sábado, 19 de março de 2011

Manuela Cerejeira: Diário de Sebastião da Gama - Exemplo no ensino da literatura

No 9º Encontro Nacional de Professores de Português, organizado pela APP (Associação dos Professores de Português) na Figueira da Foz durante os dias de ontem e de hoje, o Diário de Sebastião da Gama foi objecto de uma comunicação apresentada por Manuela Cerejeira, nossa associada e professora de Português, que abordou o ensino da literatura a partir desta obra do Poeta da Arrábida.
Por gentileza da sua autora, que agradecemos, aqui se reproduz o texto de tal comunicação. - JRR

Diário de Sebastião da Gama – exemplo no ensino da literatura
“Eu não quero ‘impingir’ versos aos meus alunos; quero abrir-lhes a janela da poesia.”

Diário, de Sebastião da Gama (1924-1952), é um relato do estágio feito pelo escritor enquanto docente de Português, nos anos lectivos de 1948-49 e 1949-50. Passam, assim, 60 anos sobre a produção desta obra, texto literário que oferece uma reflexão sobre a própria literatura e o seu ensino.
Pela índole poética do texto, bem como pelos traços do perfil do seu autor que nele estão expressos, Diário é uma peça fundamental para o estudo da obra de Sebastião da Gama.
Sebastião da Gama é um daqueles casos em que parece praticamente impossível dissociar o homem do artista. Muitos dos críticos que escreveram sobre a sua obra são pessoas que o conheceram de perto e que são unânimes em afirmar a proximidade entre a sua personalidade e a sua escrita.
E o que se diz, neste caso, acerca da impossibilidade de separar a obra poética do percurso biográfico e da personalidade do autor é verdade também para a sua actividade profissional, como o seu diário comprova: “Professor e poeta, afinal, mostra este documento, eram duas faces da mesma fisionomia espiritual e integravam-se na realidade concreta de uma singularíssima alma.”, escreveu Hernâni Cidade no prefácio para a 1ª edição do Diário (1958).
Este livro contém o relato de dois anos de leccionação da disciplina de Português na Escola Veiga Beirão, em Lisboa, no âmbito de um estágio pedagógico.
Por sugestão do professor metodólogo, Sebastião da Gama iniciou a escrita de um diário que viria a ser muito mais do que o registo das actividades realizadas durante as aulas, da preparação destas ou de observações acerca dos alunos. De facto, Diário apresenta-se como um texto literário repleto de marcas poéticas.
“Bem haja o metodólogo por esta ideia do diário. A gente, assim, pode olhar para trás e ver a vida. (...) Além disso, como palavra puxa palavra, vou carreando para aqui coisas que me interessam (...) e que o pó do tempo havia de velar, um dia.” (18 de Março de 1949).
Divide-se esta obra em quatro partes: as duas mais significativas têm como referência temporal os anos escolares de 1948-1949 e 1949-1950; entre ambas, surge um texto com o título “Uma página de férias” e, no final, um Apêndice, que apresenta uma nova experiência pedagógica, desta vez em Estremoz, no ano lectivo seguinte. Este apêndice é curto: menciona apenas o mês de Outubro de 1950.
A natureza dos textos é diversificada: encontramos desde simples notas de agenda – “Constipado. Ausente.” (12 de Novembro de 1949); “Não houve aula, por causa da recepção ao Senhor Marechal Carmona,” (7 de Fevereiro de 1949) – até longas descrições, cheias de pormenores, como a de Coimbra (25 a 29 de Abril de 1949) ou marcadamente líricas como a da Arrábida: “E que verde que é o mar em Outubro! E como tem outro som – um som só para nós, feito de propósito para os nossos ouvidos de gente que vive como num ventre! (...) A Arrábida é novamente uma ilha e nem sequer, se começa a chover, precisa ela da metáfora para ser uma ilha autêntica; mar salgado de uma banda, rio de lama por outra." (11 de Outubro de 1949)
Mas, obviamente, são os elementos pedagógicos e didácticos que ocupam a maior extensão do texto e que merecem um tratamento mais aprofundado.
Assim, encontramos referências:
 a actividades e estratégias
- leitura (“O que interessa, mais que tudo, é ensinar a ler”, 4 de Março de 1949),
- escrita,
- gramática contextualizada;
 à pedagogia do erro (“ensinar Português a partir do que estava errado”, 19 de Janeiro de 1949); “o erro é cheio de sugestões que é preciso aproveitar”, 21 de Fevereiro de 1949)
 à avaliação (“Quis acabar com ‘o terror da chamada’; é esse terror que leva a criança a faltar à aula, a inventar uma desculpa, a tremer perante o professor”, 24 de Janeiro de 1949); “além de que o número é uma avaliação tão tosca!”, 24 de Janeiro de 1949)
 à pesquisa de informação (15 de Outubro de 1949)
 ao recurso a meios visuais existentes na época (“fazer as aulas à base de fotografias”, 25 de Março de 1949)
 a iniciativas originais – semanas temáticas, “Biblioteca Girante”.
Gostaria de salientar a modernidade deste pedagogo, visível na adopção de determinados métodos, hoje considerados comuns, mas que à época (há mais de sessenta anos!), eram seguramente inovadores, se não mesmo revolucionários.
Refiro-me, por exemplo:
