terça-feira, 10 de abril de 2012

"...Poesia..." ou Sebastião da Gama vivo!



O ano que decorre é assinalado por dois acontecimentos que marcam a nossa memória colectiva — o dia em que morreu o poeta, já assinalado, e o dia em que o poeta deixou os braços do ventre materno para se espraiar nos parámos celestiais de uma outra existência que tudo, afinal, sobreleva, este 10 de Abril do parere para se descobrir, descobrir os outros e com eles ser uma interacção duradoura e humaníssima.
Na verdade, em verdade e pela verdade incorrupta, Sebastião da Gama é um poeta de eleição, um pedagogo ímpar e um homem sensível que sobrepuja a dor, transcende a mágoa e tece girândolas de alegria à existência de estar vivo:                      
                         
                        “A parte que lhe coube por destino,
                        tem de morrer deixando-a já cantada.
                        Que faz que a não escutem nem lhe
                                                           Acudam?
                        É preciso é sentir que se está vivo.
                        É preciso é que as asas que
                                                          sosseguem
                        o  tenham merecido”

como escreveu David Mourão Ferreira no fascículo nº12 de Távola Redonda aquando da amaríssima despedida do seu companheiro de arte e do seu dilecto amigo de sempre.
Também José Régio se lhe dirige em termos filosóficos, desta feita nos fascículos nºs 16 e 17 das mesmas folhas de poesia, assim: “… não obstante, compreendo agora como certa gravidade da obra de Sebastião da Gama — essa profunda gravidade que em vários seus poemas tão admiravelmente ombreia com a graça, a frescura, a juvenilidade, até a malícia, quer dos mesmos quer dos poemas vizinhos — era ganhada na convivência da Morte: essa morte à qual, num dos mais tocantes e complexos gritos do nosso lirismo, ele pede a Deus o poupe, por ainda se não julgar digno dela! Só tal conveniência, que é a dos que vão morrer ou pressentem morrer cedo ou vivem mortos para as superficialidades da vida corrente, – ainda que tão vivos, como Sebastião da Gama, para todas as amabilidades do Momento eterno — só tal conveniência ensina coisas que também só a verdadeira Poesia comunica.”.
Efectivamente o meu amado, que hoje nasce, regressa sempre, sempre à sua dinâmica de afectos, tanto pessoais que derrama sobre o que de mais humilde existe como no que de maior complexidade imagética concebe — o regresso à genuína matriz lírica da feitura da poesia portuguesa. Espantoso é como um menino, o meu menino que hoje para nós veio no e ao misterioso despontar da luz da vida humana, saiba e possa chorar, ao mesmo tempo, tanto como nascituro imaculado como adulto prematuramente amadurecido e puro. Espantoso, também, é como uma criança soube demonstrar que a arte poética é por si mesma uma expressão da condição humana e que isso é uma função do significado que forem dados às expressões que, isoladamente pouco ou mesmo um nulo significado possuam, ou seja, se houver uma pessoa que afirme que a validade da arte deve estar sempre ao serviço de qualquer intuito político, social, ideológico ou político, se se afirmar isso — há razão para ser dito assim mas, mas se, ao bater o pé, se jura que as manifestações imagético-estéticas têm de ser sempre servidoras e hipotecadas do e ao social e ao momento político que esvoaça e se esfarela como um pó envenenante, então isso é uma enormidade abortiva, ao parafrasear o Professor Abel Salazar que tão vilmente foi tratado pelo Estado Novo, como todos os da geração de 1950 o foram e a que Sebastião da Gama irá pertencer enquanto houver Histórias da Literatura Portuguesa e da Humanidade!
O “Bastião”ternurento, que espalha ternura nos nossos corações, esse Poeta companheiro de Agostinho da Cruz, vai continuar a deambular nas subidas e descidas da Serra, ouvindo o marulho do mar, vendo e cheirando os aromas estonteantes que dela se descolam, sentindo a vida a correr na galopada de outro modo de estar com a gente. E se disser que, “às vezes vejo-te mesmo, de braços abertos a sorrir, um cravinho vermelho no sobretudo azul-escuro, os lábios gretados de frio, sorrindo com o teu sorriso terno. Os olhitos verdes a piscarem, a falarem duma alma imensa de ternura — e nessa alegria tão completa, tão chã, quanta compreensão desiludida e iludida pela tua bondade franciscana de criança que, só pelo tempo que lhe doeu, foi Homem”, se disser isto, estou a transcrever a Matilde Rosa Araújo, em Távola Redonda, publicação nº 17.
O meu menino serrano, canção renascida em cada ano de Abril da nossa Liberdade nossa Senhora, o meu menino canta e brinca no fundo da noite e, depois, tranquilamente, adormece no meu colo, acarinhado pelas minhas mãos trémulas de fantasia a tecerem a melhor carícia para lhe dar.
Sebastião da Gama, um poeta rico e com nada — porque tudo deu!
Daniel Nobre Mendes

1 comentário:

  1. Quando nasceu, ficou tudo como estava. Nem homens cortaram veias, nem o Sol escureceu, nem houve Estrelas a mais …somente, esquecida das dores, a sua Mãe sorriu e agradeceu. Quando nasceu, não houve nada de novo, senão ele. As nuvens não se espantaram e não enlouqueceu ninguém … para que o dia fosse enorme, bastou ao poeta toda a ternura que olhava nos olhos de sua Mãe …
    Foi assim o dia 10 de Abril de 1924. Como soube? Foi o meu querido poeta da Arrábida que o conta em “Pequeno Poema”, que é um lindo poema e, ao mesmo tempo, um belo hino à maternidade e às nossas Mães. Obrigado, Sebastião da Gama.

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