sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Sebastião da Gama lido por Alexandre Santos

Na obra Sebastião da Gama – Milagre de Vida em busca do Eterno (Lisboa: Roma Editora, 2008), de Alexandre F. Santos, o leitor passa pelo primeiro capítulo, intitulado “O autor e o seu tempo”, e tem a sensação de entrar na vida do poeta, pelo menos naquela faceta que é mais pública, a da sua poesia e do seu pensar. Alexandre Santos cruza poemas, testemunhos, leituras, correspondência e o ambiente cultural e literário da época e dá-nos um retrato que ajuda a entender a obra deste poeta, primeiro passo para descobrirmos que a escrita, o sentir, a vida e a pessoa, no caso de Sebastião da Gama, são indissociáveis, são os pilares de uma mesma catedral. Não me estou a referir a pormenores biográficos, note-se (embora alguns vão perpassando); esta leitura permite-nos ir mais longe e entrar nas linhas de pensamento, no ideário e no caminho deste poeta, afinal naquilo que determinou que o poeta fosse o que foi, que o homem experimentasse o que experimentou.
Talvez a nossa adesão a este texto parta de verdades que nos são ditas – apetecia-me dizer “reveladas” e só o não digo sem hesitar porque a revelação é algo de pessoal e de único – mas, dizia, este texto transporta verdades que demonstram um caminhar a passo que Alexandre Santos fez pela obra de Sebastião da Gama, com nítida e notável simpatia, com esclarecido e assumido envolvimento. Repare-se, a título de exemplo, em afirmações que Alexandre Santos faz sobre Sebastião da Gama, que pressupõem o conhecimento da obra, mas também o fascínio que essa mesma obra exerceu sobre o seu leitor e estudioso: “um hino luminoso à sagração da Vida” é a metáfora escolhida para contrapor e classificar o trajecto dos 27 anos que Sebastião da Gama viveu; sobre a escrita, acentuará que é constituída por “páginas vivas e coloridas, cheias do brilho e do calor coloquial que ele era tão exímio a transmitir”; sobre a humanidade de um percurso de vida, afirma que “Sebastião da Gama, alma genuinamente sensível e profunda, descobriu que a vida é uma conquista diária feita de contínuas quedas e voos, de fraquezas e de triunfos”; sobre o trajecto poético, a sua autonomia e independência, entende que Sebastião da Gama “pretendia ser genuíno e livre, fazendo da poesia o reflexo da vida e do pulsar do seu coração, nunca se submetendo à tutela de qualquer corrente ou ideologia”.
No final deste primeiro capítulo, a conclusão só pode ser uma: “para Sebastião da Gama, a poesia, mais do que um modo de fazer, um comportamento, era, sobretudo, um modo de ser, uma atmosfera espiritual, uma ética de acção, um transcendente exercício de um sacerdócio.”
O ciclo mais biográfico, enraizado numa vasta leitura da obra, fecha-se e o segundo capítulo traz-nos “o poeta e o pedagogo”, logo não nos surpreendendo que um e outro coexistam numa íntima abordagem.
E o que nos traz Alexandre Santos? Fundamentalmente, um olhar de vários ângulos sobre a obra de Sebastião da Gama.
Em primeiro lugar, o ciclo das obras por ele publicadas, a saber: Serra Mãe (1945), Cabo da boa esperança (1947) e Campo aberto (1951). A leitura dos poemas é convenientemente anotada nas suas linhas temáticas e de amadurecimento, num caminho que segue a chamada da poesia: desde a busca da perfeição (seja no texto, seja na mensagem a fazer passar) até um “grito à alegria, à vida e à esperança”, numa leitura simbólica da estrutura dos livros, ajudada, por exemplo, pelos títulos dos dois últimos poemas de Serra Mãe, respectivamente “Alegria” e “Claridade”, uma forma eufórica e luminosa de concluir um trajecto, de atingir, como Sebastião da Gama referia numa carta a Luís Amaro, o “Presente Eterno”, mensagem por demais bonita e promissora.
O trajecto por estes livros continua em Cabo da boa esperança, roteiro de descoberta da poesia por toda a parte de onde surja vida, género de oferta que se expõe ao poeta, aprendizagem na lição dada pela Natureza, de onde não está ausente Deus nem um diálogo com Ele. Em 1951, Campo aberto fecha esta espécie de trilogia, já com maior maturidade, onde surgem ecos de grandes poetas como Torga ou Pessoa, por exemplo. E continua a ser significativo o domínio do simbólico e das associações neste percurso – é que o fecho da trilogia é feito com dois poemas, um dedicado a “Cristo” e outro à “Senhora da Lapa”, modelo com quem dialoga, um, e protectora, a outra; e não pouco significativo é que os dois últimos versos que Sebastião da Gama publicou em livro tenham sido “Em Tuas mãos me entrego / como se ao Mar me desse”. É a partilha da obra, do poema maior, da mensagem de amor e de vida, que o conjunto da obra é.
