segunda-feira, 20 de maio de 2013

Entrega do Prémio de Poesia Sebastião da Gama (IV) - opinião do Júri



A apreciação da obra premiada, O silêncio solar das manhãs, na sessão de entrega do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2013, esteve a cargo de José-António Chocolate, que falou em nome do júri, discurso que aqui se reproduz.

Discípulo dileto do poeta e escritor José Luís Peixoto, o poeta António Canteiro não só se serve dum excerto do seu livro A criança em ruínas, para citação e enquadramento do seu trabalho (“o silêncio solar das manhãs”) como procura alicerçar – e porque não, até estruturar – nessa frase, que se torna um verso bonito, toda a evolução do texto que nos apresenta. Afinal um texto feito de tantos outros encadeados e em harmonia, que exaltam profusamente a natureza – “sabes de cor, as correntes frias do mar, o troar do vento e da tempestade. sabes de cor, a zina quente da tarde e o calor das noites de luar, no teu corpo aveludado”; “giesta, amarela-verde-flor. se a brisa quiser, dobra-te na beira da estrada”.
E assim António Canteiro nos fala dos ribeiros, dos rios, do mar, da praia, dos campos e dos lugares, cantos e recantos, de hábitos e costumes, enfim tudo o que povoa e dá vida ao seu imaginário, cheio de cores e de sonhos, onde se respira uma atmosfera mística, também ela feita de recordações e de memórias – “se à noite, mãe!, a pele das mãos, ninho cravado de rugas, teias de silêncio, a dormir no regaço, eu te ouvir rezar”; “antigamente, soprava o vento sobre a telha vã e nos pomares despidos de folhagem”.
Sendo o António Canteiro o pseudónimo predileto do autor, João Carlos Cruz, com obra publicada e premiada, a qual regista um percurso literário mais virado para o texto em prosa, não é de estranhar que “Rosa Cravo” (pseudónimo apresentado a concurso neste Prémio) se tenha sentido mais à vontade na opção tomada por uma escrita que perfilha uma estética sóbria de texto corrido e compacto, enquadrado naquilo a que se pode chamar de prosa poética.
Mas desengane-se quem se fica apenas pela impressão visual do texto, porque se trata de verdadeira poesia, de boa poesia, a que não faltam: a) eloquentes e pertinentes metáforas –  “um velho não é senão um menino que brinca ao redor do silêncio”; “pinto ao longe o horizonte, da mesma cor da chama, que te arde no peito”; “ao fundo, distante do rio, uma luz treme sobre as pedras e deita-se, em fios, na estrada de acácias”; “olho com espanto a esteva e a simetria da flor, na harmonia de tons verdes, de folhas cerzidas na côdea dos dias” ; b) felizes imagens – “erguido no cômoro do ribeiro. ufano. entre ervas daninhas. areias e águas turvas. majestoso lírio-rei brasonado, trajado de cetim”; “era no cais, quando a tarde morria, o velho cata a névoa de olhos espetados no céu, tinha a face coada de rugas e os lábios de cor púrpura”; c) uma harmonia encadeada e suportada mais pela aliteração do que pela rima. E tudo isso, intencionalmente explorado em direção a um final que aprofunda a ideia inicial e mais que tudo nos questiona enquanto a si próprio se questiona com um pendor dialético, próprio de quem procura mais que o conhecimento superficial das coisas.
Nota-se que, em O silêncio solar das manhãs, é propositada a forma escolhida, contrapondo-se à substância duma poesia feita de versos serenos e coloridos, uma escrita irreverente que rompe com os cânones gramaticais.
[Na foto: José-António Chocolate em nome do júri.]

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