sexta-feira, 19 de abril de 2013

"Pelo sonho é que vamos", 60 anos depois - Exposição no Museu Sebastião da Gama




Em 1 de Setembro de 1951, Sebastião da Gama estava na Arrábida e, como muitas vezes acontecia, lia poemas – andava a ler Mistral, o poema Mereia, de Frédéric Mistral. Interrompe a leitura e escreve uma carta ao seu amigo Cristovam Pavia, filho do poeta Francisco Bugalho, em que classifica a escrita de Mistral como «coisa deliciosa». Depois, fala-lhe num dos motivos da carta: «Hoje, de repente, acabara de ler um poema, fecho o livro e saiu ‘O sonho’. Não me parece muito bom. Mas é talvez nele que está o título do 4º livro: Pelo sonho é que vamos. Que te parece?»
Estava assim lançado o que seria o livro seguinte de Sebastião da Gama, obra que o autor já não chegou a ver, mas que Joana Luísa da Gama e um grupo de amigos prepararam para ser o primeiro volume da obra póstuma, logo surgido em 1953, no ano seguinte ao do falecimento de Sebastião da Gama.
A partir daí, o verso “Pelo sonho é que vamos” entrou na ideia e na linguagem, assumiu-se como a metáfora da esperança, da coragem e da vontade de correr riscos e universalizou-se, sendo uma frase recorrentemente pronunciada, em muitos contextos, quase nunca tendo nada a ver com literatura. Em 1976, tempo difícil na política portuguesa, houve mesmo um livro com um título revolucionário que se serviu do verso de Sebastião da Gama numa pequena (e ideologizada) adaptação de leitura – Pelo sonho não vamos lá (mas o povo fá-lo-á quando tomar o poder), de Martinho Marques (Lisboa: Semel).
São 27 os poemas que constituem Pelo sonho é que vamos, quase todos escritos no ano de 1951 (com excepção de dois, “Lá fora é que sim” e “Presépio”, que são do ano anterior). Nesta obra entra o último poema escrito por Sebastião da Gama – “Fé”, de 8 de Dezembro de 1951 – e constam alguns dos seus poemas mais conhecidos e antologiados em suporte livro, como “Anunciação” (Vasco Graça Moura, Jorge de Sena, António Lobo Xavier), “Largo Espírito Santo, 2 – 2º” (Vasco Graça Moura, Jorge de Sena, Jorge Reis-Sá, José Régio e Alberto de Serpa), “O sonho” (Inês Pupo e Carlos Godinho, além de constar em diversos manuais escolares), “Somos de barro” (Maria Alberta Menéres e E. M. de Melo e Castro) e “Presépio” (Luís Forjaz Trigueiros, Angel Crespo e António Salvado).
Sebastião da Gama ainda viu alguns dos textos deste livro publicados: “Crepuscular” (Horizonte. Évora: nº 3, Jul-Ago.1951), “Imagem” (Jornal de Sintra. Sintra: nº 938, 07.Janeiro.1952, pg 9), “Janelas de Estremoz” (Brados do Alentejo. Estremoz: nº 1023, 04.Fev.1951, pg. 11), “Largo do Espírito Santo, 2 – 2º” (Árvore. Lisboa: nº 1, Dezembro.1951, pp. 36-37), “Nosso é o mar” (Jornal do Barreiro. Barreiro: nº 46, 05.Abr.1951, pg. 3), “Nunca o amor foi breve” (Jornal de Sintra. Sintra: nº 895, 18.Mar.1951, pg. 1), “O sonho” (O Distrito de Setúbal. Setúbal: nº 3, 17.Set.1951, pg. 8), “Poesia depois da chuva” (A Teixeira de Pascoaes – Homenagem da Academia de Coimbra pela Voz de Escritores Portugueses e Brasileiros. Coimbra: A.A.C., 1951, pg. 126) e “Sinal” (Jornal do Barreiro. Barreiro: nº 52, 17.Mai.1951, pg. 9).
A quase totalidade dos poemas deste livro foi já objecto de gravação em suporte fonográfico: nos cd’s Pelo sonho é que vamos (Setúbal: Ruquisom, 2000) e Eu quero amar, amar… - 25 poemas de amor (Lisboa: Ovação, 2002), ambos ditos pelo actor Victor de Sousa; no cd Pelo sonho é que vamos (Azeitão: Associação Cultural Sebastião da Gama, 2012), musicados e interpretados pelo grupo “e-Vox”; no álbum Moby Dick (1991), pelo grupo “Moby Dick” (João Gil, Artur Costa e Alexandre Cortez).
A pintura debruçou-se também sobre a poesia que ressalta do verso “Pelo sonho é que vamos” a partir do momento em que dois pintores com intensa ligação a Setúbal, Eduardo Carqueijeiro e Nuno David, inseriram este verso no título de um quadro pintado conjuntamente em 2011 (em exibição no Museu Sebastião da Gama, em Azeitão).
A obra Pelo sonho é que vamos foi a primeira obra de Sebastião da Gama a ser prefaciada por um estudioso que não fez parte das relações do poeta – Ruy Belo, a quem se deve o estudo de entrada para a segunda edição desta obra, datada de 1971, que considerou este como «o melhor livro» do poeta azeitonense, dizendo a dado passo: «bastam os poemas que temos diante para catalogar Sebastião da Gama como aquilo que fundamentalmente ele foi: um cantor da vida, das coisas belas da vida, dos sentimentos nobres, da pureza”.

Quando passam 60 anos sobre a primeira edição da obra Pelo sonho é que vamos, a Associação Cultural Sebastião da Gama e o Museu Sebastião da Gama decidiram promover a mostra facsimilada de alguns dos manuscritos que deram origem a este livro. Pena que não possa ser apresentada a versão original da totalidade da obra, mas, no espólio do poeta, não constam os manuscritos de todos os poemas, mesmo porque Sebastião da Gama prendava muitos dos seus amigos com manuscritos, tendo-se, por isso, perdido o rasto de alguns deles. Sessenta anos depois… continua a ser pelo sonho que vamos!
JRR, Abril de 2013

A exposição, com entrada livre, poderá ser vista no Museu Sebastião da Gama até 18 de Maio.

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