segundo falou sobre a componente do património cultural, chegando a afirmar e a demonstrar que a cordilheira da Arrábida é uma marca.
Seguiu-se um interessante e muito proveitoso debate sobre o Plano de Gestão da Candidatura, tendo em conta os grandes objectivos e eixos estratégicos a integrar no dossier de candidatura.
A nossa Associação esteve também presente através de um elemento da Direcção, que, mais uma vez, em breve intervenção, salientou o esforço que a Associação tem vindo a fazer através de inúmeras actividades, incluindo acções e palestras para professores e alunos, nas escolas, em ordem a fazer ressaltar o bem imaterial – a cultura – que certamente não deixará de ter um grande peso nesta candidatura.
Recordou, a propósito, o recente artigo de três páginas sobre Sebastião da Gama publicado no último número do JL (Jornal de Letras) onde, entre outros assuntos, se faz uma especial referência às atitudes corajosas tomadas, ao tempo, pelo nosso patrono Sebastião da Gama, mormente no que diz respeito ao célebre problema relacionado com o forno de cal de José Júlio da Costa e a destruição da Mata do Solitário, cuja vegetação era usada sem escrúpulos para alimentação do referido forno.
Já agora, convém referir que a carta escrita por Sebastião da Gama ao engenheiro Miguel Neves, que, por sua vez, a fez chegar ao professor Carlos Baeta Neves, do Instituto Superior de Agronomia, viria a servir de mote para a criação, em 1948, da Liga para a Protecção da Natureza. – MHS
[Foto: Mesa que presidiu à reunião]

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Setúbal: Escolas têm cd de Sebastião da Gama

Todas as escolas públicas do concelho de Setúbal têm a partir de agora um exemplar do cd “Sebastião da Gama – Meu caminho é por mim fora” nos respectivos centros de recursos, acção possível graças a oferta feita pela Fundação Buehler-Brockhaus.
Com tal iniciativa, a Fundação pretendeu “contribuir para a divulgação de uma referência cultural da região, que teve importante papel na poesia portuguesa do século XX e no enriquecimento da perspectiva cultural da Arrábida”.
O cd, editado pela nossa Associação no ano passado, contém 26 textos de Sebastião da Gama, lidos pelos actores Célia David, Fernando Guerreiro, José Nobre e Maria Clementina e por Maria Barroso, com acompanhamento musical de Rui Serodio.
A oferta deste cd, recentemente levada a cabo, contemplou as escolas dos vários níveis de ensino da rede pública do concelho de Setúbal – Escolas Secundárias D. Manuel Martins, Sebastião da Gama, Bocage e D. João II, Agrupamentos Verticais de Escolas Luísa Todi (9), Barbosa du Bocage (6), Lima de Freitas (3), Cetóbriga (6), Azeitão (7) e Santiago (8), Fundação Escola Profissional de Setúbal e Instituto Politécnico de Setúbal (6).

terça-feira, 10 de maio de 2011

A geração da "Távola Redonda" no Palácio Fronteira

A geração da Távola Redonda, de que Sebastião da Gama fez parte, vai ocupar o Ciclo de Música e Poesia Portuguesa Séc. XX que tem início hoje no Palácio Fronteira, organizado pela Fundação das Casas de Fronteira e Alorna.
A sessão de hoje versará sobre a poesia de Cristovam Pavia, com apresentação e comentários a poemas por Fernando J. B. Martinho; o segundo autor a apresentar será David Mourão-Ferreira, comentado por Clara Rocha (em 12 de Maio); Matilde Rosa Araújo será estudada na terceira sessão (17 de Maio) por Violante Magalhães; o último encontro (19 de Maio) versará sobre a poesia de Sebastião da Gama, com exposição a cargo de João Reis Ribeiro.
Cada um dos quatro recitais de poesia será antecedido de um recital de música, em que intervirão Gilda Oswaldo Cruz (ao piano, hoje); Ana Luísa Monteiro (piano) e Pedro Miguel Nunes (barítono), em 12 de Maio; Maria João Sousa (soprano) e Marta Manuel (piano), em 17 de Maio; Marcos Santos (tenor), Natasa Sibalic (soprano) e Helena Vasques (piano), em 19 de Maio.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Diário de Sebastião da Gama no "Diário Digital"

O Diário de Sebastião da Gama, que inaugura a colecção das "Obras Completas" do Poeta da Arrábida, foi objecto de uma entrevista com João Reis Ribeiro, que saiu no Diário Digital de ontem. É essa peça, assinada por Pedro Justino Alves, que aqui se reproduz.