Depois deste ciclo da trilogia, um outro é estudado por Alexandre Santos: o da obra que Sebastião da Gama deixou preparada, com título escolhido, mas que não chegou a ver publicada. Falo de Pelo sonho é que vamos, publicado em 1953, quase dois anos após a sua morte, obra que atesta a maturidade do poeta e que, convictamente, afirma aquelas que são as características da construção dos seus poemas – “simplicidade, espontaneidade e aproximação à oralidade”, talvez a chave que explica a tão grande adesão à leitura dos textos de Sebastião da Gama e constitui, em simultâneo, o cadinho em que assegurou também a sua prática pedagógica, conforme se pode ver no Diário.
Aqui chegados, a este “poema do pedagogo”, curiosa designação para um livro em prosa, o leitor é banhado pela espuma dos dias de um professor em contacto com os seus alunos! Tal como os poemas, pela sua espontaneidade, também as melhores aulas de Sebastião da Gama aconteciam “de repente”, com dose acentuada de “improviso”. E Alexandre Santos regista o essencial, o ponto de união da poesia com a vida, da prosa do Diário com os poemas dos livros, ao dizer: “O amor não é para Sebastião da Gama apenas uma palavra, mas sim o acontecimento soberano da vida humana, o centro de toda e qualquer teoria educativa. E aqui está a essência da pedagogia deste mestre que irá pautar toda a sua actividade de Poeta e professor que semeia ternura em tudo o que faz. Para ele, fazer alguma coisa é pura e simplesmente amar.” E todos nos lembramos daquelas duas linhas do Diário, escritas em 23 de Março de 1949: “Tens muito que fazer? Não. Tenho muito que amar.” E acrescentava Sebastião da Gama: “Não entendo ser professor de outra maneira.” (Que bela mensagem para a escola dos tempos que correm e para todos aqueles que nela intervêm!...)
Este Diário é outro livro de maturidade, assumida enquanto processo de construção, obra iniciada há pouco mais de 60 anos – precisamente em 11 de Janeiro, dia desse distante 1949 em que aconteceu a primeira página do Diário, obra que considero dever ser de leitura obrigatória na formação de professores (e que, já agora, deveria ser de conhecimento não menos obrigatório para pais e governantes preocupados com a educação!...).
A conclusão do estudo de Alexandre Santos dá-se com o capítulo intitulado “Em demanda de uma arte poética”, que tenta fazer o laço com todos os fios percorridos: quanto à liberdade de inspiração e de imaginação, Sebastião da Gama surge na linha dos poetas românticos; conhece os clássicos e domina as técnicas por eles seguidas; a poesia é revelação que se assume na forma de “captar o universo poético contemplado”; a poesia é “a mais perfeita expressão do ser humano”; o poema é espontâneo e dá voz ao poeta (tão espontâneo que Sebastião da Gama quase não apresenta versões melhoradas ou diferentes dos seus poemas); os temas são o que são, mas a poesia nasce de sentimentos, de “momentos de alma e momentos da paisagem”; a sua poesia é diurna, apolínea, num elogio à vida, revela a verdade. Em conclusão, a espontaneidade de Sebastião da Gama é um processo em que “está latente todo um percurso, não raro longo e árduo, que, partindo do alerta inicial de um símbolo visto ou sentido, abrange, além deste momento de génese, uma fase mais ou menos prolongada da gestação poética até ao auge da epifania modulada em música”. No poema, em suma.
Alexandre Santos não esconde, como já disse no início, o fascínio de leitor perante o dizer de Sebastião da Gama, confessando ter-se sentido impressionado “vivamente” com “a extraordinária vitalidade que [a sua obra] irradia para o leitor”, fenómeno explicável pela reconstituição que esta poesia faz entre o homem, a Natureza e as coisas, não estando ausente uma relação com o divino. E assim se lê a poesia de “um adulto que soube conservar em si o deslumbramento, a simplicidade e a ternura de criança”.
Não fique o leitor pelas imagens que de palavras se vão fazendo. Este livro contém também o registo fotográfico, em 30 páginas, dos passos da vida de Sebastião da Gama e dos espaços de influência e de bem-estar que motivaram poesia, com particular destaque para a Arrábida. É uma agradável forma de partilhar textos, ambientes, paisagens, olhares e dizeres, numa não menos agradável obra que, tendo um propósito inicial académico, soube trazer para o fácil acesso a chave da poesia de Sebastião da Gama, disponível para todos. (JRR)

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