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Miguel Real: Leitura pessoal do "Diário" de Sebastião da Gama

Recentemente reeditado pela mão do professor João Reis Ribeiro, que assina uma notável introdução, Diário (Editorial Presença), de Sebastião da Gama, dele recolhemos o exemplo de um verdadeiro professor. Com efeito, um conjunto de dez características estatui este diário de um estagiário das disciplinas de Português e Francês no modelo (ideal) de um perfeito professor. Neste sentido, o genuíno professor do ensino básico e secundário seria:
1. – aquele que lecciona contra o racionalismo pedagógico, o academicismo, o eruditismo, a retórica balofa, o estilo pedante e pomposo, a orientação pedagógica livresca e moralista, a total vinculação ao estudo do passado literário sem compromissos estéticos actuais; 2. – aquele que, como pulsão de desejo pedagógico-estético, munido de suficientes portas e janelas por onde corre o ar fresco da criação nova, interpenetra na sala de aula de conhecimento e criação; 3. – aquele que dá aulas contra a cultura como efeito de propaganda e contra a cultura como …

A propósito dos 60 anos sobre a escrita do "Diário", de Sebastião da Gama

“Uma leitura do Diário 60 anos depois” foi o tema que Fernando António Baptista Pereira trouxe ao Museu Sebastião da Gama, em Azeitão, nesta noite, actividade integrada na “Noite dos Museus”. Foi uma leitura pessoal do Diário de Sebastião da Gama, obra escrita no período 1949-1950 (apenas publicada em 1958), justificada por se poder “encontrar nas páginas de Sebastião da Gama a paixão de ser professor”. Como ideias fortes, Baptista Pereira deixou a da pedagogia do Diário, em que “o grande segredo reside em gostar daquilo que se faz, em gostar dos outros”, a da actualidade desta obra e a da leitura do Diário como complemento da obra poética ou desta como complemento daquele, já que Sebastião da Gama “era poeta, homem e professor em todo o lado”. Para Baptista Pereira, os vectores inovadores principais do Diário são: a modernidade pedagógica (não-directividade; recusa da punição em favor da consciencialização, da lealdade e da responsabilização), educação para a liberdade e para a cidada…

Sebastião da Gama: 60 anos sobre o "Diário"

Fac-simile da 1ª página do manuscrito (11 de Janeiro de 1949) e capa da 1ª edição do Diário (1958)
Em 11 de Janeiro de 1949, Sebastião da Gama tinha 24 anos, a licenciatura, a experiência lectiva de professor provisório na Escola João Vaz, vários textos publicados, entre os quais dois livros, e iniciava o estágio de professor na Escola Veiga Beirão, em Lisboa, desse dia datando a primeira página do seu Diário (apenas publicado em 1958), a registar as observações do metodólogo, Virgílio Couto: “Para começar, o metodólogo falou connosco durante uma hora. De acordo com o que disse, vão ser as aulas de Português o que eu gosto que elas sejam: um pretexto para estar a conviver com os rapazes, alegremente e sinceramente. E, dentro dessa convivência, como quem brinca ou como quem se lembra de uma coisa que sabe e vem a propósito, ir ensinando. Depois, esta nota importantíssima: lembrar-se a gente de que deve aceitar os rapazes como rapazes; deixá-los ser: porque até o barulho é uma coisa agra…

Sebastião da Gama em Pegões

Há uns meses - já para lá de um ano - estive na Escola Básica 2, 3 de Pegões para apresentar Sebastião da Gama aos alunos. Recordo-me que foi uma sessão interessante, com muitos jovens interessados e atentos. Ontem, voltei à mesma escola, mas desta vez para uma sessão de conversa com professores sobre estoutro professor e também poeta que foi Sebastião da Gama. Pareceu-me sentir o encanto da entrada ou da vivência das pessoas no círculo de Sebastião, tão interessadas elas se mostraram pela visão poética que ressalta da sua pedagogia.
Falou-se de poesia, de livros, de literatura, de escola, de ensino, da Arrábida, do sentimento posto ou a pôr nas coisas que fazemos. "Era bom que fôssemos professores assim!". "É o que devemos tentar em todos os dias da nossa escola!"
Tive de chamar o Diário a terreiro para dizer que tivesse ele sido escrito por um autor estrangeiro e, de certeza, seria objecto de estudo obrigatório na formação de professores, fosse ela inicial ou contí…

Sebastião da Gama na Escola Básica 2, 3 de Vialonga

Ontem, estive na Escola Básica 2, 3 de Vialonga (no concelho de Vila Franca de Xira) para falar a alunos de 9º ano sobre Sebastião da Gama e lhes apresentar o documentário “Meu caminho é por mim fora”, que navega pela vida e pela obra (poética, educadora e cívica) do poeta da Arrábida, correspondendo a um convite intermediado pelo Tiago Machete, professor e meu antigo aluno. Comigo, levei a Joana Luísa, esposa de Sebastião da Gama, que, nos seus quase 87 anos, gosta de acompanhar o que sobre o marido se vai fazendo.
Esta ida à Escola revestiu-se de várias surpresas, que me sensibilizaram: a iniciativa de a Escola ter realizado uma exposição com fotografias e poemas de Sebastião da Gama, arejada, estruturalmente pensada, para o público ver e ficar a saber e não para impressionar pela quantidade, eivada de simplicidade e harmonia, onde nem faltaram a areia e as conchas da Arrábida (levadas pelo Tiago) a salpicarem os livros de Sebastião da Gama; a presença de cerca de 50 alunos de 9º ano…

Porque ler o “Diário” de Sebastião da Gama, segundo Cruz Malpique

Em 1965, Cruz Malpique (1902-1992), o reconhecido nisense e professor do Liceu Alexandre Herculano, no Porto, publicava o livro Mestres e Discípulos (Porto: Divulgação, 1965), cerca de 230 páginas de reflexão sobre a profissão docente, nas vertentes pedagógica e deontológica. Um dos mais longos capítulos aí inseridos, ocupando cerca de quatro dezenas de páginas, intitula-se “Sebastião da Gama, Professor-Poeta” e faz uma peregrinação pelo Diário, que fora publicado havia sete anos (apesar de maioritariamente escrito no estágio que decorreu entre Janeiro de 1949 e Fevereiro de 1950, esta obra de Sebastião da Gama só seria publicada postumamente, em 1958).
A viagem de Cruz Malpique por esta obra é de tal forma condicionada pela sua mensagem que o autor se deixa levar pelas longas citações de Sebastião da Gama, assumindo-as como testemunhos e verdades de referência para o que é ser professor, desde o início erguendo como princípio que “outros diários existissem desse teor e teríamos aí adm…