Presença edita obra completa de Sebastião da Gama
A Presença vai publicar nos próximos meses, anos a obra completa de Sebastião da Gama. O primeiro volume desta extensa colecção, Diário, já está à venda, sendo possível encontrar, por exemplo, na Feira do Livro de Lisboa, que decorre até o dia 15 de Maio. João Reis Ribeiro é o coordenador deste projecto que procura colocar de vez o nome do poeta no cenário literário nacional.
João Reis Ribeiro acredita que Sebastião da Gama não é um nome «esquecido» das letras nacionais, embora admita que o poeta «talvez não seja ainda visto com a importância que realmente teve…». E para acabar de vez com esta lacuna, a Presença resolveu oferecer aos leitores nacionais toda a obra do autor, que assim finalmente poderão reconhecer o génio, e também a lucidez do poeta oriundo de Azeitão.

Como surgiu o convite para coordenar esta colecção? Aceitou de imediato?
A ideia da publicação das obras completas de Sebastião da Gama partiu da Editorial Presença, que contactou os herdeiros do escritor para o efeito e deles obteve a necessária autorização. O meu nome aparece para coordenar a colecção devido a proposta dos herdeiros feita à Editorial Presença e, depois, por convite que me foi formulado pela editora. Entendi a razão desta escolha como consequência do trabalho que tenho dedicado à divulgação e estudo da obra de Sebastião da Gama, quer particularmente, quer no âmbito das acções da Associação Cultural Sebastião da Gama, a cuja direcção pertenço.
Quais as dificuldades que encontrou?
E quais as estratégias editoriais que procurou seguir? De dificuldades, propriamente, não se poderá falar. Há, sim, muito trabalho a fazer, fundamentalmente porque todas as edições deverão ser feitas a partir dos originais que integram o espólio de Sebastião da Gama e porque quase todos esses originais existem em manuscritos, sendo necessário o trabalho de leitura e de fixação de texto. Não nos poderemos fiar muito nas últimas edições da obra, porque há lapsos de transcrição, que desejo não aconteçam nesta colecção. Esta preocupação responde um pouco à questão das estratégias… Há ainda a considerar a forma como vai ser agrupada a obra, em seis grupos: o Diário, nas livrarias desde meados de Fevereiro; a poesia publicada pelo autor – Serra Mãe, Cabo da Boa Esperança, Campo Aberto e poemas dispersos por publicações periódicas; a poesia publicada postumamente; a poesia ainda inédita; os textos em prosa publicados pelo autor, dispersos por várias publicações e organizados em livro postumamente; a correspondência para familiares e para amigos. Tudo isto dará uma colecção das obras completas em dez volumes…
Qual a importância desta colecção no panorama literário nacional?
A obra de Sebastião da Gama é diversificada e deve ser entendida no contexto da geração a que pertenceu. Há três áreas importantes a destacar: por um lado, o papel que pode desempenhar ainda hoje uma obra como o Diário, que não é apenas um título de índole pedagógica – retrata o que foi o seu ano de tempo de professor de Português e Francês na Escola Veiga Beirão em 1948-1950 –, mas também uma referência literária, quer pelo cunho autobiográfico, quer pela estética; por outro lado, a epistolografia, praticamente desconhecida, que dá conta do que foi o convívio intelectual de Sebastião da Gama e de qual foi o seu papel na formação estético-literária de alguns daqueles com quem se correspondeu; finalmente, a poesia, o segmento mais conhecido de Sebastião da Gama, que não passa apenas pelas obras publicadas, mas também pelo contributo deixado em revistas literárias como a Távola Redonda ou a Árvore, e ainda pela poesia inédita, que, não apresentando o mesmo valor que os poemas já publicados, dá a noção de como se foi formando este poeta, autor de uma obra invulgar, escrita apenas numa dúzia de anos, por onde passam muitas referências à literatura portuguesa e a outras literaturas.
Acredita que Sebastião da Gama é hoje um nome esquecido nas letras nacionais
Esquecido não será. Talvez não seja ainda visto com a importância que realmente teve… David Mourão-Ferreira, por exemplo, várias vezes testemunhou sobre o papel que Sebastião da Gama teve na sua formação inicial, apontando-lhe referências e comentando os textos que lhe sugeria… O que aconteceu foi que Sebastião da Gama morreu cedo e não teve talvez o tempo suficiente para deixar uma obra marcante... mas uma leitura atenta da sua produção escrita, nos vários domínios, validará um nome a não esquecer no contexto da cultura portuguesa. Há poucos dias, Fernando J. B. Martinho dizia numa conferência que Sebastião da Gama talvez seja o autor português que mais homenagens tem tido… Ora, isso é a prova de que esquecido não está e será também a caução de que a sua obra ainda hoje diz muito a muitos leitores…
