quarta-feira, 11 de abril de 2012

Sebastião da Gama: poemas para os amigos

Muitos dos poemas que Sebastião da Gama escreveu tiveram dedicatórias para amigos, sobretudo nos manuscritos – são cerca de quatro dezenas os poemas publicados nos três livros por si editados (Serra Mãe, 1945; Cabo da boa esperança, 1947; Campo aberto, 1951) que, não tendo dedicatória nos livros, foram dedicados em manuscrito. A prática era normal em Sebastião da Gama, que gostava de se apresentar como poeta: partilhar poemas com os amigos, não só a dádiva por ouvirem o texto acabado de surgir, mas também a entrega do documento escrito, de que o poeta fazia várias cópias para ofertar.
Há, no entanto, cerca de trinta poemas que tiveram destinatário especificado, motivados que foram por essa prática do livro de curso a encerrar o tempo universitário de uma licenciatura. Sebastião da Gama escreveu para vários amigos e em várias dessas publicações. Cerca de três dezenas é o número de poemas nessas circunstâncias que conseguimos apurar até agora. Dessa produção quase não ficou registo e existem escassos manuscritos desses mesmos testemunhos de afecto.
São esses textos – “poemas para os amigos” – que aqui se mostram, tal como foram publicados na época, originários de seis livros de curso, cinco deles da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e o outro da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Obviamente, aquele que recolheu mais colaboração foi o livro de curso de Sebastião da Gama, com dezoito poemas.
Dessa produção (que pode não estar ainda toda reunida, insiste-se), apenas um poema foi seleccionado por Sebastião da Gama para figurar num dos seus livros: o dedicado a Maria Virgínia Pereira de Oliveira, sua colega de curso, cujo primeiro verso é “Como as ondas dos lagos”, incluído no segundo livro, o Cabo da boa esperança, sob o título de “Desenho”.
Em obra póstuma, mais quatro destes poemas, do curso de 1946-1950, foram incluídos em livro – são os dedicados a Irene Lima Mendes, Maria do Sameiro Brum Lopes Prieto, Maria dos Remédios Cid Castelo-Branco de Carvalho e Maria Sara Pinto da Cruz Malato, que foram escolhidos por António Manuel Couto Viana, António Osório e Luís Amaro para o corpo de Estevas (2004).
Duas observações mais são ainda devidas: a de existir um poema manuscrito de Sebastião da Gama dedicado a José Gonçalo Chorão de Carvalho no exemplar do livro de curso de 1941-1945 que pertenceu ao poeta, ainda que esse poema não tenha visto a letra de imprensa, ignorando-se por isso se não foi inserido por esquecimento ou se foi produzido após a publicação do livro; finalmente, na página consagrada a Maria Eduarda Ventura Carreiro, há um longo poema que, num exemplar que Sebastião da Gama ofereceu aos seus amigos Alberto Fialho e Lourdes Fialho, foi dividido em três partes pelo próprio poeta, tendo sido aposta a sua assinatura numa dessas partes, ficando a ideia de que, por lapso tipográfico, terão sido juntos três poemas num único, com uma única assinatura de autor, sendo que um deles seria de Sebastião da Gama.
A obra que até hoje se conseguiu reunir a partir dos livros de curso tem as seguintes dedicatórias: no Álbum dos Finalistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – Curso de 1940-1944, Maria Margarida Rosa Niny Teixeira e Miguel Emauz Leite Ribeiro; no Novíssimo Cancioneiro – Curso de 1941-1945 – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Matilde Rosa Lopes de Araújo; em Nós os Finalistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Fomos Assim… de 1942 a 1946, Cristina de Sampaio, Maria Margarida León da Silva, Maria Normanda Guedes Fernandes, Carmen – Manel, Eurico Lisboa, Júlia do Carmo Coelho dos Reis Lucas Gomes Ferreira, Maria Alice Gyrão Calheiros Botelho Moniz, Maria da Ascenção Ferreira Custódio de Morais, Maria Eduarda Ventura Carreiro, Maria Helena Freitas Serra, Maria Leonor Fernandes Machado Pereira, Maria Virgínia Pereira de Oliveira, Maria Vitória Pimenta Brisson, Ana Maria Pais Rovisco Andrade Carrêço, Isis Pereira Esteves, Maria Clementina de Magalhães Pessoa, Francisco António Vidal Abreu Alçada Padez e José Manuel de Noronha Gamito; em Ao cabo das tormentas – Faculdade de Letras – Universidade de Lisboa 1945-1949, Maria de Lourdes Costa Artur; em Finalistas de Letras – Universidade de Lisboa – Curso de 1946-1950, Irene Lima Mendes, Maria do Sameiro Brum Lopes Prieto, Maria dos Remédios Cid Castelo-Branco de Carvalho, Maria Irene Ribeiro Gonçalves da Silva e Maria Sara Pinto da Cruz Malato; em Livro dos Quartanistas de Letras – Coimbra – 1949, Maria Luiza Tavares e Sousa.
Poderíamos ser tentados a ver estes textos como poemas de circunstância, dada a filosofia e características dos livros de curso. No entanto, mesmo aí, a poesia de Sebastião da Gama não se desvia do cunho temático que a enforma: a música, a poesia, a alegria, a Natureza, a ironia, as referências literárias, o sonho, a infância, a mulher, a vida.
JRR

Sem comentários:

Enviar um comentário