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“…Poesia…” ou Sebastião da Gama vivo!

A revista "tabu", de 3 do mês que decorre, insere nas suas páginas um belo trabalho de Vladimiro Nunes sobre algumas confissões a que Joana da Gama não mandou fechar o gravador que as reproduz e, assim sendo, a companheira extremosa do poeta arrabidino vai, ao longo das linhas do jornalista do Sol, reinventando vivências idas que a viagem pelo deserto voraz da existência não apagou.
Esta octogenária simpática continua a deslizar no comboio mágico da vida e de nada se arrepende pois que a sua experiência afectiva, que não posso nem devo caracterizar por razões de pundonor, lhe ensina e determina uma comunicação sincera para o público que, com carinho receptivo, a acolhe e estima.
Verdadeiramente chega-se ao Sebastião Artur Cardoso da Gama, o “Bastião”, como com ternura e desvelo é chamado. Chegamos até ao poeta serrano, mais perto dele ficamos seguindo o trilho da oralidade de Joana até quase atingirmos essas duas íntimas humanidades que se não escondem e sentimos o poeta, ele mesmo, sentimo-lo na sua interioridade privada como água puríssima que canta e se não cala na música do cante poético da sua voz para que a serra, com o seu folhado, a sua urze, numa mistura de embriagadores cheiros, o sussurro oceânico embalador, ao longe, a enorme solidão das vozes estridentes que envolvem o seu dia a dia silente, sentimo-lo pertinho, mesmo pertinho da raiz do nosso coração — para que a Arrábida não desperte desse sono melodioso afagado pelos olhos, pela fala e pelo sentir de um poeta de fina sensibilidade e de singeleza genuínas.
Mas a outra maneira de sentir Sebastião da Gama é lendo-o e meditando-o pela palavra lavrada, semeada, adubada pelo seu próprio sangue de moço ceifado aos 27 anos. Que injustiça!
“Poesia” foi a última palavra que escreveu com as cordas vocais, quero escrever musicais, poesia, essa essência translúcida como a vida que se esvai mas que permanece abrigada no envelope de um poema tal como a vida num corpo feito de finitude.
A poesia é eterna mas a vida não!
“Poesia”, a última palavra que disse, a primeira palavra que sentiu como a expressão fiel do espelho da verdade — um pórtico abrindo-se do seu portelo pequenino e humilde do Portinho da Arrábida para a posteridade, um poeta para conhecer e amar, tal como ele o fez para e com toda a gente, dando e dando-se sem cobrar juros e sem nada em troca esperar. Dando-se. Dando-se simplesmente…
“Bastião” é assim enquanto se ler em língua Portuguesa porque permanece vivo e só vivos os poetas e a poesia fazem sentido.
Sebastião da Gama ainda só tem 27 anos. É uma criança a sorrir e a brincar com as tranças luzidias da minha noite estrelada!!!
Daniel Nobre Mendes

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