Brancas, as velas eram sonhos que o rio sonhava alto. Meninas debruçadas em janelas, viam-se, à flor azul das águas, as gaivotas. E a Manhã quieta (sorrindo, linda, vinha vindo a Primavera…) punha os pés melindrosos entre as conchas. Derivavam jardins imponderáveis dos seus passos de ninfa e tremiam as conchas de súbitas carícias. Longe era tudo: o medo dos naufrágios, as angústias dos homens, o desgosto, os esgares das tragédias e comédias de cada um, os lutos, as derrotas. Longe a paz verdadeira das crianças e a teimosia heróica dos que esperam. Ali, à beira-rio, de olhos só para o rio, de ouvidos surdos ao que não é a música das águas, um sossego alegórico persiste. Nem o arfar das velas o perturba. Nem o rumor dos seios capitosos da Manhã, que nas águas desabrocham e flutuam, doentes de perfume. Nem a presença humana do Poeta - sombra que a pouco e pouco se ilumina e se dilui, anónima, na aragem… Sebastião da Gama (8 de Abril de 1948, poema dedicado ao amigo Alberto Fialho) in Camp...
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