terça-feira, 9 de abril de 2013

Na apresentação pública de "Estala de saudade o coração", de Joana Luísa da Gama - II

Intervenção do Presidente da Direcção da ACSG
na apresentação pública da obra


Muitos saberão a história de Joana Luísa da Gama muito melhor do que eu e, por isso, não tenho o direito de aqui a contar. Cabe-me, porém, assinalar o fascínio que sobre mim sempre exerceu a figura e a personalidade de Joana Luísa a partir do momento em que, por necessidade minha, primeiro, e por contingências várias, depois, nos fomos encontrando ao longo destas duas décadas.
Desde que lhe bati à porta, em data que não posso precisar, mas seguramente já depois de 1992, sempre o seu sorriso e a sua disponibilidade se me mostraram, assim como sempre o motivo foi a obra de Sebastião da Gama: por vezes, para ler, outras vezes, para investigar; outras ainda, para saber circunstâncias; de outras, para me satisfazer dúvidas; em variadas vezes, para irmos falar sobre o poeta a escolas; em todas essas vezes, para aprender.
Ao longo destes tempos, sempre a Joana Luísa contou Sebastião da Gama, revelando-o na sua simplicidade e no seu valor; sempre mostrou algo de novo e de poético de um trajecto que foi, ele próprio, um poema. Aquilo que Joana Luísa me deu em termos de conhecimento do Sebastião foi muito. Mais: percebi que essa sempre foi a sua atitude com quem se lhe aproximasse para saber sobre o poeta que foi o seu amigo e o seu marido; percebi que, de alguma maneira, foi a Joana Luísa que o perpetuou, que continuou a sua obra, divulgando-a, contando, corrigindo, preservando a memória.
Poderia a obra deste poeta azeitonense ter-se ficado por pouco, reduzir-se aos três títulos que o próprio Sebastião publicou – Serra Mãe, Cabo da boa esperança e Campo aberto – e a mais uns quantos textos dispersos por jornais e por livros de curso. Podia, de facto. Mas o destino encarregou-se de continuar a dar a conhecer a obra do poeta.
O destino e Joana Luísa. Pois. Mantendo o círculo de amigos de Sebastião da Gama, Joana Luísa foi deixando que a obra do marido viesse a público, foi incentivando que a obra tivesse conhecimento alargado e que, postumamente, o nome de Sebastião da Gama alcançasse os contornos que hoje tem. Trabalho de Joana Luísa, com a concordância de Sérgio Gama, seu cunhado e irmão mais velho de Sebastião, sob a orientação e as leituras de amigos como David Mourão-Ferreira, Maria de Lourdes Belchior, Lindley Cintra, Matilde Rosa Araújo, Couto Viana e Luís Amaro, quase todos eles já desaparecidos, mas que é justo evocar.
Não tivesse sido a dedicação e persistência de Joana Luísa e os leitores de hoje não conheceriam a maior parte da obra de Sebastião da Gama – do Diário, dos poemas, das cartas.
A memória que Joana Luísa conservou de Sebastião da Gama tem sido primordial para a reconstituição da sua biografia e da sua leitura. Além de ter contribuído para a divulgação da obra do poeta, conforme já acima referi, Joana Luísa foi traçando a cartografia de Sebastião da Gama numa série de testemunhos que continuam a ser actos de amor, sempre presentes em todas as sessões alusivas ao poeta que fossem do seu conhecimento, sempre com palavras de revelação a tornar a memória uma coisa viva, com uma frescura de sentir e uma vivacidade própria, cativando públicos, partilhando saberes, revelando Sebastião da Gama, dando continuidade à sua curta vida!
Foi por tudo isto que, há cerca de um ano e meio, lhe propus que a Associação Cultural Sebastião da Gama publicasse o conjunto dos seus textos, criados pelo prazer de relembrar ou para as circunstâncias para que sempre a convidaram, por serem um manancial de memórias, um testemunho importante para a leitura de Sebastião da Gama, um repositório que havia a obrigação de divulgar sob pena de poder cair no esquecimento, associando a essa marca ainda algumas memórias de Azeitão e das suas gentes, de tempos que já não voltam, e também uns poemas da juventude que terão servido, muitas vezes, para um cartear sensível de Joana Luísa com Sebastião da Gama.
Recordo a alegria da sua resposta e do seu consentimento. E, a partir daí, foi um trabalho repartido pela Ana Gonzaga Vieitos e pela Maria João Gonzaga Lourenço, sobrinhas, que deram letra de imprensa aos escritos de Joana Luísa e comigo partilharam a responsabilidade de esta obra chegar aqui hoje.
Seria uma pena que o leitor não tivesse acesso a estas memórias, pois elas ajudam a compreender o que foi a vida de Joana Luísa no sentido de pugnar pela vida que as palavras de Sebastião da Gama construíam, mostram os tempos e as suas diversidades, revelam histórias que completam o “puzzle” da poesia, num percurso em que a capacidade narrativa e descritiva nos confrontam com a primeira leitura dos poemas, mesmo com o seu momento de construção, num ritmo em que nos é dado conviver e entrar nos momentos que Joana Luísa partilha com o leitor.
Para a Associação Cultural Sebastião da Gama, a quem Joana Luísa nunca fechou portas, é um gosto poder dar a conhecer ao público estes fragmentos de vida em jeito de memórias, mesmo porque sentimos tal gesto como uma obrigação, não só de homenagem, mas também de partilha. Aqui fica, pois, mais um contributo para a memória de Azeitão e de Sebastião da Gama, albergado sob um título pedido emprestado a um verso de um poema de Joana Luísa da Gama, a que se acrescentou, “em jeito de posfácio”, um texto de Vladimiro Nunes, jornalista que colaborou com o semanário Sol e que, num encontro de uma tarde, captou a história de Joana Luísa com a sensibilidade de quem sabe ouvir o outro e contar-lhe a história, um bom retrato da autora destas memórias, que aqui ficam com uma flor de poesia. Com a nossa gratidão por este itinerário também feito pela poesia fora! Com o afecto devido pelas coisas reveladas!
Oxalá este Estala de saudade o coração (Lembranças de Sebastião da Gama e de Azeitão) possa constituir uma entrada e um conhecimento do mundo que Joana Luísa e Sebastião da Gama sonharam e, pela escrita e pela memória, construíram.
Muito obrigado!

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