 ao reforço das atitudes positivas;
 a uma pedagogia diferenciada, que tenta atende à especificidade de cada aluno e que procura “levar os fracos ao nível próximo-possível dos fortes” (19 de Janeiro de 1949);
 à primazia dada ao desenvolvimento de competências de comunicação (“Afinal, do que precisamos nós? Bem pensar, bem dizer, bem escrever”, 17 de Novembro de 1949),
 a um processo ensino-aprendizagem que visa a autonomia, que se concretiza em detalhes simples, com seja levar os alunos a redigir o sumário da aula “dando assim notícia da sua capacidade de síntese” (14 de Janeiro de 1949).
O sucesso das tarefas propostas ou das estratégias desenvolvidas avaliava-o Sebastião da Gama com rigor e com uma grande exigência para consigo mesmo; mas também o fazia, muitas vezes, com emoção, pois vibrava com os momentos felizes e entristecia-se quando as coisas não corriam bem. “O que era bom era dar sempre uma aula como a de hoje!” (22 de Outubro de 1949); “E foi o que eu ontem não consegui...” (25 de Março de 1949).
A respeito dessas aulas que o deixavam insatisfeito, comenta: “Ser bom professor consiste em adivinhar a maneira de levar todos os alunos a estarem interessados, a não se lembrarem que lá fora é melhor” (25 de Março de 1949).
Importa salientar a extraordinária relação de amizade e companheirismo que Sebastião da Gama estabelece com os seus alunos, que é patente nas aulas e fora delas e que se prolonga no tempo, pois há antigos alunos que se escrevem com ele; o professor dá notícia desse facto com orgulho e satisfação.
O poeta-professor elogia a transparência e a sinceridade; não admite discriminações, contesta todo o tipo de autoritarismo e de imposição e valoriza a autonomia do discente: “não é mais interessante ser ele a encontrar, depois de ter procurado?”; “Eu não quero ‘impingir’ versos aos meus alunos; quero abrir-lhes a janela da poesia” (9 de Março de 1949).
O ensino da literatura liga-se, neste contexto, a uma educação para a estética (“perceber até ao fundo a beleza ou o tamanho do que se lê”) e para a sensibilidade.
Analisando as propostas apresentadas em Diário vemos como a abordagem do texto literário contribui para o desenvolvimento de outras competências linguísticas (compreensão/expressão oral, escrita, CEL) e para a evolução de competências pessoais.
Sebastião da Gama considera o ensino um meio propício para estabelecer laços; concebe as aulas como “pretexto para estar a conviver com os rapazes, alegremente e sinceramente” (11 de Janeiro de 1949); perspectiva a vida escolar como uma partilha de experiências e saberes: “(…) merece a pena sobretudo deixá-los falar, porque descobrem imensas coisas que nós já não somos capazes de descobrir” (11 de Fevereiro de 1949).
Esta ideia não é, obviamente, exclusiva do ensino da literatura; mas encontra nele um meio privilegiado. O contacto com a arte – neste caso, com o texto literário – leva à reflexão e ao auto-conhecimento, alarga horizontes, abre-nos ao mundo e aos outros. Dizia Sartre que um escritor revela o mundo aos outros homens. É importante que quem ensina literatura tenha esta consciência; Sebastião da Gama tinha-a.
Num excerto que é, porventura, o mais conhecido deste diário, o autor apresenta aos alunos aquilo que considera ser o seu objectivo e a sua missão: “O que eu quero principalmente é que vivam felizes. (...) Não sou, junto de vós, mais do que um companheiro um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não: falar delas.” (12 de Janeiro de 1949).
Já aqui foi dito que, no caso de Sebastião da Gama, se torna impossível afastar o homem do poeta e o poeta do professor; estes últimos têm, aliás, muito em comum – é este o teor de uma reflexão feita por Sebastião, na sequência de um encontro com Miguel Torga, na Arrábida: “Disse ele da Poesia uma coisa, duas coisas que eu sempre tenho pensado (...) Primeiro, que é necessário que a Poesia venha ao nosso encontro; segundo, que é preciso, para a receber, ter as mãos purificadas”. (28 de Março de 1949) “Para ser professor, também é preciso ter as mãos purificadas.” (30 de Março de 1949) – acrescenta.
O que é específico desta obra, Diário, é, como dizia no início, o facto de ser um texto literário sobre o ensino da literatura; não é um livro técnico, não é um tratado de pedagogia nem um manual de didáctica: é um livro escrito por um poeta que é professor (ou por um professor que é poeta).
A missão de um poeta assemelha-se à que, ao longo de todo este texto, Sebastião da Gama reivindica para um professor: alguém que, em virtude daquilo que vive interiormente, leva os outros mais longe; alguém que conduz os alunos a uma outra dimensão da realidade, que os faz descobrir o que, antes, não viam; os poetas, tal como os professores, são aqueles que “(...) fazem de um nabo uma rosa, em vez de fazerem de uma rosa um nabo. Põem beleza e amor na vida e obrigam os outros a ver onde eles não eram capazes de descortinar.” (16 de Fevereiro de 1949).
Manuela Cerejeira

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