E quem foi Sebastião da Gama?
Numa apresentação rápida, Sebastião da Gama foi poeta português, nascido em Azeitão, em 10 de Abril de 1924. Publicou o seu primeiro texto num jornal em 1940, já escrevia sonetos aos 15 anos, licenciou-se em Românicas em 1947, publicou três livros de poemas, foi professor em Setúbal, Lisboa e Estremoz e teve uma doença – a tuberculose – que o afligiu desde os 14 anos e, num quadro clínico mais complicado, o levou à morte em 7 de Fevereiro de 1952. Foi leitor e escritor compulsivo, estendendo a sua escrita por diversos géneros. De tal forma se integra na tradição literária portuguesa que, em 1944, quando ainda não tinha publicado nenhum livro – o primeiro surgirá em 1945 –, o poeta Rui Cinatti, numa dedicatória para ele, o considerou «o sucessor de Frei Agostinho da Cruz»… Conviveu com os escritores seus contemporâneos que vieram a ser grandes referências nas letras portuguesas do século XX português, designadamente, Miguel Torga, José Régio, Teixeira de Pascoais, David Mourão-Ferreira, António Manuel Couto Viana, Luís Amaro…
Porque decidiram começar esta Obras Completas com o Diário, sendo a poesia o género mais conhecido de Sebastião da Gama? A escolha do Diário para iniciar as obras completas relacionou-se com o facto de, quando este projecto começou a ser trabalhado, em 2009, estarem a passar os 60 anos sobre a escrita desta obra. Por outro lado, era uma obra que carecia de uma edição completa, que nunca teve, e corrigindo os lapsos de transcrição que as sucessivas edições apresentavam… Provavelmente, em termos de mensagem, esta edição não traz novidade em relação às anteriores… Mas é a primeira edição completa do Diário, com anotações de contextualização, integrando ainda um estudo introdutório ao conjunto da obra de Sebastião da Gama e um roteiro cronológico exaustivo… Um outro objectivo ao iniciar-se a colecção por este título foi a necessidade de chamada de atenção para a utilidade desta obra, para o dever que temos de a ler e de a estudar, se quisermos falar de educação, independentemente do cargo que desempenhemos nesta área… Provavelmente, Daniel Pennac não conhece esta obra de Sebastião da Gama, mas foi ele quem escreveu, há três ou quatro anos, em Mágoas da Escola, que a escola de hoje não cultiva a pedagogia do amor, justamente aquilo que também orientava Sebastião da Gama… No ano passado, em Itália, houve uma tradução de excertos deste Diário, propositadamente editada para estudo universitário… Se este valor é assim reconhecido, porque não damos nós a esta obra a importância que ela tem e que os outros lhe vêem?
O que poderia falar sobre Diário no conjunto da obra de Sebastião Gama?
Além das referências já feitas, poder-se-á dizer que Sebastião da Gama apresenta uma imagem em que o poeta, a pessoa e o professor surgem indissociáveis. O próprio Diário não foge às pinceladas poéticas, seja sobre a Arrábida e a Natureza, seja sobre o génio humano… Ainda há pouco tempo, em Março, num congresso, uma comunicação abordou este Diário como possibilidade de caminho para a didáctica da leitura, o que é importante se nos lembrarmos do que tem sido a persistência na dinamização da leitura em Portugal… E Sebastião da Gama preocupou-se com essa dimensão e dela deu conta no Diário… Talvez bastasse repetir ou explorar algumas das práticas que ele seguiu… Passados 62 anos sobre a sua redacção, esta obra apresenta hoje uma frescura e uma actualidade invulgares, a exigir ser lida com atenção e com afecto…

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Sebastião da Gama no "JL"

O JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias de ontem (nº 1059) dedicou três páginas a Sebastião da Gama a propósito da recente edição do Diário (Lisboa: Editorial Presença, 2011), pela primeira vez completa e anotada. Tal destaque integra o suplemento "JL - Educação" e é constituído por entrevista a João Reis Ribeiro (coordenador da colecção das obras completas de Sebastião da Gama de que esta edição do Diário constitui o primeiro volume), assinada por Francisca Cunha Rego, e depoimentos de Joana Luísa da Gama (esposa do poeta), Urbano Tavares Rodrigues e Maria Barroso (colegas de Sebastião da Gama do tempo da Faculdade de Letras) e Nicolau da Claudina (aluno de Sebastião da Gama em Setúbal). Além de três fotografias do espólio de Sebastião da Gama (com a turma do Diário, na Queima das Fitas do seu curso e a contemplar a Arrábida), há ainda a publicação de um poema inédito, "Leonor", a partir do texto camoniano "Descalça vai para a fonte".